Drama de Ana Lídia volta nas telas
Cerrado Seco revisita um dos maiores crime sem solução no DF
O longa-metragem “Cerrado Seco”, dirigido por Bruno Caldas, entrou na fase final de gravações em Brasília com a proposta de transformar em ficção um dos casos criminais mais conhecidos da capital federal. Inspirado no assassinato da menina Ana Lídia, ocorrido em 1973 e nunca solucionado judicialmente. O filme utiliza elementos de suspense e investigação para discutir os impactos de crimes sem resposta definitiva sobre vítimas, familiares e a sociedade.
A produção é ambientada em dois períodos distintos, 1973 e 2005, e acompanha os efeitos do desaparecimento e morte de uma criança em uma narrativa construída a partir de memórias, silêncio e relações de poder. A trama aborda como acontecimentos do passado continuam presentes décadas depois e influenciam personagens ligados direta ou indiretamente ao caso.
Realidade e ficção
Segundo a equipe de produção, o roteiro parte de fatos conhecidos publicamente, mas utiliza a ficção para desenvolver personagens e situações que permitam explorar dimensões psicológicas e sociais relacionadas à impunidade. O filme foi concebido como um thriller psicológico e utiliza mecanismos típicos do cinema investigativo para construir a narrativa.
A história toma como referência o caso Ana Lídia, registrado em Brasília em setembro de 1973. A menina de sete anos desapareceu após sair de casa, no então recém-criado bairro da Asa Sul. Dias depois, o corpo foi encontrado em uma área do Parque Nacional de Brasília. O crime gerou repercussão nacional e mobilizou autoridades policiais e políticas da época, mas nunca chegou a uma conclusão judicial definitiva.
Arquitetura narrativa
Em “Cerrado Seco”, a capital federal também ocupa papel central na construção narrativa. Brasília aparece não apenas como cenário, mas como parte da estrutura dramática do filme. Monumentos, áreas vazias, espaços institucionais e a arquitetura modernista são utilizados para representar relações entre poder político, isolamento e controle social.
De acordo com a direção, a escolha por filmar em locações reais da cidade busca aproximar a narrativa de elementos históricos e urbanos reconhecíveis pelo público local e nacional. Parte das gravações ocorreu em regiões centrais do Plano Piloto e em áreas que preservam características arquitetônicas semelhantes às da década de 1970.
O elenco principal reúne Rafael Vitti e João Vitti, que interpretam o mesmo personagem em diferentes momentos da vida. Esta é a primeira vez que pai e filho atuam juntos em um longa-metragem. A produção afirma que a escolha dos atores teve como objetivo estabelecer continuidade dramática entre as duas fases da narrativa.
Além do elenco, a equipe técnica é formada majoritariamente por profissionais de Brasília. Entre os nomes envolvidos estão o diretor de fotografia Elder Miranda Jr. e a diretora de arte Carmem Santhiago, ambos estreando em longas-metragens. A proposta da produção é ampliar a participação de profissionais do Distrito Federal em projetos de alcance nacional.
Bruno Caldas já havia trabalhado anteriormente em produções voltadas para temas sociais e documentais. Entre os trabalhos anteriores do diretor estão os curtas-metragens “Colapso” e “De Repente”, além dos documentários “Utopia Distopia” e “A Terceira Margem”. Em “Cerrado Seco”, ele passa a trabalhar diretamente com o cinema de gênero, utilizando estruturas narrativas ligadas ao suspense e ao noir.
A produção recebeu recursos públicos por meio da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Os mecanismos foram criados para incentivar projetos culturais em diferentes regiões do país e financiar produções audiovisuais após os impactos sofridos pelo setor durante a pandemia de Covid-19.
Equipe local
Segundo os produtores, o financiamento permitiu manter as gravações no Distrito Federal e contratar profissionais locais para áreas como direção de arte, fotografia, produção executiva e pós-produção. O filme ainda não possui data oficial de estreia, mas a expectativa é de circulação inicial em festivais nacionais e internacionais.
A escolha por abordar um caso criminal sem resolução acompanha um movimento recente do audiovisual brasileiro voltado para narrativas baseadas em fatos reais e investigações históricas. Nos últimos anos, produções ligadas ao true crime ganharam espaço em plataformas de streaming, salas de cinema e festivais, ampliando o interesse do público por histórias relacionadas à memória e à justiça.
No caso de Cerrado Seco, a proposta não é reconstruir integralmente os acontecimentos do caso Ana Lídia nem apresentar novas conclusões sobre o crime. O foco do filme está nas consequências deixadas por episódios de violência sem solução definitiva e na forma como essas histórias permanecem presentes no imaginário coletivo.
A equipe do longa afirma que a narrativa procura deslocar o centro da atenção do ato criminoso para os impactos gerados ao longo do tempo. O filme aborda temas como desaparecimento infantil, violência contra crianças, trauma familiar e responsabilidade coletiva diante de crimes que permanecem sem resposta institucional.
Com a conclusão das filmagens prevista para as próximas semanas, a produção inicia agora as etapas de montagem e pós-produção. A expectativa é que o longa participe de mostras e festivais voltados para cinema de gênero, suspense e produções independentes brasileiras antes de sua chegada ao circuito comercial em cinemas.