Os sons e a poesia no caminhar da W3 Sul
Projeto cria percurso sonoro por uma das principais ruas de Brasília
O Coletivo Transverso estreou no dia 18 de dezembro, às 17h, o projeto “Cada Caminho é um Poema – Edição Relicário”, uma intervenção artística ao ar livre que propõe um percurso sonoro pela W3 Sul, em Brasília. A ação tem início e término no Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul, e convida o público a caminhar pela avenida guiado por áudios acessados por meio do celular. A participação é gratuita e aberta ao público, com visitação disponível até 17 de janeiro de 2026.
Idealizado em parceria com a Andaime Cia de Teatro, o projeto utiliza mapas impressos com QR codes que liberam conteúdos sonoros ao longo do trajeto. Com fones de ouvido, os participantes escutam textos, depoimentos, cenas e registros sonoros desenvolvidos a partir da própria W3 Sul. A proposta articula dramaturgia, memória urbana e escuta do espaço público, colocando a avenida como parte central da experiência.
Durante a abertura, o percurso será realizado de forma coletiva, com acompanhamento das artistas Patrícia Del Rey, do Coletivo Transverso e da Andaime Cia de Teatro, e Kamala Ramers e Tatiana Bittar, integrantes da Andaime. Ao final da caminhada, está previsto um bate-papo com os participantes para compartilhamento das impressões da vivência. Após a estreia, o público poderá realizar o percurso de forma autônoma, seguindo as orientações do mapa.
Observação do território
O projeto conta com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal. A proposta é voltada para pessoas que circulam pela cidade e se dispõem a observar o território a partir da escuta, considerando elementos como sons, fluxos, deslocamentos e mudanças do ambiente urbano que costumam passar despercebidos na rotina cotidiana.
A Edição Relicário é resultado de uma investigação artística conduzida pelos dois coletivos ao longo de caminhadas realizadas na W3 Sul em diferentes horários do dia, do amanhecer ao fim da tarde. Durante o processo, foram observados o ritmo da avenida, as variações climáticas, os encontros entre pessoas e as paisagens humanas e arquitetônicas que compõem o cotidiano da via. Esses registros serviram de base para a criação da dramaturgia sonora apresentada ao público.
Chuva
A presença recorrente da chuva durante o período de pesquisa foi incorporada aos áudios e à estrutura do percurso. Por esse motivo, a organização orienta que os participantes estejam preparados para variações climáticas, levando guarda-chuva e utilizando celular carregado. A experiência é realizada integralmente por meio do aparelho móvel, sem necessidade de outros dispositivos além de fones de ouvido.
O trajeto proposto tem pouco mais de um quilômetro e foi pensado para ser acessível, incluindo pessoas com mobilidade reduzida. Segundo a coordenação do projeto, o percurso começa e termina no Espaço Cultural Renato Russo e utiliza trechos da W3 Sul que permitem deslocamento contínuo, sem a necessidade de intervenções físicas adicionais no espaço urbano.
De acordo com Patrícia Del Rey, uma das idealizadoras, os conteúdos abordam temas como acessibilidade, apagamentos urbanos, relações de vizinhança, precarização de espaços, deslocamento e permanência na cidade. A dramaturgia foi construída a partir de observações diretas do território e de relatos associados à avenida, sem a intenção de oferecer uma leitura única sobre Brasília.
A intervenção marca a segunda colaboração entre o Coletivo Transverso e a Andaime Cia de Teatro. A parceria anterior ocorreu em 2016, com a performance “Queimada de Sutiã”, apresentada na Esplanada dos Ministérios. Quase dez anos depois, os grupos retomam o trabalho conjunto com foco em pesquisas relacionadas à memória urbana, à presença no espaço público e às relações estabelecidas entre pessoas e cidade.
Criado em 2011, em Brasília, o Coletivo Transverso desenvolve intervenções no espaço público por meio de diferentes linguagens, como lambe-lambe, stencil, projeções luminosas, performances e ações de jardinagem. O grupo é formado por Cauê Maia, Patrícia Del Rey e Rebeca Damian e investiga temas ligados à memória social, à poesia e aos usos da cidade. O coletivo já realizou ações em instituições culturais e participou de eventos nacionais e internacionais, além de atuar como editora independente desde 2018.
A Andaime Cia de Teatro foi fundada em 2007, na Universidade de Brasília, e desenvolve pesquisas em teatro de grupo, performance e ocupação do espaço urbano. A companhia mantém repertório com apresentações no Brasil e no exterior e também atua na área de formação artística e intercâmbio cultural.
