Mercado de canetas emagrecedoras falsas cresce no Brasil

Anvisa alerta aos perigos da comercialização de medicamentos de emagrecimento falsificados

Por Beatriz Cicci

Procura por canetas emagrecedoras aumenta no país

Kellen Bretas Antunes, de 42 anos, foi hospitalizada em Belo Horizonte com dores abdominais no dia 17 de dezembro de 2025. A suspeita era de intoxicação por medicamentos. Uma semana depois, na noite de Natal, recebeu alta. Porém, passou somente três dias em casa antes de ser internada novamente com fraqueza muscular, urina escura e insuficiência respiratória. O que os médicos não sabiam é que, pouco antes, a auxiliar administrativa havia aplicado uma caneta emagrecedora de origem paraguaia, sem prescrição médica.

Em janeiro do ano seguinte, Kellen foi diagnosticada com a Síndrome de Guillain-Barré (SGB), condição neurológica rara e grave que ocorre quando o sistema imunológico ataca os nervos periféricos, comprometendo a musculatura e os movimentos do corpo, a fala e o funcionamento de órgãos. O tratamento requer 12 meses de tratamento com fisioterapia, fonoaudiólogo e outros especialistas.

As canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis que imitam o hormônio intestinal GLP-1. Elas reduzem o apetite, prolongam a saciedade e controlam a glicose no sangue, normalmente indicadas para diabetes tipo 2 e obesidade sob rigorosa prescrição médica. Atualmente, o Brasil tem 21 canetas registradas e liberadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – entre elas, o Ozempic, o Wegovy, o Mounjaro e o Poviztra.

O uso de canetas emagrecedoras já alcança 1 em cada 3 domicílios brasileiros. Dados de pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em abril, mostram que 33% dos lares têm pelo menos um morador que utiliza ou já utilizou esses medicamentos. ? ?No entanto, o aumento nos usuários acende alertas para a criação de um mercado que opera às margens da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a comercialização de canetas falsificadas.

Riscos da falsificação


Segundo o endocrinologista Guilherme Augusto Cunha, esses medicamentos revolucionaram o tratamento da obesidade e da diabetes. O problema surge quando a ampla divulgação também abre espaço para a atuação de um mercado criminoso. O especialista reconheceu a existência de um mercado que funciona às margens da regulamentação da Anvisa, ao qual muitas pessoas recorrem para a compra do medicamento na ausência de prescrição ou falta de recursos financeiros para adquirir a caneta de forma segura. Para ele, a falsificação cria riscos graves à saúde.

“O primeiro risco que eu vejo é não saber o que tem dentro. Na caneta falsificada, o rótulo pode prometer uma coisa, enquanto o conteúdo é completamente diferente. Pode não ter medicamento, pode ter dose errada, pode inclusive conter insulina ou outra substância que pode estar contaminada”, explicou o médico. Além disso, Cunha ressaltou que, mesmo que a caneta falsificada tenha de fato a medicação correta, pode estar em maior ou menor proporção. Isso significa que, além de prejudicar a saúde, pode ainda não contribuir para o emagrecimento.

O cardiologista Thiago Germano evidenciou outra questão: a existência de sintomas preocupantes, mas que podem ser ignorados por serem associados a reações naturais ao uso da medicação.

“Os riscos incluem náuseas, vômitos intensos, diarreia, desidratação, alterações da glicemia, queda da pressão e distúrbios hidroeletrolíticos. Em situações mais graves, podem ocorrer complicações gastrointestinais, pancreatite, alterações renais e necessidade de internação hospitalar”, comunicou. “Existe um risco que muitas vezes é subestimado: a pessoa pode acreditar que está utilizando um medicamento legítimo e, por isso, não associar os sintomas ao produto que aplicou, atrasando a procura por atendimento médico.”

Cunha percebeu um aumento na procura por esses medicamentos. Contudo, ele esclareceu ao Correio da Manhã que, muitas vezes, os pacientes que buscam as canetas não possuem indicação para iniciar o tratamento.

“Às vezes, o paciente nem passou por uma consulta médica, mas já está usando a medicação há algum tempo. E o que a gente vê, cada vez mais, são complicações decorrentes da falta de um contexto adequado para o uso dessas substâncias”, destacou.

Nesse cenário, Cunha também relatou um aumento nos diagnósticos de sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa, força e função muscular.

Redes sociais


Porém, a pergunta persiste: por que essas medicações estão sendo cada vez mais procuradas? E, principalmente, o que leva alguém a colocar a própria vida em risco para comprar um produto irregular, sem sequer conhecer a sua procedência?

Para a pesquisadora e doutora em cultura contemporânea, Maria Luísa Jimenez, a mudança está relacionada à patologização do corpo gordo. Ou seja, o entendimento de que um corpo gordo seria um corpo doente. Essa visão, de acordo com ela, é reforçada pelas redes sociais.

“As redes sociais trazem o avanço da extrema magreza. A extrema magreza volta e com muita força, o que leva as pessoas a quererem essa caneta de qualquer maneira, independentemente de serem verdadeiras ou não”, afirmou a professora. “Quando eu coloco só um tipo de corpo num lugar de sucesso, de saúde, de beleza, todo mundo quer ter esse corpo. Só que não existe só um tipo de corpo.”

Jimenez também destacou que as redes sociais contribuíram muito para a cultura do imediatismo. No contexto das canetas emagrecedoras, essa lógica pode ser prejudicial ao levar pessoas a ignorarem as formas adequadas e seguras de utilização do medicamento. Em busca de resultados rápidos, elas acabam optando por produtos vendidos a preços mais baixos e sem exigência de prescrição médica.

“Estamos falando de medicamentos que atuam no organismo e que podem produzir efeitos importantes”, estabeleceu também o Dr. Thiago Germano. “A busca pelo emagrecimento é legítima, mas não pode transformar a saúde em uma espécie de ‘experimento’ feito a partir de informações encontradas nas redes sociais. Muitas vezes existe uma expectativa social muito grande para que a pessoa emagreça rapidamente. O caminho mais seguro é oferecer informação, acompanhamento médico e tratamentos baseados em evidências.”

“Vêem que uma pessoa com influência sobre as outras usou para o verão, ou usou para entrar em um vestido de casamento, ou usou esporadicamente. Eu quero deixar muito claro que essas medicações não foram feitas para estética, elas foram feitas para quem tem indicação. O médico habilitado vai orientar, prescrever e ter uma corresponsabilidade nesse tratamento juntamente com o paciente”, acrescentou o Dr. Guilherme Augusto.

Acompanhamento


No entanto, Cunha reforçou que o uso das canetas deve ser sempre acompanhado por um médico. De acordo com o especialista, a banalização desses medicamentos se tornou uma das maiores preocupações para os endocrinologistas. Augusto detalha que a aplicação da medicação não é suficiente para garantir a perda de peso saudável – precisa, também, ser seguida por hábitos como a alimentação adequada, o exercício físico e a hidratação constante.

Ele reitera que o atendimento é individualizado e que cada paciente deve ser orientado em relação às suas próprias limitações de treino, dieta e à dose da medicação. “Se não for muito bem acompanhado, pode levar o paciente à internação e a sofrer sérias consequências”, explicou.

Políticas públicas


Para Jimenez, uma política pública voltada ao acolhimento às pessoas gordas é necessária para desincentivar o mercado clandestino.

“O Estado precisa proteger a população. É muito dinheiro investido na doença da obesidade. Só que esse dinheiro das políticas públicas é todo para o emagrecimento. Nenhum é para acessibilidade ou acolhimento. Então, na nossa sociedade, é como se, em vez de ter um reconhecimento dessas corporalidades, existisse um combate a esses corpos”, detalhou Jimenez.

A pesquisadora defendeu políticas públicas voltadas à formação de profissionais de saúde sobre a gordofobia. “Eu acho que a gente precisa combater a gordofobia. É trazer informação, é não liberar da forma que tá, que todo mundo pega, todo mundo tem, todo mundo consegue. Então, precisamos levar essas informações e combater essa divulgação gigantesca das canetas.”

Orientações


A Anvisa alerta que esses medicamentos devem ser adquiridos somente em farmácias regularizadas e por meio de canais oficiais – evitando lojas online promovidas por influenciadores, vendedores ambulantes ou carros de som. O consumidor pode checar o registro do medicamento no site da Anvisa, com o nome do medicamento, CNPJ e fabricante.

É importante observar irregularidades nas embalagens, como erros de ortografia, textos em idiomas estrangeiros, ausência de lacres ou selos violados, hologramas ausentes ou danificados, dados de lote ilegíveis e impressões de baixa qualidade ou apagadas. Todos estes são sinais de alerta. A Agência ainda sugere que o comprador desconfie de preços muito baixos e sempre exija a nota fiscal.

“Diante de um produto de procedência duvidosa, ou após a utilização de uma caneta e o aparecimento de sintomas importantes — especialmente vômitos persistentes, dor abdominal intensa, desmaio, confusão mental, sinais de desidratação ou alteração importante da glicemia — a orientação é procurar atendimento médico imediatamente e levar, se possível, a embalagem ou o produto utilizado”, instruiu Germano.