Calçamento paulista teve autoria apagada

Criação de Mirthes Bernardes virou símbolo urbano sem crédito

Por Da Redação

Concurso público municipal da década de 1960 definiu o desenho do calçamento paulista

Às vésperas de completar seis décadas, o calçamento paulista volta ao centro do debate urbano em São Paulo não apenas como um símbolo da cidade, mas como um caso emblemático de apagamento de autoria. O desenho que se tornou padrão nas vias públicas da capital foi criado por Mirthes Bernardes, funcionária da Prefeitura que venceu um concurso municipal nos anos 1960, mas nunca recebeu o devido reconhecimento público nem retorno financeiro pela criação.

A revelação é detalhada em um artigo publicado na revista Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, que resgata documentos oficiais, reportagens da época e depoimentos familiares para reconstruir a trajetória da autora. O estudo mostra que o projeto vencedor foi escolhido em concursos realizados entre 1965 e 1966, durante a gestão do prefeito Faria Lima, período em que a administração municipal buscava consolidar uma identidade visual própria para São Paulo.

A proposta de Mirthes se destacou por apresentar um desenho estilizado do mapa do Estado de São Paulo, com leitura clara, fácil reprodução e forte carga simbólica. A ideia atendia ao objetivo da Prefeitura de criar um elemento urbano reconhecível, à semelhança da calçada de Copacabana, no Rio de Janeiro, e das soluções arquitetônicas de Brasília. Com o tempo, o piso se espalhou por ruas, praças e áreas centrais da capital, tornando-se parte do cotidiano paulistano.

Apesar do sucesso do projeto, a pesquisa aponta que o nome da autora foi sistematicamente omitido nos registros oficiais e na cobertura da imprensa. Em comunicados internos da Prefeitura, o desenho vencedor chegou a ser atribuído apenas a uma funcionária municipal, sem identificação nominal. Reportagens publicadas à época divulgaram o resultado do concurso, mas ignoraram a autoria da criação.

Mirthes Bernardes era servidora pública e atuava como desenhista na Prefeitura de São Paulo. Natural de Barretos, no interior paulista, nasceu em 1934, formou-se em Pedagogia e Serviço Social e também produziu obras artísticas em cobre esmaltado. O desenho do calçamento, segundo familiares, foi feito de forma espontânea e permaneceu guardado até que colegas de trabalho a incentivassem a inscrevê-lo no concurso.

Entre 1966 e 1967, Mirthes chegou a ser orientada a buscar o registro de patente e os direitos autorais da criação, mas o processo não avançou. Em entrevistas concedidas anos depois, ela demonstrou frustração por nunca ter recebido compensação financeira pelas inúmeras reproduções do desenho ao longo das décadas.

O artigo também recupera os bastidores do concurso que definiu o padrão do piso paulistano. Quatro propostas chegaram à fase final e foram expostas na Rua da Consolação, no centro da cidade. A escolha foi feita por um júri popular, formado por jornalistas convidados pela Prefeitura. Entre os trabalhos concorrentes estavam desenhos inspirados em grãos de café, setas que indicavam direção e uma proposta abstrata que representava o relevo urbano da capital.

A pesquisa evita atribuir intencionalidade direta ao apagamento da autoria, mas levanta a hipótese de que fatores como o fato de Mirthes ser mulher e não ocupar um cargo de destaque na estrutura administrativa tenham contribuído para sua invisibilidade. O estudo destaca ainda que, tecnicamente, a proposta vencedora se sobressaía pela funcionalidade, clareza gráfica e força simbólica, atributos que explicam sua adoção em larga escala.

Ao resgatar a história por trás do calçamento paulista, o artigo reacende a discussão sobre reconhecimento autoral, memória urbana e o papel das mulheres na construção da paisagem das cidades. Mais do que um elemento do mobiliário urbano, o piso passa a ser também um marco de uma autoria que, por décadas, permaneceu invisível.