Os alunos não usam Black-Tie

Projeto leva leitura da famosa peça de Guarnieri a escolas do Jardim Botânico

Por Mayariane Castro

Leitura aproxima alunos da obra teatral

Estudantes de escolas públicas do Jardim Botânico, no Distrito Federal, participam de uma iniciativa que combina literatura, teatro, música e introdução ao sistema Braille. O projeto “Um outro olhar para a leitura dramatizada no Jardim” reúne 60 alunos do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio durante três meses, com atividades voltadas à leitura e à encenação da peça “Eles Não Usam Black-tie”, de Gianfrancesco Guarnieri.

A obra integra as leituras indicadas pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB).

As atividades são realizadas por meio de oficinas de teatro, musicalidade na cena e introdução ao Braille. Ao final do percurso, os estudantes participarão de apresentações de leitura dramatizada no Centro Educacional Jardim Mangueiral, no Centro de Ensino Fundamental 01 do Jardins Mangueiral e em um Centro de Ensino Especial do Distrito Federal, com a participação de artistas convidados.

Aproximação da obra

A iniciativa foi criada pelo ator e arte-educador Thiago de Moraes, que atua há 25 anos no teatro e há quase duas décadas em projetos educacionais. Segundo a proposta, a leitura dramatizada será utilizada como estratégia para aproximar os estudantes da obra por meio da interpretação dos personagens, da expressão corporal, da musicalidade e da construção coletiva da cena.

A peça escolhida aborda conflitos familiares, relações de trabalho, desigualdade social e reivindicação de direitos. Escrita por Guarnieri, “Eles Não Usam Black-tie*” foi apresentada pela primeira vez em 1958, no Teatro de Arena, em São Paulo, e passou a integrar o repertório da dramaturgia brasileira. Virou filme em 1981, dirigido por Leon Hirszman, tendo o próprio Guarnieri e Fernanda Montenegro no elenco. No projeto, os estudantes serão convidados a discutir as decisões dos personagens e os conflitos presentes na narrativa.

A programação prevê uma etapa inicial de seleção e oficinas, seguida por ensaios e pela preparação das apresentações. O trabalho é desenvolvido de forma coletiva, com atividades destinadas ao contato dos alunos com o texto e aos elementos necessários para a leitura dramatizada.

Outras formas

Para o idealizador, a proposta busca fazer com que os estudantes tenham contato com a literatura por meio de outras formas de expressão. “Ao emprestar a voz, o corpo e as emoções para um personagem, o aluno passa a compreender a obra de dentro para fora”, afirma Thiago. Segundo ele, o formato também pode auxiliar estudantes que enfrentam dificuldades de leitura, já que a participação em grupo permite acompanhar o ritmo da atividade e exercitar a oralidade.

Braille

A programação inclui ainda uma introdução ao sistema Braille. Os estudantes terão contato com princípios básicos da escrita utilizada por pessoas com deficiência visual. A atividade pretende inserir a acessibilidade no percurso formativo e promover discussões sobre inclusão, autonomia e convivência com as diferenças.

O projeto também trabalha competências relacionadas à comunicação, expressão corporal, percepção sensorial, criatividade e trabalho em equipe. A leitura da peça deixa de ser apresentada apenas como uma atividade vinculada ao conteúdo escolar e passa a integrar uma experiência de interpretação e criação coletiva.

A escolha da leitura dramatizada está relacionada à possibilidade de distribuir diferentes funções entre os participantes. A atividade permite que os estudantes atuem diretamente na interpretação dos personagens e na construção da cena, enquanto desenvolvem a leitura oral e a compreensão do texto. Além da preparação para as apresentações, o projeto pretende estimular a formação de leitores e espectadores. A proposta é que o contato com a obra teatral seja associado à frequência a espaços culturais e ao interesse por literatura e teatro.

Thiago afirma que a finalidade das atividades não é formar atores para o mercado profissional. “O teatro na escola não visa formar atores, mas cidadãos conscientes e expressivos”, diz. Para ele, a experiência pode contribuir para que os estudantes desenvolvam autonomia, autoconfiança e capacidade de expressar opiniões.

A iniciativa também estabelece uma relação entre a obra selecionada para o PAS e uma experiência prática de leitura. Ao trabalhar o texto em grupo, os estudantes terão a oportunidade de observar características dos personagens, conflitos da narrativa e questões sociais presentes na peça. O percurso será concluído com as apresentações nas unidades de ensino participantes e no Centro de Ensino Especial. A etapa final reunirá os resultados das oficinas de teatro, musicalidade e Braille realizadas ao longo dos três meses.

A expectativa apresentada pelo projeto é que a experiência ultrapasse o período das oficinas e contribua para ampliar o contato dos jovens com manifestações culturais. Para o idealizador, a formação de novos leitores e espectadores está entre os principais objetivos da iniciativa. “Quero que esses jovens continuem frequentando teatros, consumindo literatura e enxergando a arte como um instrumento de transformação em suas vidas”, afirma Thiago.