Operação contra o PCC cita PMs de alta patente de São Paulo

Relatórios apontam menções a coronéis em planilhas e mensagens apreendidas; militares citados não são alvos da operação nem foram denunciados

Por Redação

Gaeco, do Ministério Público de São Paulo

A investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) nesta terça-feira (21), como desdobramento das operações Recidere e Bazaar, identificou registros que apontam uma suposta relação entre investigados por crimes financeiros e oficiais de alta patente da Polícia Militar de São Paulo.

Segundo os relatórios da Polícia Judiciária que integram o inquérito, áudios, mensagens e planilhas financeiras apreendidas indicam contatos frequentes entre integrantes do grupo investigado e comandantes da corporação. Os documentos também registram anotações sobre repasses de valores em dinheiro.

Até o momento, os policiais militares mencionados na investigação não são alvos da operação, nem foram denunciados ou formalmente acusados.

Investigação aponta proximidade entre empresários e oficiais

De acordo com os investigadores, o empresário Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza, apontados como figuras centrais da investigação, mantinham relacionamento próximo com integrantes do alto comando da Polícia Militar.

As mensagens analisadas pelo Gaeco mostram conversas sobre facilidade de acesso a oficiais da corporação e tratativas para abertura de canais de comunicação considerados estratégicos pelos investigadores.

A apuração busca esclarecer se essa proximidade era utilizada para facilitar interlocuções, obter apoio institucional ou influenciar fiscalizações.

Coronéis são citados em documentos apreendidos

Entre os nomes mencionados nos documentos estão o coronel Pereira Martins, apontado na investigação como diretor de Ensino da Polícia Militar durante o período analisado, o coronel José Augusto Coutinho, que comandou a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), o Comando de Policiamento de Choque e, posteriormente, ocupou o cargo de comandante-geral da PM paulista, além de um oficial identificado como coronel Patrício.

Segundo os autos, esses nomes aparecem em mensagens, registros de contatos e planilhas financeiras apreendidas durante a investigação.

O coronel José Augusto Coutinho deixou o comando-geral da Polícia Militar em abril deste ano, após ter sido citado em um inquérito conduzido pela Corregedoria da corporação sobre a atuação de policiais na escolta de uma empresa de ônibus investigada por supostas ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Até a publicação desta reportagem, a defesa do coronel José Augusto Coutinho não havia se manifestado.

Planilhas registram pagamentos chamados de "ticketagem"

Um dos principais elementos analisados pelo Gaeco são planilhas financeiras que detalhariam a circulação de recursos entre integrantes do grupo investigado.

Nos documentos, os investigadores identificaram registros classificados como "ticketagem", expressão utilizada, segundo a apuração, para designar repasses em espécie.

Uma das planilhas, datada de dezembro de 2019, registra um pagamento de R$ 1 mil destinado a um oficial identificado como coronel Patrício.

Para o Ministério Público, os registros reforçam a hipótese de que havia um sistema estruturado para manter canais de influência junto a integrantes da corporação.

Investigação segue em andamento

O Gaeco apura se os contatos registrados entre os investigados e oficiais da Polícia Militar tiveram como finalidade dificultar fiscalizações ou proporcionar vantagens institucionais ao grupo investigado.

Até o momento, as autoridades não anunciaram denúncias criminais contra os policiais citados nos documentos. A investigação prossegue para esclarecer o contexto das mensagens, dos registros financeiros e das relações identificadas ao longo da apuração.