Projeto ensina a fotografar rituais do Candomblé no DF
Aulas orientarão sobre os limites do que pode ser registrado
Por Isabel Dourado
O Candomblé, religião de matriz africana, profundamente enraizada na ancestralidade, realiza diversas cerimônias sagradas que celebram a conexão entre o mundo terreno e o espiritual. Os rituais evocam os orixás, divindades cultuadas que representam forças da natureza (água, fogo, terra, ar). A relação com o orixá se estabelece através de cantos, danças e oferendas que simbolizam o agradecimento pelas bênçãos recebidas e a purificação do espírito.
Cada toque de atabaque que ecoa nos terreiros de candomblé reafirma a força de uma crença que atravessa gerações. No Instituto Ojuinã, organização religiosa e sem fins lucrativos do Distrito Federal, essa herança ganha novos caminhos de expressão.
Por meio do projeto Territórios Afrocandangos, a instituição realiza a oficina "Olhares Ancestrais: Fotografia de Candomblé e Ritos Afro-brasileiros com celular", convidando o público a refletir sobre a ética, o respeito e a sensibilidade ao registrar os rituais sagrados. As aulas gratuitas, ministradas pelo fotógrafo Luan Brasil, acontecerão nos dias 7,8, 14 e 15 de março, das 14h às 18h, no terreiro Ilè Asè Ojuinà localizado no Núcleo Rural Nova Betânia, no Jardim Botânico.
Mais do que ensinar técnicas de enquadramento, luz e ângulo, o curso convida o público a conhecer os ritos do candomblé, religião que ainda sofre com a intolerância religiosa. Os participantes serão orientados a lidar com o sagrado e a compreender o que pode e o que não deve ser fotografado, além de reforçar a ética e o cuidado com imagens de ritos afro-brasileiros.
O Instituto Ojuinã desenvolve vários projetos culturais, sociais e ambientais com o propósito de fortalecer a presença e a valorização das religiões de matriz africana no Distrito Federal. Entre as iniciativas está a oficina de fotografia, que propõe o resgate e a preservação da memória das religiões afro-brasileiras por meio da imagem.
Em entrevista ao Correio da Manhã, o fotógrafo Luan Brasil observa que para registrar os ritos é necessário ter duas qualidades: a primeira é a sensibilidade, e a segunda é o cuidado para não interromper o acontecimento do rito. "A partir do momento que um fotógrafo adentra o terreiro ele precisa ter certa sensibilidade para fotografar aquele rito, e não interromper o acontecimento. Então, a gente vai ter alguns exercícios práticos que vão falar sobre essa proximidade, mas também sobre o distanciamento entre aquele objeto que está sendo fotografado e como fazer uma imagem sem atrapalhar quem está conduzindo o rito."
A oficina do Instituto também deve tratar sobre precificação e comercialização de serviços fotográficos considerando as especificidades culturais e econômicas desses espaços. "Existe uma demanda grande de mercado para profissionais que saibam fotografar candomblés. Todo final de semana em Brasília, algum terreiro, alguma casa realiza uma festa pública, realiza seus ritos, então, há uma demanda grande de profissionais qualificados. Vamos ensinar as pessoas a precificarem seu tempo, existe custo de deslocamento, custo de software, mesmo fotografando com o celular", aponta Luan. As inscrições são limitadas e podem ser feitas pelo instagram do Instituto Ojuinã.
