Celina assume tentando se descolar de Ibaneis

Problemas envolvendo o Master e composição da chapa afastam governadora daquele que sucedeu

Por Isabel Dourado e Rudolfo Lago

Celina: desafio de conquistar uma marca própria

Nas semanas que antecederam a passagem de faixa no Governo do Distrito Federal, a relação entre Ibaneis Rocha (MDB) e Celina Leão (PP) se deteriorou significativamente e os dois mal se falavam.

Fontes ouvidas pelo Correio da Manhã afirmam que o distanciamento teria se intensificado após o surgimento das primeiras denúncias envolvendo as irregularidades na compra das controversas carteiras de crédito do banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).

A atual governadora, Celina Leão, tem afirmado reiteradamente que não teve ingerência nas decisões de negócios do BRB. Ao discursar na solenidade de posse, ela ressaltou, na presença de Ibaneis, que sequer tinha sido consultada, passando um recado claro. “Não participei de decisões que não reflitam o interesse público. O BRB é patrimônio do povo do Distrito Federal. Deixo claro que não participei da decisão, nem sequer fui consultada sobre o assunto”, disse. A nova governadora também garantiu que o governo atual daria “respostas” à crise.

Em sua defesa, a atual governadora destaca que antes de que qualquer indício de crise envolvendo o banco Master viesse à tona, já havia informado a Ibaneis Rocha que não manteria Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, em sua equipe.

Apesar de Ibaneis ter afirmado publicamente que não teve ingerência nas negociações que levaram o BRB a adquirir carteiras de crédito do Master, o ex-presidente da Instituição era um nome de sua confiança. A relação próxima que o ex-governador mantinha com a diretoria do BRB, especialmente com o ex-presidente Paulo Henrique também é destacada por fontes ouvidas pelo Correio da Manhã. Especialmente em torno do patrocínio do Flamengo – seu clube de coração, e do cartão relacionado com ele.

Aliados atuais da governadora sustentam que não surgiram elementos que a vinculem diretamente ao caso BRB-Master. Ainda assim, fontes ouvidas pelo Correio da Manhã avaliam que a governadora também enfrenta fragilidade políticas relacionadas a dois fatores: Celina assumiu interinamente o governo em diversas ocasiões, durante viagens e período de férias de Ibaneis; o segundo ponto é sua proximidade com o presidente do seu partido, o Progressistas, o senador Ciro Nogueira (PI). Ele é apontado como uma figura com conexões no caso Master.

Mensagem direta

Segundo Ariel Calmon, coordenador de análise Política de Estados e Municípios na BMJ Consultores, a governadora tenta se desvincular da maneira como o ex-governador conduzia a crise do BRB, ela chegou a admitir que pediria ajuda do governo federal.

“Logo no momento da posse, Celina mencionou que não tem nenhum envolvimento com o caso. Ela manda uma mensagem direta para Ibaneis e tenta passar uma linha no chão com relação a esse assunto. Ela retirou a Serrinha do Paranoá de imóveis destinados à capitalização e afastou dirigentes do BRB. Tudo isso é uma mensagem que ela está tentando passar que reconhece o tamanho do problema”, avalia.

O cientista político Isaac Jordão observa que a governadora Celina Leão tem adotado um distanciamento em relação às decisões polêmicas da gestão Ibaneis, tentando reduzir possíveis implicações jurídicas e políticas na sua gestão atual.

Acordo

Jordão também cita como exemplo a exclusão da Serrinha do Paranoá, área de proteção ambiental, cuja inclusão gerou polêmica, do plano de capitalização do caixa do BRB e a tentativa de chamar o governo federal para conversar sobre a crise. “O acordo para Celina ser vice de Ibaneis seria a sucessão do governo. Assim que Ibaneis saísse para ser candidato ao Senado, ela assumiria. Era um acordo que tinha um peso claro”, relembra.

“Quando teve a história do Master, o Ibaneis chegou a cogitar não sair para concorrer ao Senado, mas eles tinham esse acordo claro. O GDF virá com essa bomba e agora Celina é obrigada a resolver o problema. A movimentação dela é ir se afastando. Tudo que ele fazia que gerava polêmica, ela tem desfeito. Tirou a Serrinha do Paranoá do plano de capitalização do BRB, tem dado passos largos para tentar se desvencilhar das implicações criminais do caso Master. É fato que o GDF vai ter que lidar com esse prejuízo, e, se o governo federal receber isso, vai ser pior, porque aí vai ter que federalizar o BRB. Essa conta alguém tem que pagar e no final será o contribuinte.”

Aliança

A crise do Master também deslocou o PL e o bloco bolsonarista de Ibaneis. O grupo tenta se afastar causando um isolamento. A governadora Celina Leão fechou uma aliança com o PL que não deve deixar espaço para Ibaneis ser candidato ao Senado como ele tanto almeja.

A chapa com o PL prevê que as candidatas ao Senado serão a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e a deputada federal Bia Kicis.

O analista Ariel Calmon reforça que a principal disputa entre os pré-candidatos é ter o apoio do PL. “Há essa dúvida em torno de quem será a chapa do Senado. A Celina Leão tem muita proximidade com Michelle Bolsonaro, ela estava na cerimônia de posse. Celina também mantém forte relação com a senadora Damares que é do Republicanos, e com Bia Kicis, deputada federal que também está no pleito”, afirma.

Fontes consultadas pelo Correio da Manhã comentam que quando o PL fechou que a deputada Bia Kicis seria candidata ao Senado, o ex-governador reagiu aos gritos, que podiam ser ouvidos de outras salas. Ameaçou tirar cargos dos bolsonaristas.

Após ter conseguido aprovar o pacote de socorro ao BRB na Câmara Legislativa, Ibaneis exonerou quatro pessoas que ocupavam cargos de confiança no GDF e eram indicados pelos deputados Thiago Manzoni (PL) e Rogério Morro da Cruz (PRD).

Diante da falta de vaga na chapa de Celina, há uma expectativa de que Ibaneis deverá segurar ao máximo que é candidato ao Senado. Chegando próximas as convenções partidárias, no meio do ano, ele então acabaria cedendo e saindo candidato a deputado federal, para não perder o foro diante da expectativa de problemas na Justiça.