Fora do Eixo: Ceilândia, terra do Cantador e do hip-hop

Região administrativa tem uma das mais ricas cenas culturais do Distrito Federal

Por Mayariane Castro

Casa do Cantador: ponto central da cena cultural de Ceilândia

Ceilândia consolidou-se ao longo das últimas décadas como um dos principais pólos culturais do Distrito Federal. A região administrativa reúne manifestações ligadas principalmente à cultura nordestina, expressões urbanas e iniciativas sociais através da arte, articuladas em espaços públicos, equipamentos culturais e eventos periódicos.

Essa produção é resultado da presença histórica de migrantes, da ocupação dos territórios periféricos e da atuação contínua de artistas e coletivos locais, de uma das maiores cidades do DF.

Cultura nordestina

A cultura nordestina ocupa papel central na formação cultural da cidade. Tradições trazidas por migrantes incluem o forró, a literatura de cordel, as festas juninas e outras expressões populares. Essas práticas são visíveis em eventos como o Distrito Junino, que reúne quadrilhas e apresentações tradicionais, e em espaços como a Casa do Cantador, dedicada à poesia, à música e à preservação da memória cultural nordestina no Distrito Federal.

A Casa do Cantador funciona como um dos principais equipamentos culturais da cidade. O espaço abriga atividades relacionadas à música popular, à literatura de cordel e a encontros de artistas, além de ações formativas de forma gratuita. Outro ponto de referência é a Feira Central de Ceilândia, onde se concentram atividades comerciais ligadas à gastronomia regional, à venda de produtos típicos e ao convívio social. A feira também atua como espaço de circulação cultural, reunindo trabalhadores, artistas e moradores da região.

Cultura da periferia

Além das tradições nordestinas, Ceilândia apresenta uma cena forte ligada à cultura urbana e periférica.

O rap, o hip hop, o breaking, o skate, o grafite e manifestações da cultura geek fazem parte do cotidiano da cidade. Artistas e grupos do Distrito Federal utilizam praças e espaços públicos para apresentações, batalhas de rima e encontros culturais. Eventos como a Mostra Cultural de Ceilândia organizam essas expressões em uma programação voltada à música, às artes visuais e às práticas esportivas urbanas.

A Praça da Estação, conhecida como CNN 2, é um dos locais utilizados para apresentações e encontros culturais. O espaço recebe eventos abertos ao público e funciona como ponto de encontro para artistas e coletivos.

Museu da Limpeza

Outro equipamento singular é o Museu de Limpeza Urbana, criado por trabalhadores da limpeza pública, que reúne objetos encontrados durante o trabalho cotidiano e propõe reflexões sobre consumo, descarte e memória urbana.

A economia local também integra o cenário cultural da cidade. Feiras culturais e eventos comunitários valorizam o artesanato, a gastronomia local e a produção independente.

Feira Cultural

A Feira Cultural de Ceilândia, conhecida como Candiá, reúne expositores, artistas e produtores locais, promovendo circulação econômica e visibilidade para iniciativas da região. Projetos itinerantes, como o Circula Cultura, levam atividades artísticas a diferentes regiões administrativas, ampliando o acesso da população às produções culturais.

Em 2025, Ceilândia recebeu a décima edição da mostra cultural Pérola Negra. O evento teve como foco a valorização da identidade afro-brasileira e contou com oficinas, feira de artesanato, rodas de samba, apresentações musicais e atividades gastronômicas abertas ao público. A iniciativa integrou o calendário cultural da cidade e reuniu artistas, produtores e moradores em torno de ações formativas e apresentações artísticas.

A agenda cultural segue ativa em 2026. No início de janeiro, a Praça da Bíblia, na Ceilândia P Norte, recebeu o Baile do Brooklyn, evento que abriu o calendário do ano com programação voltada ao hip hop. A iniciativa contou com apresentações de rap, trap e funk, reunindo artistas locais e público da região. O evento utilizou o espaço público como palco e reforça a presença da cultura urbana no início do ano.

Outro equipamento que amplia o acesso à cultura é a Biblioteca Pública de Ceilândia. Durante o recesso escolar, o espaço tem recebido programação voltada a crianças, jovens e adultos.

As atividades incluem contação de histórias, oficinas criativas e ações de incentivo à leitura. A proposta é manter o vínculo da comunidade com o livro e com o espaço público, transformando a biblioteca em um ponto de convivência durante o período de férias. Todas as atividades oferecidas pela biblioteca são gratuitas e abertas ao público. A iniciativa reforça o papel do equipamento como espaço de aprendizado e encontro comunitário, ampliando o uso do acervo e promovendo ações culturais fora do ambiente escolar.

Apesar da diversidade de manifestações, artistas e produtores culturais de Ceilândia relatam desafios estruturais. A cidade não conta com cinemas e teatros em número proporcional à população, o que exige a adaptação de praças e espaços alternativos para apresentações. A manutenção das atividades culturais depende, em grande parte, da articulação comunitária, de editais públicos e do esforço contínuo dos fazedores de cultura locais.

A combinação entre tradição nordestina, cultura urbana e iniciativas comunitárias mantém Ceilândia como um dos principais territórios de produção cultural do Distrito Federal. A ocupação dos espaços públicos, a realização de eventos e a atuação de coletivos seguem como estratégias para garantir visibilidade, acesso e continuidade às práticas culturais da região.