Faces de quem usa o banheiro
Exposição retrata expressões de quem se utiliza do único sanitário público do Setor Comercial
Pelo Setor Comercial Sul, passam todos os dias milhares de pessoas. Apesar disso, há ali um único banheiro público. A exposição “Faces”, da fotógrafa Ana Lima, que entra em cartaz de 25 de abril a 14 de junho no Museu dos Correios, com entrada gratuita, retrata isso.
A mostra reúne retratos e depoimentos de pessoas que utilizam o único banheiro público do Setor Comercial Sul, na região central de Brasília. O espaço atende diariamente trabalhadores informais, transeuntes e pessoas em situação de vulnerabilidade.
A exposição apresenta onze participantes fotografados em grandes formatos, acompanhados de áudios acessíveis por QR Code. Os depoimentos abordam experiências relacionadas à vida nas ruas, ao acesso a serviços básicos e à convivência no local. Entre os relatos está o de Laila, mulher trans que viveu mais de dez anos em situação de rua e atualmente trabalha no Instituto No Setor, responsável pela manutenção do banheiro comunitário.
Fechado por duas décadas
O equipamento público foi reformado durante a pandemia de Covid-19, após permanecer fechado por cerca de duas décadas. Desde a reabertura, passou a atender aproximadamente mil pessoas por semana, segundo a organização responsável. O funcionamento depende de doações e apoio da comunidade, sem garantia de continuidade permanente.
A proposta da mostra é apresentar os participantes a partir de retratos em close, sem elementos de fundo. As imagens destacam apenas os rostos, enquanto os áudios complementam com narrativas em primeira pessoa. Os depoimentos tratam de temas como violência, preconceito, acesso a direitos e estratégias de sobrevivência. Para Ana Lima, “Faces” é, acima de tudo, um convite à conexão humana. “Não se trata apenas de ver, mas de descobrir que, independentemente de nossas circunstâncias, compartilhamos as mesmas necessidades de dignidade, afeto e pertencimento”, afirma.
Um dos participantes, professor aposentado que vive nas ruas desde 2017, relata medo constante durante o período noturno. Outro depoente, identificado como Paulo, descreve episódios de agressão presenciados no cotidiano da rua e menciona a importância de oportunidades para a saída dessa condição.
Visibilidade
Além da exposição no museu, o projeto prevê a instalação de cerca de 200 cartazes com os retratos em diferentes pontos do Distrito Federal. A ação busca ampliar a visibilidade das pessoas retratadas em áreas centrais e periféricas da cidade. O projeto conta com produção da Santa Luz e apoio do Museu Correios. A realização envolve o MNI – Instituto de Desenvolvimento Social, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal e do Governo Federal.
A idealização da mostra partiu de uma investigação sobre a relação da cidade com espaços e populações pouco visibilizados. O texto curatorial, assinado por Pedro Matallo, destaca o contexto do Setor Comercial Sul e o impacto da reabertura do banheiro durante a pandemia, quando a falta de acesso à água e à higiene se tornou mais evidente.
O que não pode ser visto
“Brasília tem uma relação particular com o que não pode ser visto”, escreve o diretor criativo Pedro Matallo no texto que acompanha a mostra. “No Setor Comercial Sul, existe um único banheiro público. Parece pouco, mas é muito. Por vinte anos, o espaço ficou fechado. Foi reaberto durante a pandemia, quando a crise sanitária tornou impossível ignorar que havia centenas de pessoas sem acesso à água, a um espelho, a condições mínimas de higiene.”
Outro participante, identificado como João, relata a formação de redes de apoio entre frequentadores do local. Segundo ele, ações de ajuda mútua são comuns no cotidiano do espaço, especialmente em situações de falta de alimentação ou recursos básicos.
A exposição propõe, por meio da combinação entre imagem e áudio, registrar experiências individuais e coletivas ligadas ao uso do banheiro público e ao território em que está inserido. Também busca chamar atenção para a manutenção do serviço e para as condições de vida das pessoas que o utilizam.