Ex-vereador de Campinas (SP), Paulo Gaspar expõe corrupção em livro
O arquiteto e urbanista Paulo Gaspar, vereador de Campinas (SP) de 2021 a 2024, lançou um livro este ano para expor o modus operandi do sistema político brasileiro. Sustenta que o eleitor não se sente devidamente representado devido às distorções proporcionadas pelo próprio sistema eleitoral, que mantém a corrupção no poder, desinteressando o cidadão comum da política e fazendo-o descrente que algo possa mudar na prática.
Gaspar não conseguiu se reeleger no pleito de 2024, mas decidiu relatar as experiências no Legislativo e o que aprendeu com a vivência na obra "Eles Não Querem Que Você Saiba" (UICLAP, 106 páginas)
Técnico em edificações pela Unicamp, foi o primeiro vereador eleito pelo Partido Novo em Campinas. Contou com 3.014 votos em 2020 e foi o parlamentar que mais economizou na história da cidade, poupando R$ 1,1 milhão dos cofres públicos, recusando os recursos disponíveis para as regalias do gabinete.
O ex-parlamentar abriu mão de todos os privilégios do mandato, como carro oficial, combustível, auxílio correio, material de escritório, material gráfico para diplomas e medalhas, além de manter um número restrito de assessores e de não ter cargos na cota do Executivo.
Presidiu a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), que investigou a corrupção em contratos na Câmara Municipal e a frente parlamentar de legislação urbana, e é o único vereador campineiro que não está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) no processo de apuração das emendas parlamentares que foram doadas em 2024.
Protocolou mais de 1.500 requerimentos para fiscalizar os poderes Executivo e Legislativo e participou de 22 comissões.
Em entrevista ao Correio da Manhã, expôs mais dados da carreira e informações sobre o livro, que, no desfecho, aponta um caminho prático para que o cidadão se conscientize da política e venha a votar conscientemente.
Por que o senhor resolveu entrar na política?
Nunca tive intenção de ser político com mandato. Meu interesse começou em 2013 quando fui para as ruas de curioso na manifestação pelos 20 centavos. Em 2014, com a reeleição de Dilma (Rousseff), resolvi participar das manifestações pelo impeachment e me tornei um ativista. Fundei o MBL (Movimento Brasil Livre) em Campinas (SP) e comecei a frequentar a Câmara Municipal, fazendo um trabalho de fiscalização junto aos vereadores bem como à prefeitura. Em 2019, fui convidado a me filiar ao partido Novo e a ajudar na formação da chapa para as eleições de 2020, e, para minha surpresa, acabei sendo eleito vereador.
Como define o próprio mandato?
Independente e focado em fiscalização, em transparência e em austeridade no uso dos recursos públicos. Eu me recusei a fazer parte da base do governo e procurei fazer uma oposição responsável.
Qual foi a sua maior dificuldade enquanto vereador?
Estar sozinho na defesa dos reais interesses do contribuinte campineiro, no combate à corrupção e na diminuição dos privilégios dos vereadores e da administração em geral.
Como analisa a atual situação política de Campinas?
Igual à de qualquer cidade brasileira, ou seja: trágica, pois a administração municipal é controlada por partidos políticos que têm como objetivo saquear o dinheiro público para se perpetuar no poder. A corrupção, a burocracia e a incompetência são o método presente em todas as administrações.
E a do Brasil?
É a somatória do que acontece em seus 5.569 municípios, ou seja, um caos generalizado. Os responsáveis pela tragédia são os partidos políticos, que são facções que controlam todo o país.
Como o senhor vê as eleições de 2026, sobretudo quanto à polarização?
A polarização é um grande teatro que só é possível devido à ignorância dos cidadãos que têm políticos de estimação, mas, no mundo real, o Brasil é controlado pelos partidos políticos. O que menos importa é quem vai sentar na cadeira de presidente ou governador porque eles serão reféns do sistema (os partidos políticos e seus aliados). O mais importante são os deputados e senadores, pois a força dos partidos vem deles. O Congresso tem o poder de achacar o poder executivo e conseguir se perpetuar no poder.
O Brasil tem jeito?
O crime organizado presente na sociedade tem suas raízes dentro do crime organizado instalado nas prefeituras, nas câmaras municipais, nas assembleias estaduais e no congresso nacional. Um não existe sem o outro, e, para mudar isso, somente quando a população aprender a votar em pessoas sérias, honestas e competentes e a fiscalizar de perto o trabalho dos nossos governantes. Não existe outro caminho.
Qual é o futuro político do senhor?
Não consegui me reeleger porque não tive votos suficientes, apesar da qualidade do nosso mandato. O fato de não ser da base do governo fez com que eu ficasse fora do jogo. Não consegui aprovar a maioria dos projetos na Câmara. Fui boicotado pela maioria dos colegas parlamentares por sempre ser contra a política do "Pão e Circo". O populismo, o clientelismo e o patrimonialismo exercidos ao longo dos quatro anos de mandatos fazem com que os vereadores da base "ganhem muitos votos". Por isso, não tenho interesse em participar novamente do processo eleitoral.
Por que o senhor saiu do Novo?
O Novo que eu me filiei era um partido diferente. Era de direita, mas não flertava com o bolsonarismo, que é uma seita onde as pessoas cultuam um político e a família dele. Por questão de sobrevivência política, o partido resolveu dar espaço a essas pessoas, e hoje elas controlam o partido.
Quais as bandeiras que o senhor ainda defende?
Desburocratização, diminuição dos gastos públicos, fim dos privilégios, combate à corrupção, defesa do livre mercado e do empreendedorismo, planejamento e desenvolvimento urbano sustentável, incluindo aspectos como mobilidade, infraestrutura e saneamento básico, meio ambiente, defesa do patrimônio histórico e inclusão social.