No Largo do Pará, o tempo desacelera em Campinas
Espaço, que atravessou gerações, mantém-se como ponto de encontro da população
Há lugares que não se explicam apenas pelo traçado das ruas ou pela data da inauguração. O Largo do Pará é um desses, um espaço onde Campinas aprende a desacelerar, a se reconhecer e a se encontrar.
Entre sombras de árvores, passos apressados que se tornam pausas e risadas que atravessam gerações, o largo, no coração da cidade, guarda a memória afetiva de uma hoje metrópole em constante transformação.
Localizado em área central tradicional, ao lado do viaduto Aquidaban, o largo acompanhou de perto a formação urbana do município. Em meados do século XIX, quando a cidade ainda consolidava o seu traçado, o espaço já cumpria a função de ponto de convivência.
Em 1848, passou a se chamar “Largo da Independência”, um nome que remete ao momento histórico do Brasil naquele período e do próprio crescimento urbano da então vila de Campinas e o espírito de afirmação nacional vigente naquele período.
Poucos anos depois, em 1854, ficou conhecido como Largo do Tanquinho, devido ao nome de um reservatório de água existente na área, condição básica para fomentar a vida urbana da época. Assim, desde cedo, o largo se conectou às necessidades práticas da cidade, ao mesmo tempo em que se afirmava enquanto espaço de sociabilidade.
Outras denominações
As mudanças de nome ocorreram ao longo das décadas seguintes, acompanhando as transformações políticas, sociais e simbólicas de Campinas. Em 1882, tornou-se Praça São Paulo, em alusão ao Estado de São Paulo, e, em 1896, a Câmara Municipal aprovou oficialmente a denominação “Pará”, em homenagem ao maestro campineiro Carlos Gomes, que viveu e faleceu no Estado do Pará, no Norte do Brasil.
Em 1930, por um curto período, passou a se chamar Praça João Pessoa, em homenagem a um político da época, voltando, definitivamente, em 1937 a adotar o nome de Largo do Pará, conforme a Lei nº 515.
Transformação decisiva
No fim do século XIX, o espaço passou por uma transformação decisiva. Em 1899, o Largo do Pará foi arborizado e ajardinado, recebendo mudas fornecidas pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), seguindo a tendência urbana que ganhava força no Brasil, a de criar áreas verdes como espaços de saúde, lazer e convivência. As árvores, jardins e o gramado integraram-se à nova paisagem, oferecendo uma nova maneira de se vivenciar o largo dali para frente.
Ao longo do século XX, o Largo do Pará foi se adaptando às mudanças do entorno. Reformas pontuais ajustaram calçadas, circulação e paisagismo, acompanhando o crescimento de Campinas e o aumento do fluxo urbano. Apesar disso, o espaço preservou a sua vocação original de ser lugar de passagem, mas também de permanência.
Valor urbanístico e afetivo
Entre os símbolos que ajudam a contar essa história no local está o monumento ao café, instalado em 1927, na região. Outro elemento emblemático é o chafariz de ferro fundido, uma peça do final do século XIX que, após períodos de abandono, foi restaurada e devolvida ao convívio cotidiano, reforçando o diálogo entre o passado e o presente.
O reconhecimento de sua importância ocorreu, oficialmente, em 2008, quando o Largo do Pará foi tombado como patrimônio cultural de Campinas. Para além do gesto administrativo, o tombamento representou o reconhecimento do seu valor histórico, urbanístico e, sobretudo, afetivo.
O secretário de Serviços Públicos, Ernesto Paulella, reforça sobre a importância do espaço para a cidade. “O Largo do Pará é uma praça de aproximadamente 5 mil metros quadrados, que leva em seu nome a homenagem ao maestro Carlos Gomes, que viveu muitos anos no estado paraense. O local conta com um chafariz, que foi restaurado pelo Departamento Parque de Jardins (DPJ), academia ao ar livre, playground, paisagismo e um conjunto de árvores bastante antigo, além de um coreto. O coreto, erguido nos anos 70, também foi recuperado recentemente pelo DPJ”.
E complementa: “Essa praça tem uma importância enorme para a área central, visto que a região é formada majoritariamente de moradias verticais, os apartamentos, e, portanto, ela acaba servindo como uma das principais áreas de lazer nesse quadrilátero central da cidade de Campinas.”
Memória viva
Hoje, o Largo do Pará, que ocupa um quarteirão na principal avenida do Centro, a Francisco Glicério, segue fiel à sua essência e uso, recebendo feirinhas, eventos culturais, manifestações populares e outras atividades ao ar livre, devolvendo ao espaço a alegria do encontro. Crianças brincam livremente sob a atenção das famílias, enquanto idosos ocupam os bancos à sombra das árvores, fazendo do local uma extensão de suas próprias casas. É a cidade em estado puro de convivência.
A nostalgia que envolve o Largo do Pará não é a de um olhar preso ao passado. É a de uma memória viva, que se renova a cada encontro, a cada conversa, a cada nova geração que descobre o valor de estar ali. Preservá-lo é resguardar a própria ideia de cidade como espaço humano, construída por ruas e edifícios, mas também, e principalmente, de histórias compartilhadas.
Em tempos de pressa, ele convida à pausa. Em meio às transformações, lembra-nos que alguns lugares precisam permanecer para que possamos continuar sendo quem somos. Porque, enquanto houver encontros, risos e histórias compartilhadas, o Largo do Pará seguirá sendo um espaço onde o tempo parece que parou na mente e coração dos campineiros.
