Juntando os cacos da memória
Peça "Kintsugi, 100 Memórias" remete a técnica japonesa de restauração para abordar o Alzheimer
Por Mayariane Castro
O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília recebe, entre os dias 4 e 14 de junho de 2026, o espetáculo "Kintsugi, 100 memórias", do Lume Teatro.
A montagem integra as comemorações dos 40 anos do grupo paulista, fundado em 1985, e reúne em cena os atores Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Renato Ferracini e a brasiliense Raquel Scotti Hirson. A direção é do argentino Emilio García Wehbi e a dramaturgia do carioca Pedro Kosovski.
As apresentações acontecem no Teatro do CCBB Brasília, de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 18h.
Na semana dos jogos da Copa do Mundo, a sessão prevista para sábado será realizada excepcionalmente na quarta-feira, dia 10 de junho, às 15h. Os ingressos custam R$ 30 a inteira e R$ 15 a meia-entrada.
Rachaduras ficam
A peça parte da técnica japonesa conhecida como kintsugi, utilizada para restaurar objetos de cerâmica quebrados com uma mistura de laca e pó de ouro.
O método transforma rachaduras e marcas de ruptura em elementos visíveis da peça restaurada. A partir dessa referência, o espetáculo propõe uma reflexão sobre memória, esquecimento, permanência e reconstrução.
Logo no início da encenação, um vaso de cerâmica é quebrado no palco.
A ação funciona como ponto de partida para o desenvolvimento da narrativa, que busca investigar o que permanece após processos de ruptura.
O objeto fragmentado serve como metáfora para questões individuais e coletivas abordadas ao longo da obra.
Segundo a proposta dramatúrgica, o espetáculo reúne memórias pessoais dos integrantes do grupo, episódios relacionados à história do Lume Teatro e acontecimentos da vida política brasileira.
A montagem utiliza uma estrutura fragmentária e autoficcional, na qual experiências reais dos artistas são incorporadas à cena e reorganizadas em diferentes camadas narrativas.
Conexões
O texto também estabelece conexões entre acontecimentos históricos do país e experiências vividas pelos integrantes da companhia ao longo de quatro décadas de atuação.
Questões relacionadas ao período da ditadura militar, quando o regime tratava de tentar conduzir fatos e pessoas ao esquecimento (tema, inclusive, do filme "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, que concorreu ao Oscar), ao processo de redemocratização e às transformações sociais ocorridas nas últimas décadas são discutidas.