Famílias deixam casas para obra do BRT Aricanduva sem receber indenização prévia
Moradores relatam saída forçada e falta de prazo para pagamento após desapropriações na zona leste
Moradores da zona leste de São Paulo afetados pelas obras do corredor de ônibus BRT Aricanduva enfrentam incertezas após terem seus imóveis desapropriados sem previsão de recebimento das indenizações. Parte das famílias já deixou as residências, enquanto outras permanecem nos locais, relatando pressão para desocupação mesmo sem acesso aos valores devidos.
O projeto prevê a implantação de um corredor de transporte coletivo ao longo da Avenida Aricanduva e vias próximas, com o objetivo de ampliar a capacidade de deslocamento na região. Para viabilizar a obra, imóveis foram incluídos em processos de desapropriação por utilidade pública, o que autoriza o poder público a tomar posse das áreas mediante pagamento de compensação financeira.
Na prática, moradores afirmam que o dinheiro ainda não chegou às suas mãos. Alguns tiveram que sair às pressas e buscar alternativas temporárias de moradia, como casas de parentes ou imóveis alugados, o que gerou custos adicionais e endividamento. Há relatos de famílias que gastaram valores elevados com mudança, caução e aluguel, sem saber quando terão acesso à indenização.
Casos semelhantes se repetem entre vizinhos. Proprietários relatam dificuldades para reorganizar a vida após décadas vivendo nos mesmos endereços. Em alguns casos, idosos tiveram que deixar residências onde moravam há muitos anos e passaram a depender de familiares enquanto aguardam a liberação dos recursos.
Segundo informações da administração municipal, os valores referentes às indenizações já foram depositados em juízo, somando cerca de R$ 24 milhões. Esse procedimento é utilizado para garantir a posse antecipada dos imóveis pelo poder público. No entanto, o saque por parte dos proprietários depende do cumprimento de exigências legais e de autorização judicial, o que pode atrasar o acesso ao dinheiro.
Pela legislação brasileira, a desapropriação deve assegurar compensação considerada justa e, em regra, anterior à retirada do morador. O depósito judicial costuma corresponder a uma parcela do valor estimado do imóvel, definido com base em perícia técnica. Mesmo assim, o processo pode se prolongar até a conclusão das etapas judiciais.
Moradores que ainda não deixaram os imóveis afirmam receber notificações frequentes e relatam preocupação com a possibilidade de despejo sem garantia financeira imediata. A situação tem gerado insegurança, especialmente entre famílias com menor capacidade de arcar com despesas emergenciais.
O corredor BRT Aricanduva integra o planejamento de mobilidade urbana da cidade e tem previsão de atender milhares de passageiros diariamente, com integração a linhas de metrô e trens. O projeto também envolve alterações no traçado viário e intervenções em diferentes bairros da zona leste, incluindo áreas como Carrão, Vila Matilde e São Mateus.
As desapropriações podem ocorrer de forma amigável ou por via judicial, dependendo do acordo entre as partes. No caso das ações judiciais, o processo tende a ser mais demorado, o que impacta diretamente o prazo para recebimento da indenização pelos proprietários.
Enquanto as obras se aproximam do início, previsto para os próximos meses, moradores seguem sem definição clara sobre quando poderão acessar os valores depositados. A falta de prazo concreto mantém famílias em situação de instabilidade, com dificuldades para planejar a aquisição de novos imóveis ou reorganizar a rotina após a mudança.
O impasse evidencia o desafio de conciliar grandes intervenções urbanas com a garantia de direitos dos moradores afetados, especialmente em projetos que exigem remoções e reassentamento em áreas já consolidadas da cidade.