"Serei impugnado pelo Tribunal Regional Eleitoral"
Primeiro candidato sabatinado pelo Correio da Manhã adiantou sua expectativa quando ao julgamento desta quinta-feira
SABATINA/JOSÉ ROBERTO ARRUDA
O candidato do PSD ao Governo do Distrito Federal, José Roberto Arruda, discorda. E já adianta que irá recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Independentemente da sua avaliação, porém, sua avaliação não é otimista quando ao que acontecerá nesta quinta-feira (2), quando o Tribunal Regional Eleitoral do DF (TRE-DF) julgará o pedido de impugnação da sua candidatura. “As informações que tenho é de que serei impugnado”, afirmou Arruda.
Na entrevista abaixo, Arruda fala sobre sua situação política. Diz que continuará em campanha independentemente do que acontecer no TRE e avalia pontos da disputa ao GDF, como o Caso Master e os problemas de Brasília em áreas como mobilidade e saúde.
Candidato, há duas situações na justiça que podem levar o senhor a uma situação de inelegibilidade. O Tribunal Regional Eleitoral julgará um pedido de impugnação da sua candidatura. E há ainda no Supremo Tribunal Federal ação de inconstitucionalidade com relação a mudanças feitas pelo Congresso na Lei da Ficha Limpa. Não é complicado o eleitor vir a fazer a escolha de um candidato que não possa depois exercer seu mandato ou nem chegue de fato no final da eleição?
Claro que é complicado. Muito. Eu registrei minha candidatura nos termos da lei. Eu estou fora há 16 anos. A lei prevê no máximo 12. Se eu tivesse matado alguém, eu estava livre. Mas, se o Supremo julgar essa lei constitucional, aí não tem o que discutir, eu estou fora. Sobre o TRE, na minha visão, não teria como impugnar a minha candidatura, porque os 12 anos começam a contar da primeira decisão do segundo grau, que foi em junho de 2014. Venceu em junho de 2026. Mas as informações que temos é de que o TRE vai seguir o pensamento do Ministério Público, e eu serei impugnado amanhã. Se isso ocorrer, eu vou recorrer ao TSE. E eu acho assim: é muito difícil um país com insegurança jurídica, né? Infelizmente, isso realmente me prejudica. Quanta gente que eu encontro na rua: "Ô, Arruda, eu quero votar em você, mas você vai chegar?"
A eventual decisão do TRE no sentido que o senhor espera paralisa a campanha?
Não, não paralisa. A campanha continua até a decisão final do TSE.
Há uma percepção de que os empresários do transporte por ônibus exercem uma influência muito forte sobre o GDF. Brasília já tem mais de 60 anos e ainda conta com um sistema metroviário bastante limitado. Até que ponto o lobby das grandes empresas de ônibus influencia as decisões sobre a mobilidade urbana no Distrito Federal?
No meu governo, você sabe quanto eu pagava de subsídio para as empresas de ônibus? Zero. Hoje, o subsídio é de R$ 2 bilhõess. As cinco pessoas mais felizes do Brasil são cinco donos de empresas de ônibus do Brasil. Porque é o seguinte: é como você abrir uma sorveteria e não precisar vender sorvete. Se tiver a porta aberta, já ganha. Porque o empresário de ônibus hoje não é remunerado por passageiro transportado, mas por quilômetro rodado. Se ele sair vazio do Gama e chegar vazio na Rodoviária, ele ganha. Com R$ 2 bilhões por ano, eu faria 20 quilômetros de metrô por ano.
Existe quem desconfie que a situação de sucateamento do metrô seria uma estratégia para forçar a privatização. Faz sentido isso?
Todo sentido. Eles fizeram a mesma coisa com a CEB [Companhia de Eletricidade de Brasília) e venderam a CEB. Agora quebraram o BRB [Banco de Brasília]. Um absurdo o que fizeram com o metrô. Eu temo, sinceramente — tomara que eu esteja errado — que a gente ainda possa ter um acidente de grandes proporções.
É possível dizer que os empresários de ônibus tem poder para interferir na expansão de outros modais de transporte no Distrito Federal?
Claro, para eles está bom do jeito que está. Eles estão ganhando. Um deles foi num leilão do Ibaneis [Rocha, ex-governador do Distrito Federal] e comprou uma vaca em sociedade com a Celina [Leão, governadora do DF e candidata à reeleição]. Ela comprou uma vaca de ouro. Você imaginou uma empresa de ônibus que recebe mais de R$ 200 milhões de subsídio do governo para comprar uma vaca em sociedade com a governadora? Gente do céu!
Inevitavelmente, a eleição do Distrito Federal vai girar em torno da crise BRB Master…
Acho que não. O BRB-Master não chega na classe D e E. Ninguém entende o que são R$ 16 bilhões. O que é isso? Dá para comprar um carro? As pessoas mais simples não entendem. O problema hoje mais grave de Brasília é a saúde. Pessoas morrendo na fila dos hospitais. A gente tem que dimensionar as coisas para as pessoas entenderem. Sabe o que são R$ 16 bilhões roubados do BRB? Daria para construir 16 estádios de futebol, daria para construir 35 hospitais de grande porte. É isso que nos roubaram. O presidente do banco está preso, não fala nada. Agora (anteontem), teve uma reviravolta aí no Brasil, nesse caso do Master. Coisas impensáveis. Então, eu acho que a verdade, no fim, aparece.
No caso do Distrito Federal, que verdade com relação ao BRB/Master está para aparecer?
Não tenho a menor ideia. Gustavo Rocha, que é vice da Celina, recebeu R$ 6,3 milhões do Vorcaro pelo seu sócio, Enio Muniz. Se o candidato a vice já recebeu R$ 6 milhões do Vorcaro, o resto vocês imaginam. É por isso que eles querem me tirar no tapetão. É que eu não tenho medo de falar as coisas.
Se não será o ponto central do debate, como o senhor disse, teria um rombo de R$ 16 bilhões que impacta as contas do DF. Como solucionar a crise do BRB?
Antes de publicar o balanço, ninguém sabe falar. Você imagina um banco, qualquer banco, ficar um ano sem publicar balanço? Um banco do Estado não cumprir a lei e não publicar balanço? Sem o balanço, ninguém sabe o tamanho real do rombo. Falam em R$ 16 bilhões, pode ser mais. A sensação que eu tenho é que a Celina está empurrando com a barriga para o BRB quebrar depois das eleições. Tomara que eu esteja errado. Se eu estivesse no comando, eu já teria fechado as 19 agências fora de Brasília, cortado o patrocínio de Flamengo, Fórmula 1, reduzido o tamanho do banco e negociado com o Governo Federal, e isso se faz através do diálogo, a vinda do FCO, Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste, que são exatamente R$ 16 bilhões para serem aplicados no BRB, como o fundo do Nordeste é aplicado pelo Banco do Nordeste. Sem esse dinheiro para aumentar o giro e a liquidez do banco, o banco não tem saída.
Candidato, recebemos relatos de leitores do Correio da Manhã que afirmam estar há mais de seis meses aguardando o resultado de exames realizados pela Secretaria de Saúde. Como o senhor pretende resolver esse problema?
Esse é o problema mais grave hoje de Brasília, porque as pessoas estão morrendo. No meu governo, no governo do [Joaquim] Roriz, as pessoas vinham do Entorno para serem atendidas aqui. Agora, as pessoas de Brasília estão indo ser atendidas em Goiás. Que vergonha, né? Primeiro, eu quero construir o Hospital do Recanto das Emas, o de São Sebastião, o do Sol Nascente, o Hospital do Câncer e o Hospital de Cirurgias, específico de altas especialidades.
Tem dinheiro para construir?
Claro. Vou fazer por PPP também, como a Bahia fez, como São Paulo fez, como o Paraná fez. A empresa privada constrói o hospital e mantém durante 30 anos. Ela administra a limpeza, a conservação, a segurança, a vigilância, a alimentação e o avental branco, que são os médicos, enfermeiros e profissionais da saúde, são do Estado. Não estou inventando a roda. Vou fazer o que já deu certo em outros lugares. O sistema de tecnologia da saúde está no século passado.
E em relação ao IGESDF, o que o senhor pretende fazer?
O IGESDF pode ser uma ferramenta importante. Mas não pode trazer meia dúzia de advogados do Piauí, que não entendem nada de saúde, só para roubar nas compras.
Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado pelo PL, dividiu recentemente um palanque com o senhor no lançamento da candidatura de Alberto Fraga a deputado federal. Michelle apoia a candidatura de Celina Leão. E o senhor? Apoia a candidatura de Michelle? Isso significa algum apoio velado a Flávio Bolsonaro?
Eu sou de um tempo em que a política que se fazia construía pontes e não muros. Eu gosto muito da Michelle. Acho que ela foi uma primeira-dama exemplar, discreta. Ela é de uma família humilde, da Ceilândia. Com 10 anos de idade, já estava vendendo laranja no sinal de trânsito. Ela é uma grande figura. Acho que ela pode ser uma grande senadora. Eu gosto da Leila [Barros] também, pode ser uma grande senadora. O Ronaldo Fonseca, que é candidato na minha chapa, pode ser um bom senador. Ela [Michelle] apoia a Celina, sei lá as razões que ela tem, e eu respeito. Mas isso não me impede de apoiá-la também. O meu candidato é o Ronaldo Caiado, mas todo mundo sabe que eu sou amigo do Flávio, gosto dele. Qualquer um dos dois que estiver no segundo turno terá meu apoio.
E o Lula?
Eu gosto muito do presidente Lula. Quando eu fui governador e ele era presidente, ele me ajudou em tudo. Acho o Lula uma figura humana rara. Eu discordo do projeto de país do PT. Essa é a minha discordância ideológica. Mas você imagina o caboclo que saiu pobre lá do sertão, né? Vem numa carroceria de caminhão, chega lá em Cubatão, o pai já tinha outra família, vai vender pipoca na esquina, vai fazer curso do Senai, chega a presidente da República três vezes.
Então, quer dizer que quem ganhar a eleição, a relação do governador Arruda, se vier a ser eleito, vai ser boa com qualquer um?
Claro. Isso é um erro que esse governo cometeu. “Ah, não vou no palanque de 7 de setembro porque eu não piso onde Lula pisar”. Que falta de bom senso, gente! Uma coisa são diferenças ideológicas. Outra coisa é a figura institucional. O governador de Brasília é o síndico do prédio onde moram os poderes da República. Tem que se relacionar bem com todos eles.
Qual sua avaliação sobre o que aconteceu no Brasil no 8 de janeiro de 2023?
Acho que foi uma quebradeira generalizada. Isso não acontece por acaso. Claro que a segurança pública de Brasília falhou. Se eu fosse governador, não passava da Rodoviária. Agora, é igual à torcida de futebol. Você, sozinho, vê um jogo, você não quebra a televisão. Mas, no meio de uma multidão, havendo aqueles incendiários, você faz isso. Mas eu acho que muita gente inocente foi nesse caldeirão.
E havia gente que não era inocente?
Ah, eu não sei, né? Mas eu estou falando de um exame sociológico da manada. Esse efeito manada está nos livros de sociologia, né? Quando há uma multidão, é preciso ter muito cuidado. Acho que a segurança de Brasília recebe um fundo constitucional para cuidar da segurança da capital do país. Se os prédios dos Três Poderes foram quebrados, a segurança falhou.
E a punição?
Eu gosto muito do que o Caiado fala. Que, se for presidente, vai dar uma anistia e virar a página. Enquanto a gente ficar olhando pelo retrovisor, o Brasil não vai para a frente. Eu acho que o para-brisa é maior que o retrovisor.
O senhor propõe um Plano Estratégico de Desenvolvimento Territorial para os próximos 30 anos. Como impedir que esse planejamento seja alterado a cada governo ou fique apenas no papel?
Agora, Lúcio Costa fez um projeto urbanístico para Brasília maravilhoso. Só que entra governo, sai governo, vem a pressão do poder econômico. E, por exemplo, esse governo Ibaneis-Celina, eles aprovaram a construção de cem prédios na Orla do Lago, onde era o Clube de Tênis, Clube de Caça e Pesca. Isso é um absurdo. Se eu ganhar a eleição, eu mudo isso na hora. O plano original de Brasília está sendo maculado, sob o risco de Brasília perder o título de único bem contemporâneo que é Patrimônio Cultural da Humanidade. Juscelino construiu Brasília em três anos, estamos conseguindo destruir em 60.
Sempre há uma discussão muito grande entre os governos de Goiás e do Distrito Federal, um certo jogo de empurra com relação a como lidar com o Entorno. Quem é que tem responsabilidade sobre o Entorno? Como resolver essa questão?
Eu fiz o projeto Ride, Região Integrada de Desenvolvimento do Entorno. O que significa isso? Eu criei a região metropolitana de tal maneira que o governo de Brasília possa investir no Entorno. No meu governo, eu pagava médicos para trabalhar nas cidades do Entorno para evitar a vinda dessas pessoas para cá. Eu paguei infraestrutura em bairros pobres das cidades do Entorno, graças à lei que eu mesmo criei. Você não pode ter uma casa bonita e, do lado, ter uma favela.
O que o senhor pretende fazer para melhorar os índices da educação?
É só fazer o que eu fiz. Eu tinha 200 escolas de educação integral. Eu fiz um plano de carreira decente para os professores, que hoje estão ganhando muito mal. Eu dei 10 mil bolsas universitárias para jovens. Eu pagava a faculdade para eles e eles trabalhavam quatro horas por dia no contraturno, nas escolas públicas do Brasil. É voltar. Hoje tem mais professor temporário do que concursado. Virou bagunça. Eu disse que, se eleito, no primeiro dia, vão tomar posse comigo os 3,3 mil professores concursados. Será uma posse coletiva, simbólica. Não cuidaram de Brasília. Só quiseram fazer negócio. Negócio com o Banco Master.
Quais são suas considerações finais?
Muito obrigado pela oportunidade de colocar essas ideias. Eu estou falando de maneira muito aberta, livre, o que penso, porque eu não quero poder pelo poder. Isso eu já tive. Eu tenho um propósito, que é colocar a minha experiência, tudo que eu já vivi, tudo que eu já sofri, a serviço de uma Brasília melhor. Mas eu quero que a eleição seja decidida nas urnas. Que os eleitores possam votar. Posso ganhar, posso perder, isso é da democracia. Agora, me tirar no tapetão, como estão fazendo, é muito feio.