Distrito Federal registra alta de 31,1% nos feminicídios, aponta Anuário Brasileiro de Segurança Pública

Levantamento aponta crescimento das mortes, das tentativas de feminicídio e dos casos de perseguição no DF

Por Isabel Dourado e Beatriz Cicci

Entre as 29 mulheres vítimas de feminicídio no ano passado no Distrito Federal, quatro tinham Medida Protetiva de Urgência (MPU) ativa

O Distrito Federal registrou aumento de 31,1% nos casos de feminicídios entre 2024 e 2025, passando de 22 para 29 mortes. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados nesta quinta-feira (23). O DF também notificou um aumento de 41,4% nas tentativas de feminicídio. Em 2024, foram registradas 95 ocorrências; em 2025, 135. “As mulheres que hoje figuram nessa estatística podem representar, amanhã, parte das vítimas de feminicídio consumado”, destacam os pesquisadores do Fórum.

Ao todo, o país registrou 1.571 feminicídios no ano passado, aumento de 4% em relação a 2024, sendo a taxa nacional de 1,4 vítimas por grupo de 100 mil mulheres. Os feminicídios tiveram como principais vítimas mulheres de 25 a 29 anos: elas representam 17,2% do total de casos. O Anuário se baseia em informações fornecidas pelas secretarias de segurança pública estaduais, pelas polícias civis, militares e federal, entre outras fontes oficiais da Segurança Pública.

Segundo a pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Beatriz Schroeder, o aumento dos casos de feminicídio pode ser atribuído a dois fatores principais: o aumento real da violência e a melhoria na qualidade dos registros.

“Em 2025, as mulheres foram mais vítimas de diferentes formas de violência, lesão corporal, ameaça, perseguição, violência psicológica. Então, o aumento dos feminicídios não aconteceu sozinho, mas em conjunto com o crescimento das diferentes formas de agressão e violência que atingem as mulheres”, afirma. Além disso, ela ressalta que os órgãos de segurança pública estão vinculando essas mortes à violência de gênero com mais frequência.

Perfil das vítimas

Seguindo o padrão observado ao longo dos últimos anos, o Anuário revela que as mulheres negras continuaram sendo as principais vítimas da violência letal contra mulheres no Brasil em 2025. Entre as vítimas de feminicídio, 65,1% eram negras e 34,0% eram brancas.

Perseguição

Entre as 29 mulheres vítimas de feminicídio no ano passado no Distrito Federal, quatro tinham Medida Protetiva de Urgência (MPU) ativa no momento em que foram assassinadas. Ao todo, foram 2.697 casos de descumprimento de MPUs em 2025, ante 2.262 ocorrências em 2024.

De acordo com o Anuário, o DF ainda registrou aumento no número de casos de perseguição (ou stalking), que subiu de 2.563 em 2024 para 2.661 em 2025. No Brasil, a variação foi ainda maior, com um crescimento de 30,1%.

Os números mostram que a violência contra a mulher no país não se limita às agressões físicas, mas também ocorre de forma moral e psicológica. A advogada Lara Bergamini explica que a situação pode ser agravada ou mal conduzida devido à falta de preparação dos agentes públicos para prestar assistência especializada nesses casos. Ela destaca, ainda, que uma das principais preocupações é a perseguição digital.

“A vítima sofre uma violência psicológica. Ela vai até a delegacia com provas digitais, vão registrar boletim de ocorrência e depois elas não vão ter para onde ir”, afirma a advogada. “Precisamos de uma delegacia de polícia cibernética para essa nova tipificação. Senão, novamente teremos mulheres que serão violentadas e não terão como denunciar, ou não terão como ser efetivamente apurados os atos dessa denúncia para tratar de proibir e punir quem cometeu [o crime].”

De acordo com os pesquisadores que participaram do Anuário, os dados apresentados auxiliam a compreender onde a violência letal contra mulheres ocorre e como ela se distribui pelo território brasileiro. Mas compreender o fenômeno exige também olhar para quem são as mulheres que morrem e para os contextos em que essas mortes acontecem.

Arma branca

Segundo revela o Anuário, a arma branca, categoria que inclui facas, canivetes, objetos perfurocortantes e instrumentos semelhantes - permaneceu sendo o principal instrumento usado nos feminicídios em 2025, responsável por 50,8% dos casos registrados. Já as armas de fogo foram utilizadas em 22,5% dos feminicídios.

Autores dos feminicídios

No ano passado, companheiros e ex-companheiros responderam por 79,8% dos autores identificados dos feminicídios. Apenas 2,8% dos feminicídios foram cometidos por desconhecidos.

Em 2025, quase dois terços dos feminicídios registrados no Brasil ocorreram dentro da residência da vítima ou do autor. O ambiente doméstico concentra 62,5% dos casos.

O Fórum Brasileiro destaca que “se o problema da violência contra mulher é também social e cultural, sua prevenção exige mais do que a atuação do sistema de justiça criminal: exige educação, transformação de normas sociais e fortalecimento das políticas de proteção às mulheres.”