"A esquerda no DF não soube comunicar o que fez"

Na sabatina ao Correio da Manhã, o candidato do PT afirma que a governadora Celina Leão não se mostraria interessada em resolver a crise do BRB/Master

Por Isabel Dourado

Grass: "Ibaneis e Celina fizeram o pior governo da história"

SABATINA/LEANDRO GRASS

Por três vezes, o Distrito Federal teve governadores de esquerda. Nenhum deles conseguiu, ao final dos seus mandatos, se reelegerem. Nos últimos tempos, Brasília passou a adotar posições mais conservadoras. Para Leandro Grass, o candidato do PT ao GDF, mais por conta do crescimento de um sentimento antipolítica, que atingiu as legendas mais ideológicas. Mas também, na avaliação dele, por falhas na comunicação do que fizeram. Grass, porém, rebate: “A direita sabe governar?” E replica com críticas direcionadas à crise do BRB/Master, que classifica como o “maior escândalo de corrupção da história do país”.

A esquerda governou o Distrito Federal por três ocasiões. Duas com o PT, Cristovam Buarque e Agnelo Queiroz, e uma com o PSB, Rodrigo Rollemberg. Em nenhuma das três ocasiões, os governadores foram reeleitos. Nas últimas eleições, o DF optou por nomes de perfil conservador, e o ex-presidente Jair Bolsonaro venceu as eleições no DF em 2018 e 2022. A esquerda falhou no DF? Por que o Distrito Federal guinou à direita?
A cidade cresceu muito rápido. Hoje, é a terceira maior cidade do Brasil. A área metropolitana tem 3 milhões de habitantes e cresceu de forma desorganizada, desordenada e com uma quantidade de problemas sociais que estão aparecendo e que, ao longo do tempo, não foram solucionados. Ao mesmo tempo, Brasília foi muito influenciada pelas dinâmicas nacionais que tinham a ver com a contestação dos governos de maneira mais ampla. Em 2013, houve aqueles atos de contestação das obras da Copa, a questão da tarifa, da passagem de ônibus, tinha o questionamento sobre o papel do Ministério Público, aquela onda antipolítica, contra tudo e contra todos. Veio o golpe contra a presidente Dilma e a polarização se agravando. Veio depois a prisão do presidente Lula, o Bolsonaro chegando à eleição, chegando à vitória, e Brasília vinha sofrendo muito com esses movimentos antissistêmicos. Então, o que eu avalio é que, ao contrário da leitura de que Brasília endireitou, eu vejo que Brasília ficou muito antipolítica. E, naturalmente, alguns grupos, alguns partidos e alguns setores da política brasileira se aproveitaram bem disso, com discurso supostamente outsider, antipolítico. Ibaneis, por exemplo, não se dizia político, dizia que não era alguém da política. A esquerda, ou as esquerdas, têm posição política definida. Acabam sendo mais impactados. Agora, também não significa que não tenha havido erros e equívocos nas gestões dos nossos governos aqui. Tivemos teve muitas obras, muitas entregas, mas talvez não tenhamos sabido comunicar. Vou falar, por exemplo, do último governo do PT aqui [Agnelo Queiroz], que entregou 57 creches. Foi o maior número de creches entregues na história do Distrito Federal em um ciclo de gestão. Nós tivemos aqui, na década de 90, também no governo do PT [Cristovam Buarque], o Saúde em Casa, o Bolsa Escola, que foram exportados para o Brasil. Então, houve experiências exitosas. Porém, talvez não tão bem comunicadas. Mas a direita sabe governar? Colocou o DF hoje no pior lugar do Ideb. Nós temos o maior tempo de espera para cirurgia. Nós temos aumento do feminicídio, do latrocínio, do roubo e do furto na cidade. Nós temos um transporte público precário. Aumentou a miséria em Brasília em oito anos de governo.

As pesquisas apontam governadora Celina Leão à frente, e o senhor disputando com José Roberto Arruda, a chance de ir com ela para o segundo turno. Um de olho no eleitorado do outro. Qual sua opinião sobre Arruda? Vai querer o apoio dele para o segundo turno?
Hoje mais de 50% da população ainda não escolheu o seu governador. A gente tem a pesquisa estimulada e a pesquisa espontânea. Eu não costumo comentar pesquisa, mas o que a gente percebe é que, na estimulada, em que a carteira, a lista de candidatos, é apresentada à população, muita gente que ainda não conhece outros candidatos acaba optando por um nome que é mais conhecido. Nós temos uma governadora que está exercendo mandato, foi vice-governadora do Ibaneis, está com a máquina na mão, tem milhares de cargos comissionados, trabalhando na campanha dela atualmente, e mesmo assim, ela tem quase 50% de rejeição e só 30% dos votos, por enquanto, segundo as pesquisas. Arruda é um político tradicional de Brasília, é alguém que está à frente do processo político desde a década de 80/90, que foi secretário, que já ocupou cargos importantes, foi senador da República, foi deputado federal. Portanto, eu estou disputando contra duas lideranças, duas figuras, que têm muita visibilidade e têm também poder. Eu sou professor, tenho 20 anos de atuação na cidade, sou um gestor público, sou alguém que construiu a vida em Brasília. Não sou herdeiro político, não tenho ninguém na minha família que bancou a minha primeira campanha e nem a segunda. Não tenho nas minhas costas nenhum escândalo de corrupção, nenhuma denúncia, nenhuma condenação. E estou me apresentando novamente à população porque nós temos um projeto. Minha estratégia é mostrar a diferença do meu projeto, o projeto da Celina, do próprio Arruda e de outros. Temos uma grande oportunidade de mudar a história de Brasília. Brasília tem que sair das páginas policiais. Brasília tem que sair desse lugar de mediocridade. Brasília não pode ter a pior educação pública do Brasil. Brasília não pode ter a pior saúde pública do Brasil. Brasília não pode ter a maior desigualdade de renda do Brasil.

O DF passou por uma rápida expansão urbana. Temos mais de 3 milhões de habitantes e isso aumenta a pressão sobre o transporte público, sobre a mobilidade, deslocamento diário. Quais são suas propostas para melhorar a mobilidade a médio e longo prazo?
Quem sai de Jardim Botânico, quem sai do Itapoã, Paranoá, uma hora para chegar no Plano. Quem sai de Arapoanga demora 2 horas. Quem vem lá do Sol Nascente, o ônibus quebra no meio do caminho, tem que pegar outro ônibus. Então, colapsou o sistema de transporte. Brasília, a cidade modernista, foi muito pensada na lógica da pista, do carro, da rodovia. E não fez ainda a migração, a transição para o modelo ferroviário, que é trilho, apesar da gente ter o metrô. Só que o metrô atende só uma parte da cidade, que é a área oeste: Samambaia, Ceilândia, Águas Claras, Guará. O que eu estou propondo não é um projeto apenas de governo, é um projeto de Estado para mobilidade, e ele é de longo prazo. A gente precisa fazer a revolução do transporte público em Brasília. O que significa isso? É sair desse modelo rodoviário e ir para o modelo ferroviário, com o ônibus integrado a essas ferrovias, a esses trens, a esses metrôs. Então, vamos falar do que é mais rápido e do que é mais longo. Primeiro, a gente tem que relicitar o contrato das empresas de ônibus. Porque, se a gente não licitar, não tem como fazer o que eu preciso, que é ampliar as linhas e os horários. Tem que fazer uma nova licitação com as linhas que hoje não existem, com a quantidade que ainda não existe para atender à população. As empresas atrasam os horários, as empresas não prestam o serviço que têm que prestar e nada acontece. Nós vamos licitar, redefinir as linhas, os horários e eu vou ter uma atuação de fiscalização com as empresas. Descumpriu o contrato? Primeira advertência. Descumpriu duas vezes? Segunda advertência. Terceira, quebra o contrato. Segunda coisa: metrô. Revitalizar e restaurar o metrô, comprar novos vagões, recuperar as estações e ampliar o horário do metrô. Não dá para, na capital do país, o metrô funcionar até às onze e meia da noite. Quem trabalha no restaurante, quem trabalha no estabelecimento noturno, não volta para casa. Eu defendo o modelo que é mais rápido de ser implantado e mais barato, que é o trem de superfície. É um metrô por cima, para ficar mais fácil a gente entender. Como já tem em Salvador, tem em outras cidades, tem no mundo inteiro. A gente está propondo o trem de integração Entorno Sul, saindo de Luziânia até a Rodoviária. Esse projeto já está pronto. Está em fase de conclusão lá na ANTT, no Ministério do Transporte. Para depois iniciar o Trem Oeste, que é Águas Lindas até o Sol Nascente, com o Trem Norte, com o Trem Leste. BRT Norte, corredor exclusivo, BRT Norte até Arapoanga, até Rodoviária. Corredor exclusivo Leste, que é Paranoá, Itapoã, São Sebastião até a rodoviária. Criar os corredores para que quem usa o transporte chegue em meia hora, 40 minutos, no local que tem que chegar. E o VLT, o Veículo Leve sobre Trilhos, que é um veículo menor, e conecta algumas vias expressas, como, por exemplo, do Aeroporto até o Pátio Brasil. E a gente também pode fazer na Hélio Prates, Sol Nascente até o início ali de Taguatinga Norte. E dá para fazer também em outras cidades. E a tarifa zero. Ônibus de graça, como já tem em 143 cidades. Hoje, o governo já banca 70% do transporte, R$ 2 bilhões aproximadamente por ano. Mais R$ 1,5 bilhão, a gente fecha essa conta. R$ 1,5 bilhão no orçamento, a gente alcança reduzindo a renúncia fiscal, que hoje é de R$ 13 bilhões para empresas que geram poucos empregos e não pagam o imposto.

Pesquisa Real Time Big Data divulgada na quarta-feira aponta empate no primeiro turno com José Roberto Arruda, ambos com 20%. E Celina Leão, que disputa a reeleição, com 35%. Arruda, porém, teve sua candidatura impugnada, e foi testado um cenário sem ele, no qual Celina pulou para 46%. No segundo turno, ela lidera em todos os cenários testados. É possível vencer Celina Leão?
Creio que é possível vencer. Veja, esse dado é dado da pesquisa estimulada. Quando você vai para espontânea, ainda há um percentual muito grande de pessoas que não escolheram. Tem muito trabalhador, tem muito eleitor que ainda não se conectou com o processo eleitoral. Tem gente que vai decidir o voto lá na última semana, às vezes no penúltimo dia. Nosso papel é agora levar as propostas e a campanha para a rua, é o que a gente tá fazendo: na rua, conversando com o povo, escutando as pessoas. E a coisa muda muito rápido. Na última eleição, nesse período, eu tinha 10% das intenções de voto, segundo as pesquisas. Na última campanha, sábado, na véspera da eleição, saiu uma pesquisa. Nela, Ibaneis [Rocha] estava com 45%. Izalci [Lucas] tinha 14%, eu tinha 16%. Eu tive 26% e o Izalci 4%. Ou o instituto era muito picareta ou ele era muito ruim. A gente tem muito otimismo, muita esperança de que vai ganhar essa eleição. O governo Celina Leão é o pior governo da história. É a pior educação, a pior saúde, a pior segurança pública e a economia em queda, com aumento da pobreza e da desigualdade. Não tem política de moradia, o transporte está falido. É um governo que detonou a cidade, implodiu, ainda roubou. O BBB foi roubado. Maior escândalo de corrupção da história do Brasil e dos maiores do mundo aconteceu em Brasília. R$ 12 bilhões, gente.

Qual a sua expectativa com o BRB? Tem solução? O que vai ser feito?
Não dá para dizer que está falido nem que não está. Por quê? Porque a Celina, até agora, não publicou o balanço do banco e nem a auditoria. O BRB tem salvação e tem saída. A primeira coisa que tem que fazer é transparência, credibilidade, abrir as contas. Se você não abre as contas, você não consegue resolver o problema, porque ninguém sabe qual é o problema. Como é que você vai resolver uma coisa que ninguém sabe? Esse é o primeiro ponto: abrir o balanço, abrir a auditoria. Vamos fazer o processo de incorporação a partir dos bancos federais. Vamos negociar um crédito especial. Vamos negociar um crédito com o fundo garantidor. Mas nem o fundo garantidor, nem o Banco Central, nem o governo federal sabem o que tem dentro do BRB. Então, não tem saída para o BRB com a Celina Leão. Com ela, ou é liquidado ou é privatizado, como ela tá fazendo agora indiretamente e não tá contando para ninguém. Sabe quem é que está comprando os títulos do BRB? O BTG. O BTG está comprando títulos bons do BRB. Eu perguntei para ela, esses dias, ela ficou calada, ela não respondeu. A Celina não vai salvar o BRB.

A governadora disse que a insistência dos outros candidatos em pedir o balanço do BRB seria “burrice”, porque não seria possível divulgar o balanço sem a negociação feita para obter ajuda financeira para o banco. Como é que vocês receberam essa crítica dela?
É uma crítica ridícula. Como defender a transparência é errado? Quer dizer que a gente tem que defender o obscurantismo? A gente tem que defender o sigilo de uma coisa que é pública? Para ela, para Ibaneis, para essa turma a transparência não é uma coisa razoável. Na época da pandemia, eu entrei com uma representação no Tribunal de Contas, eu era deputado distrital, pedindo que abrissem os contratos da Covid. Eles abriram? Nunca. Aliás, desrespeitaram o Tribunal de Contas, reiteradamente. Levei ao Ministério Público. O que aconteceu? Operação Falso Negativo, prisão do secretário de Saúde. É assim que eles trabalham. Sabe qual o problema hoje do GDF? É um governo que acha que a coisa pública é coisa privada. Que o BRB é brinquedinho deles. Aí eles vão lá, fazem patrocínio de leilão de gado. Eles pegam o BRB e patrocinam corrida de rua em João Pessoa, que não tem nada a ver. Pega o BRB e patrocina hangar de jatinho no Aeroporto de Brasília. Aí a Celina contrata uma empresa na vice-governadoria de um ex-deputado distrital, a empresa é a Real. Essa empresa presta serviço de copeiro. E aí essa empresa, de repente, no momento em que ela assina o contrato, começa a pagar uma consultoria para a empresa da filha e do marido, R$ 100 mil por mês. Quase R$1,4 milhão. Gente, isso tem que ser, no mínimo, investigado. Isso é crime.

O Distrito Federal ficou em último lugar no Ideb. Como recuperar a educação do Distrito Federal?
O que aconteceu foram oito anos sem projeto, sem política de educação. Eu sou professor, trabalhei na escola pública. Trabalhei na escola particular também. Educação não acontece se você não tiver planejamento. Educação não acontece se você não valorizar quem trabalha na educação. E não acontece se você não tiver a mínima condição para realizar o seu trabalho. Então, vamos lá. Primeira coisa: não tem projeto, não tem plano. Onde é que a gente quer chegar? Quantas escolas integrais a gente quer implementar? Quantas creches eu vou construir? Ela não tem esse projeto. Nós vamos ter um projeto e a minha meta é conseguir pelo menos sete creches até o final do governo. Tem recurso do FNDE [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação]. A gente vai implementar a escola integral, capacitar professores, levar projetos para dentro das escolas. Escolas são pessoas, então tem que valorizar o profissional. Infraestrutura: tem escola que não tem ar-condicionado, tem escola hoje que não tem quadra coberta, sem biblioteca.

O senhor falou em relicitar as empresas de transporte. Isso significa que os atuais contratos vão ser suspensos?
Eles já deviam ter sido, porque acabou o tempo do contrato. É há dois anos. Nós vamos relicitar e aí, com o novo contrato, o anterior passa a não existir mais.

Suas considerações finais…
Primeiro, eu agradeço e parabenizo vocês pelo trabalho de cobertura das eleições. Muito importante dar visibilidade aos candidatos, às suas propostas. Isso ajuda muito a população. Então, a imprensa e, especialmente, o Correio da Manhã hoje aqui cumpre um papel importante. E convidar quem ainda não me conhece para me conhecer. Sou Leandro Grass, sou professor, tenho 41 anos, minha vida toda em Brasília. Foi aqui que eu me formei, construí a minha trajetória. Vamos recuperar as obras paradas, entregá-las. Vamos iniciar novas, vamos iniciar novos projetos, colocar Brasília no lugar que ela merece, que é o lugar de destaque nacional. A capital tem que inspirar o Brasil, tem que motivar o país, fazer de Brasília a capital tecnológica, capital da inovação, da economia verde, limpa, da economia do século 21 e gerar muito emprego, gerar muita prosperidade para o povo aqui ficar animado e feliz de morar em Brasília.

Veja, abaixo, a íntegra da sabatina: