Memórias de mães e infâncias

Projeto no Gama reúne três espetáculos de jovens artistas com entrada gratuita

Por Mayariane Castro

Peças abordam lembranças relacionadas à religiosidade

O Teatro Sesc Paulo Gracindo, no Gama, recebe desde quinta-feira (6) até domingo (9) a mostra "Mãe, Filho e as Cinzas – A Liturgia Não Contada", projeto que reúne três espetáculos solos autorais inspirados em memórias de infância relacionadas à religiosidade.

As apresentações serão realizadas em diferentes horários, com entrada gratuita mediante retirada de ingressos pela plataforma Sympla. Todas as sessões contarão com audiodescrição e tradução em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Realizada pelo Coletivo Poéticas da Meia Noite com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), a mostra apresenta os espetáculos "Miolo Mãe", de Helena D'Tróia; "Heranças do (A)mar", de Davi Dias; e "Incendiária", de Fernanda Tiago. Os trabalhos foram escritos pelos próprios artistas e têm direção de Kenia Dias e Thiago Carvalho.

A programação está distribuída ao longo de quatro dias. Na quinta-feira, "Miolo Mãe" foi a primeira peça apresentada, seguida de "Heranças do (A)mar".

Nesta sexta, "Miolo Mãe" volta aos palcos às 15h; "Incendiária" será apresentada às 16h e às 19h. E "Heranças do (A)mar" às 20h.

No domingo, 9 de agosto, a programação prevê "Miolo Mãe", às 15h, "Heranças do (A)mar", às 16h, e "Incendiária", às 17h. Além das apresentações, o projeto prevê conversas entre elenco e público ao final de cada espetáculo. Os encontros têm como objetivo ampliar o diálogo sobre os processos de criação, os temas abordados e as pesquisas que deram origem aos trabalhos.

Relação direta

Segundo a diretora Kenia Dias, embora os três espetáculos tenham estruturas dramatúrgicas distintas, eles compartilham a construção de uma relação direta entre artistas e espectadores. "É muito bonito ver esses jovens artistas traçando uma trajetória autoral, com esse desejo de troca com outros artistas, e ao mesmo tempo criando um modo próprio de trabalho e de criação", afirma.

Kenia Dias atua nas artes cênicas há mais de duas décadas e desenvolveu trabalhos com o Grupo Galpão, de Belo Horizonte, e o Teatro da Vertigem, de São Paulo. Entre seus trabalhos recentes está a direção de movimento do espetáculo "O Que Só Sabemos Juntos", protagonizado por Tony Ramos e Denise Fraga em 2024. Os três espetáculos partem de experiências pessoais dos artistas para construir narrativas que transitam entre memória, performance e ficção.

Lembranças

Em "Miolo Mãe", Helena D'Tróia utiliza referências da cultura popular maranhense para reconstruir lembranças familiares a partir da figura do Bumba Meu Boi. O espetáculo dialoga com a trajetória do avô da atriz, artesão que deixou o Maranhão levando consigo elementos da manifestação cultural. Objetos preservados pela família, como um chapéu e um maracá de ferro, integram a narrativa construída em cena.

No solo "Heranças do (A)mar", Davi Dias interpreta um personagem que nasceu com o coração fora do peito e desenvolve uma busca permanente por histórias de amor. A narrativa utiliza o mar como elemento central para abordar perdas, solidão e processos de reconstrução. O espetáculo conta com a participação da atriz Perez Louise e do músico Mar Nóbrega.

Já "Incendiária", de Fernanda Tiago, toma o fogo como elemento dramatúrgico para discutir memória, identidade e resistência feminina. O espetáculo reúne referências poéticas e científicas para abordar experiências familiares e violências simbólicas relacionadas ao processo de construção da identidade lésbica.

Os três trabalhos foram desenvolvidos dentro das pesquisas realizadas pelo Coletivo Poéticas da Meia Noite, grupo criado em 2021 com atuação entre a Bahia e o Distrito Federal. O coletivo reúne artistas e pesquisadores interessados em processos dramatúrgicos construídos a partir de investigações sobre memória, identidade e alteridade.

Atualmente, o grupo é formado por estudantes da Universidade Federal de Goiás e profissionais das áreas de interpretação, cenografia, iluminação, fotografia, design, comunicação e mediação cultural. Desde sua criação, o coletivo produziu os espetáculos "Pititinga – Peixe Pequeno", em 2023, "Solos Flutuantes" e "Onírico", em 2024, "A Pequena Casa Flutuante", em 2025, e "Qualquer Um" e "Conjugação da 3ª Pessoa", ambos lançados em 2026.

A realização da mostra conta com financiamento do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal e integra as ações do Coletivo Poéticas da Meia Noite voltadas à circulação de produções autorais e ao desenvolvimento de pesquisas em artes cênicas. A entrada é gratuita, mediante retirada antecipada dos ingressos no Sympla, e todas as atividades ocorrerão no Teatro Sesc Paulo Gracindo, no Gama.