Milton Leite é alvo de operação que investiga infiltração do PCC em ônibus
Ex-presidente da Câmara de São Paulo é alvo de mandado de prisão na Operação Vectura Corrupta, que mira 12 empresas de transporte
O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil) é um dos alvos da Operação Vectura Corrupta, deflagrada nesta quinta-feira (17) pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP). A investigação apura suspeitas de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo.
Ao todo, a operação cumpre 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. Entre os alvos estão também o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira e Danilo Marco Morgado Silva, ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e candidato a deputado estadual.
Milton Leite não foi localizado pelos policiais em sua residência durante o cumprimento do mandado de prisão. Segundo informações divulgadas durante a operação, a Polícia Civil passou a tratá-lo como foragido. As equipes permaneceram no imóvel para cumprir o mandado de busca e apreensão.
Em nota, porém, Milton Leite afirmou que está viajando e negou estar foragido.
“Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou o ex-vereador.
Investigação aponta atuação no setor de transporte
Segundo a investigação, decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte que seriam ligadas ao PCC dependiam do conhecimento ou da aprovação política de Milton Leite.
Os investigadores chegaram a essa conclusão a partir da análise de interceptações e de elementos obtidos em outras apurações sobre a atuação do ex-vereador no setor. No pedido que fundamentou a operação, Milton Leite é apontado como responsável direto pela operação de algumas empresas que, segundo a Polícia Civil, seriam controladas pela facção.
O documento também cita depoimentos de policiais militares prestados em procedimento no Tribunal de Justiça Militar. De acordo com a investigação, esses agentes afirmaram que Milton Leite seria o proprietário de fato da empresa Transwolff.
As informações fazem parte das suspeitas investigadas e ainda serão submetidas ao processo judicial. Milton Leite nega as acusações.
Ex-presidente da SPTrans também é preso
Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, está entre os presos da operação. Segundo a investigação, embora ele não apareça como interlocutor direto de José Daniel Satilite, conhecido como Alemão e apontado como um dos personagens centrais do esquema, os dois teriam mantido encontros periódicos.
A Polícia Civil sustenta que as reuniões estariam relacionadas a interesses do PCC no setor de transporte, principalmente depois da Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em 2024.
A investigação também alcançou Danilo Marco Morgado Silva. Ele disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e posteriormente lançou candidatura a deputado estadual, mas teve o registro cassado.
Segundo a Polícia Civil, Danilo já havia sido alvo de busca e apreensão na Operação Decurio. Nesta nova etapa, os investigadores afirmam ter identificado um vínculo considerado relevante entre ele e integrantes do PCC e apuram a suspeita de que sua campanha à Prefeitura de Praia Grande tenha recebido recursos da organização criminosa.
Doze empresas de ônibus são investigadas
Uma das principais frentes da Vectura Corrupta envolve 12 empresas de transporte coletivo que, segundo a investigação, seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC.
São elas Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus Transportes, Norte Bus e Spencer Transportes.
Parte das empresas já apareceu em investigações anteriores sobre a atuação da facção no setor de transporte público.
A Transwolff, por exemplo, foi alvo da Operação Fim da Linha. Na ocasião, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora e então presidente da companhia, foi preso sob suspeita de ligação com o PCC.
A investigação atual também analisa a atuação de Alfa Rodobus e Sancetur em operações que anteriormente eram realizadas por Transwolff e UpBus após a operação de 2024.
Segundo a Polícia Civil, os elementos reunidos indicam uma possível estrutura de infiltração do crime organizado no transporte público, com participação de integrantes e intermediários da facção em empresas e procedimentos relacionados a licitações.
Investigação mira núcleo de advogados
Outra frente da operação envolve a chamada “Sintonia dos Gravatas”, expressão utilizada na investigação para identificar um núcleo formado por advogados que, segundo a Polícia Civil, atuaria em benefício do PCC além dos limites considerados regulares para o exercício da advocacia.
Entre os investigados estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu.
A apuração também aponta que escritórios e contas bancárias teriam sido utilizados para reuniões, movimentações financeiras e outras atividades de interesse da organização criminosa.
José Daniel Satilite, conhecido como Alemão, é apontado pelos investigadores como um dos principais personagens dessa estrutura. Segundo a Polícia Civil, ele faria a intermediação entre empresários, advogados, políticos, pessoas próximas a políticos e integrantes do PCC.
Operação é desdobramento de investigação iniciada em 2024
A Vectura Corrupta é resultado de uma investigação que teve início em agosto de 2024, com a Operação Decurio.
Naquele momento, após a apreensão de aproximadamente 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba, investigadores analisaram dados extraídos do celular da mulher de um dos líderes da organização criminosa.
As informações obtidas levaram à identificação de integrantes das chamadas “Sintonia Final”, “Sintonia Restrita” e “Sintonia dos Gravatas”, além de indícios de uma estratégia para ampliar a presença do crime organizado nas eleições municipais de 2024.
A apuração também identificou o uso de uma fintech que, segundo as investigações, teria sido criada para facilitar a atuação financeira da organização. A estrutura teria movimentado cerca de R$ 8 bilhões.
Em abril deste ano, a Operação Contaminatio avançou sobre essa frente e investigou a utilização da fintech para tentar estabelecer relações com prefeituras e participar de sistemas relacionados à arrecadação de tributos e taxas municipais.
A nova etapa amplia a investigação para o setor de transporte coletivo e para possíveis conexões entre integrantes do PCC, empresários, advogados e agentes políticos.
Milton Leite deixou mandato em 2024
Milton Leite encerrou a trajetória como vereador no ano passado, após sete mandatos na Câmara Municipal de São Paulo. Ele também presidiu o Legislativo paulistano quatro vezes.
Apesar de ter deixado o mandato eletivo, o político continua atuando na estrutura partidária. Atualmente, preside o União Brasil na cidade de São Paulo e, em julho, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista (UP), formada por União Brasil e Progressistas (PP).
A investigação da Vectura Corrupta ainda está em andamento, e as suspeitas apresentadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público deverão ser analisadas no âmbito judicial. Os alvos da operação terão direito à defesa e à manifestação sobre as acusações.