A ópera percorre o Quadradinho

Cia. de Cantores Líricos de Brasília já se apresentou em Ceilândia e chega agora à Escola de Música

Por Mayariane Castro

A companhia tenta popularizar a ópera, levando-a a vários teatros

A Cia. de Cantores Líricos de Brasília apresenta a ópera Adriana Lecouvreur, de Francesco Cilea, em temporada no Distrito Federal. Após recitais realizados nos dias 14 e 15 de março, no Teatro Newton Rossi, no SESC Ceilândia, o espetáculo segue para o Teatro Levino de Alcântara, na Escola de Música de Brasília, com apresentações marcadas para os dias 21 e 22. O projeto conta com financiamento do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC).

A montagem reúne orquestra com 24 músicos, coro e solistas, sob regência do maestro Felipe Ayala e direção cênica de James Fensterseifer. Esta é a primeira vez que a companhia apresenta a obra, considerada parte do repertório verista italiano. O espetáculo tem duração aproximada de duas horas e é apresentado em versão adaptada.

Inspirações

A narrativa acompanha a atriz Adriana Lecouvreur, interpretada pela soprano Renata Dourado, e a Princesa de Bouillon, vivida por Erika Kallina, que disputam o amor de Maurizio da Saxônia, personagem do tenor Rafael Ribeiro. A trama se desenvolve a partir do conflito entre as duas personagens e culmina em desfecho trágico.

O enredo aborda relações de poder, expressão artística e disputas afetivas. A protagonista é apresentada como uma artista que atua no teatro e constrói sua trajetória no palco, enquanto a rival representa uma figura ligada à estrutura social aristocrática. A oposição entre as personagens conduz o desenvolvimento dramático da obra.

A ópera tem libreto de Arturo Colautti, baseado em texto de Eugène Scribe e Ernest-Wilfrid Legouvé. A história é inspirada na atriz francesa Adrienne Lecouvreur, que viveu no século 18. Segundo a produção, a escolha da obra para o período de março dialoga com a programação do Mês da Mulher.

Sobre a obra

A encenação propõe uma ambientação que alterna dois espaços: os bastidores de um teatro e uma casa de campo. A proposta cênica busca evidenciar contrastes entre a vida pública dos personagens e seus conflitos pessoais. O cenário é assinado por James Fensterseifer e os figurinos por Stéphany Dourado.

A montagem transporta a narrativa original para a década de 1920. A adaptação estética remete ao período conhecido como “anos loucos”, com referências visuais associadas à época. Os figurinos incorporam elementos característicos desse contexto, mantendo aspectos da ambientação histórica da obra.

A trilha musical segue a tradição do verismo, com foco na expressividade dos personagens e na intensidade dramática. A estrutura da ópera combina momentos de leveza, associados às cenas da trupe teatral, com passagens de maior densidade emocional, centradas na protagonista.

Fundada em 2014, a Cia. de Cantores Líricos de Brasília atua na produção de óperas, concertos e musicais de diversos estilos. O grupo foi criado pela soprano Renata Dourado e pelo barítono Gustavo Rocha. A companhia reúne cantores profissionais e mantém um coro com participação de integrantes da comunidade.

Ao longo de sua trajetória, o grupo apresentou obras do repertório operístico internacional, como “Carmen”, “As Bodas de Fígaro”, “L’elisir d’amore” e “João e Maria”. Além das produções cênicas, desenvolve atividades voltadas à formação de público, com apresentações em escolas públicas do Distrito Federal. A atual temporada integra esse conjunto de ações voltadas à difusão da ópera na capital. As apresentações ocorrem em espaços culturais públicos e buscam ampliar o acesso do público ao gênero, que tem presença pontual na programação local.

Em profundo

Adrienne Lecouvreur foi uma atriz francesa do século XVIII, reconhecida por sua atuação na Comédie-Française, uma das principais instituições teatrais da França. Nascida em 1692, destacou-se por introduzir um estilo de interpretação mais naturalista em um período marcado por declamações formais. Sua atuação buscava maior proximidade com a fala cotidiana, o que contribuiu para mudanças na forma de representar personagens no teatro francês.

Ao longo de sua carreira, Adrienne consolidou-se como uma das principais intérpretes de tragédias clássicas, com destaque para papéis em obras de autores como Pierre Corneille e Jean Racine. Sua presença nos palcos foi acompanhada por reconhecimento do público e também por envolvimento em círculos sociais influentes da época. A atriz manteve relações com figuras da aristocracia, o que ampliou sua visibilidade fora do ambiente teatral.

Adrienne Lecouvreur morreu em 1730, em circunstâncias que geraram especulações à época. Por não ter recebido ritos funerários oficiais da Igreja, foi sepultada sem cerimônia religiosa formal, o que provocou repercussão no meio artístico e intelectual francês. Sua trajetória permaneceu como referência histórica e inspirou diferentes obras posteriores, incluindo a peça teatral que deu origem ao libreto da ópera apresentada pela companhia brasiliense.