Sócrates? Que Sócrates?
Peça utiliza o julgamento e morte do filósofo grego para discutir educação, democracia, responsabilidade e pensamento crítico
O Grupo-Teatro Caleidoscópio estreia, entre esta sexta (31) e 9 de agosto, no Teatro Engrenagem, em Brasília, o espetáculo “Cicuta (ou Um tal de Sócrates)”.
A montagem revisita o julgamento e a condenação à morte do filósofo grego Sócrates para abordar temas relacionados à educação, democracia, responsabilidade, liberdade de pensamento e participação política. A temporada será realizada às sextas-feiras, às 20h, e aos sábados e domingos, às 18h.
Criado pelo diretor e dramaturgo André Amahro, o espetáculo acompanha os momentos finais da trajetória de Sócrates, condenado à morte por envenenamento após ser acusado de corromper a juventude ateniense e introduzir novos deuses. A narrativa percorre ambientes como o tribunal, o oráculo e a prisão para apresentar ao público questões associadas ao método socrático, baseado na investigação por meio de perguntas.
Temas presentes
Segundo o diretor, a proposta não é reconstruir apenas um episódio histórico, mas utilizar a figura do filósofo como ponto de partida para discutir temas presentes na sociedade contemporânea. De acordo com Amahro, a montagem busca estimular a reflexão sobre comportamento eleitoral, influência da mídia, medo do diferente e participação dos jovens na vida pública, sem defender posições político-partidárias.
“Esse é o momento esperado. Sócrates, como se sabe, bebe a cicuta, porque se recusa a ser exilado ou a pagar uma multa. Prefere beber o veneno a renunciar às suas opiniões. Essa ação se passa diante da própria esposa – e isso é uma licença poética da dramaturgia. Então, a cena foi desenhada para que o ato de perder a própria vida não fosse um ato isolado, mas combinado com a despedida do amor”, explica o diretor.
O espetáculo também enfatiza a educação como instrumento de formação crítica. A frase atribuída a Sócrates – "Uma vida sem exame não vale a pena ser vivida" – funciona como referência para a construção dramatúrgica, que convida o público a refletir sobre a relação entre conhecimento, ética e cidadania.
Diálogos de Platão
A dramaturgia foi desenvolvida principalmente a partir dos diálogos escritos por Platão, considerados as principais fontes sobre o julgamento e a morte de Sócrates. Como o filósofo ateniense não deixou obras escritas, seu pensamento tornou-se conhecido por meio de discípulos e outros autores da Antiguidade.
Para André Amahro, a estrutura dialogada dos textos platônicos aproxima essas obras do teatro. O diretor observa que Platão pretendia inicialmente seguir carreira como dramaturgo antes de se dedicar à filosofia, característica que, segundo ele, permite interpretar Sócrates como um personagem trágico cuja trajetória pode ser comparada à de protagonistas clássicos do teatro ocidental.
“Essa é a principal função do teatro que fazemos. Essa montagem antecede o período eleitoral e foi pensada para estimular o pensamento crítico sobre nossas escolhas. Como diz o texto: o voto não é apenas a escolha de governo; é uma forma silenciosa de responsabilidade compartilhada, é uma escolha de destino. E toda escolha que não é examinada pode, um dia, se tornar irreversível”, destaca.
O título da montagem reúne duas referências centrais da narrativa. A palavra "cicuta" remete ao veneno utilizado para executar Sócrates após sua condenação. Já a expressão "Um tal de Sócrates" procura aproximar a figura histórica do cotidiano, retirando-a do campo exclusivamente acadêmico e colocando-a em diálogo com questões atuais.
A peça procura investigar os motivos que levam uma sociedade a silenciar pessoas que desafiam consensos estabelecidos. Nesse contexto, a cicuta aparece como símbolo das consequências enfrentadas por indivíduos que questionam estruturas de poder ou estimulam o pensamento crítico.
Para o diretor, é sempre uma reinvenção do seu amor ao teatro. “Cada espetáculo reafirma a minha paixão pelo teatro, mas noto que estou cada vez mais exigente como diretor. Como dramaturgo, sou sempre flexível, porque entendo que a palavra pertence também ao ator que a interpreta. Adoro os atores (hoje só atrizes) do meu grupo. São experientes e muito talentosas. Mas sempre quero mais. Quero entregar um espetáculo de excelência e pra isso vou até o Olimpo, se preciso for”.
Caleidoscópio
Fundado em 1994, o Grupo-Teatro Caleidoscópio desenvolve pesquisas voltadas à aproximação entre teatro, filosofia e debate público. O projeto surgiu como iniciativa de extensão da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, em Brasília, sob coordenação de André Amahro. Ao longo de mais de três décadas, o grupo produziu 25 espetáculos, publicou livros, participou de festivais nacionais e internacionais e recebeu premiações, entre elas o Prêmio Brasília 60 Anos, concedido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.
Além da temática filosófica, a nova montagem apresenta um elenco composto majoritariamente por mulheres. Vanessa Di Farias interpreta Sócrates; Sandra Regina vive Meleto; Flavia Neiva representa Anito; e Raquel Aló interpreta a Pitonisa. A trilha sonora original é executada ao vivo pelo multi-instrumentista Elias Santos.
Segundo o grupo, a composição do elenco decorreu da configuração artística da companhia, mas também dialoga com uma proposta de encenação que não estabelece correspondência entre identidade de gênero dos intérpretes e personagens. A concepção parte da ideia de que o ator pode representar diferentes figuras independentemente de características biográficas.
A presença predominante de mulheres em cena também estabelece relação com o contexto do eleitorado brasileiro. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que as mulheres representam a maioria dos eleitores do país, correspondendo a mais da metade do eleitorado nacional. A produção considera esse cenário um elemento que amplia o diálogo entre o espetáculo e temas ligados à participação política e à cidadania.
A direção geral e a dramaturgia são assinadas por André Amahro. A iluminação é de Claudio Lago, que também divide a direção de arte e as fotografias com o diretor. A produção é do Grupo Caleidoscópio, enquanto Elias Santos responde pela direção musical e pela composição da trilha sonora original.