Nanini no palco com Beckett

Elenco global apresenta clássico do dramaturgo irlandês na Caixa

Por Mayariane Castro

Peça de Beckett mostra um ambiente destruído pós-guerra

A peça “Fim de Partida”, do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), estreia em Brasília no dia 6 de junho, na Caixa Cultural Brasília. A grande atração é a presença de Marco Nanini que, aos 78 anos, sobe ao palco para Hamm, um dos personagens principais da peça.

Além de Nanini, a montagem reúne Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França no elenco e permanece em cartaz até 21 de junho. Dirigido por Rodrigo Portella e produzido por Fernando Libonati, o espetáculo apresenta uma nova leitura de um dos textos mais conhecidos do teatro do século 20.

Impacto da guerra

Escrita na década de 1950, sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, a obra retrata um cenário de destruição e esgotamento por meio da relação entre os personagens Hamm e Clov. Na montagem brasileira, Hamm é interpretado por Marco Nanini e Clov por Guilherme Weber. A trama acompanha a convivência dos dois personagens em um espaço fechado, marcado pela dependência física e emocional, por disputas de poder e pela repetição de ações e diálogos.

Ao longo da narrativa, os personagens enfrentam uma realidade em que a espera e a ausência de perspectivas se tornam elementos centrais da existência. A obra é considerada um dos marcos do chamado teatro do absurdo e permanece presente em debates sobre temas como guerra, autoritarismo, solidão e relações de dependência.

A iniciativa de levar o texto aos palcos partiu do interesse compartilhado entre Nanini e Weber em trabalhar mais uma obra de Beckett. Os dois atores já atuaram juntos em montagens como “Os Solitários”, em 2002, e “A Morte do Caixeiro Viajante”, em 2004.

Para compor o elenco, foram convidados Helena Ignez e Ary França, artistas que também possuem trajetórias ligadas a trabalhos anteriores de Nanini. Weber ainda acrescenta sobre as expectativas em relação ao público: “A gente sempre espera que o público leve pra casa uma ampliação de vida, uma depuração de subjetividade, que ele saia com perguntas que as perguntas do espetáculo proporcionaram”.

Perspectivas

Para esta montagem, o diretor Rodrigo Portella estruturou a encenação a partir de três perspectivas de leitura do texto. A primeira delas concentra-se na relação entre Hamm e Clov, apresentada como um vínculo de dependência mútua. A segunda aborda a peça como uma alegoria política. Nessa interpretação, Hamm representa uma figura de autoridade sustentada pela força e pelo controle, enquanto Clov assume a posição de alguém submetido a uma estrutura de poder da qual não consegue se desvincular.

Segundo Portella, a dinâmica entre os personagens permite observar mecanismos de dominação e obediência que atravessam diferentes contextos históricos e sociais. A deterioração do espaço em que vivem reforça a ideia de um sistema em colapso, no qual permanecem funcionando relações de comando e submissão. A terceira camada de leitura proposta pela direção está relacionada ao metateatro. A encenação explora elementos que evidenciam o próprio fazer teatral, estabelecendo um diálogo entre personagens, atores e representação. Essa característica é reforçada pela cenografia criada por Daniela Thomas.

O cenário foi concebido como uma estrutura que insere um palco dentro de outro palco. A solução cria uma espécie de caixa cênica retangular na qual a ação se desenvolve. A proposta destaca aspectos da metalinguagem presentes no texto de Beckett e evidencia a reflexão sobre os limites entre ficção e representação. Além da cenografia, a equipe criativa reúne profissionais que já trabalharam em diferentes projetos com Marco Nanini. Daniela Thomas assina também a direção de arte, enquanto Beto Bruel responde pela iluminação. Os figurinos são de Antonio Guedes e a trilha sonora original e direção musical ficam a cargo de Federico Puppi.

"Esperei envelhecer"

O Correio da Manhã conversou com Guilherme Weber sobre o processo da peça e o fato de que ele está estreando em uma obra de um dos seus autores favoritos.

“O Becket sempre foi um dos meus autores favoritos, foi um dos primeiros grandes autores que eu conheci na minha juventude e me impactou tremendamente. ‘Dias felizes’, eu acho uma das peças mais brilhantes da história do teatro ocidental, e ‘Fim de Partida’ sempre foi um texto que eu tive vontade de fazer. Esperei envelhecer pra poder chegar nele e esperei esse reencontro com Nanini, pois fui eu quem propôs para que ele fizesse também”.

A tradução utilizada na montagem é de Fábio de Souza Andrade. A assistência de direção é de Zé Mancini, o visagismo é assinado por Leila Turgante e a gerência de projetos por Carolina Tavares. A produção executiva da montagem é da Ártemis, enquanto a produção geral é da Pequena Central de Produções. A temporada será realizada no teatro da Caixa Cultural Brasília, localizado no Setor Bancário Sul. As apresentações ocorrem de terça a sexta-feira, às 20h, e aos sábados e domingos, às 18h. Excepcionalmente, no dia 13 de junho, a sessão será realizada às 17h.

Os ingressos custam R$ 30 a inteira e R$ 15 a meia-entrada. As vendas para a primeira semana foram abertas em 30 de maio. Para as semanas seguintes, a comercialização ocorre sempre no sábado anterior às apresentações, com abertura da bilheteria física às 9h e das vendas online às 13h. O espetáculo tem duração de 90 minutos, classificação indicativa de 16 anos e capacidade para 407 espectadores por sessão. As apresentações de domingo contam com intérprete de Libras. O espaço possui acessibilidade para pessoas com deficiência e estacionamento gratuito aos fins de semana, feriados e, durante a semana, após as 18h.