Crimes em hospital assustam população do DF
Três técnicos de enfermagem são presos suspeitos de matar pacientes em UTI. Motivação ainda é investigada
Três técnicos de enfermagem que atuavam no hospital Anchieta, em Taguatinga, região administrativa do Distrito Federal, foram presos por suspeita de terem matado intencionalmente três pacientes que estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Segundo a Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o investigado de 24 anos, apontado como principal suspeito teria administrado medicamentos em dosagens excessivas e sem indicação para uso endovenoso, diretamente na veia das vítimas.
Desinfetante
Em um dos casos, ele ainda teria aplicado desinfetante, provocando a morte de uma das vítimas, uma mulher de 75 anos.
Os óbitos ocorreram entre 17 de novembro e 1 de dezembro de 2025. As vítimas tinham idades e quadros clínicos diferentes, mas segundo as investigações, todos tiveram uma piora repentina no quadro pouco antes da morte.
Apuração do caso
Em entrevista coletiva, o delegado Wisllei Salomão, Coordenador do CHPP da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), afirmou que os elementos comprobatórios coletados na investigação são robustos e com base em vídeos e análise dos prontuários médicos eles puderam apurar todas as ações que foram realizadas pelos ex-funcionários.
“Existe elementos convincentes de que o técnico de enfermagem se passou pelo médico, entrou no sistema que faz a prescrição dos medicamentos por duas vezes e se passando pelos médicos prescreveu este medicamento, foi até a farmácia buscou, preparou o medicamento, escondeu no jaleco e aplicou na veia dos pacientes”, explicou.
Segundo o delegado, após a aplicação dos medicamentos o principal suspeito, juntamente com outras duas técnicas de enfermagem cientes do crime, aguardava a reação dos pacientes, pois, uma vez que o medicamento era injetado nas veias o que não deve ser feito, provocam paradas cardíacas.
“Esse técnico ainda realiza massagem cardíaca tentando ‘salvar’ o paciente que ele tinha aplicado a medicação tentando matar. Inclusive, em um dos casos, quando ele não teve mais acesso ao medicamento ele pegou o desinfetante que estava no leito e por mais de dez vezes aplicou na veia do paciente, o que causou a morte.”
Nota
Em nota à imprensa, o Hospital Anchieta esclareceu que, após identificar circunstâncias consideradas atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), instaurou um comitê interno de análise, o que resultou na abertura de uma investigação rigorosa. Em menos de 20 dias, foram identificadas evidências envolvendo os ex-funcionários, que foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.
“O próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026”. O Anchieta informou ainda que entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários e que se solidariza com os familiares das vítimas.
Piora súbita
De acordo com a diretora do Instituto de Medicina Legal (IML) da Polícia Civil, Márcia Reis, o que chamou atenção da perícia foi uma piora súbita no quadro das vítimas. “Eram pacientes que tinham gravidades diferentes de quadro clínico. O que chamou atenção da perícia não foi uma piora gradual do quadro deles, mas uma piora súbita em momentos repetidos que culminaram em parada cardíaca. Muitas foram revertidas, até que chegaram a óbito.”
Segundo ela, a perícia realizou uma análise minuciosa dos prontuários médicos dos pacientes que auxiliaram na apuração. “Tivemos acesso a vídeos para contextualizar a análise desses prontuários e avaliar a evolução desses pacientes, os efeitos de determinados medicamentos na evolução e no quadro de gravidade que esses pacientes apresentaram e que culminaram com o óbito.”
Intenção
A diretora do IML explica que os profissionais sabiam que estavam aplicando os medicamentos de forma irregular e estavam cientes dos potenciais efeitos da medicação.
“Os profissionais sabem a respeito dessas medicações, até porque existem protocolos bem estabelecidos para o uso de determinadas substâncias, principalmente quem já está habituado a trabalhar nesse ambiente de UTI, de pacientes mais graves. Então, eles com certeza sabiam.”
Leandro Oliveira, diretor da Divisão de Perícias Internas do Instituto de Criminalística, cita a importância da coleta de diversos registros em câmeras, acesso aos sistemas, consultas em prontuários. “Tudo isso está sendo trabalho para que possamos trazer uma prova bem completa.”
Mandados de busca
Segundo a Polícia Civil do DF, as prisões dos ex-funcionários do Hospital Anchieta ocorreram no último dia 11. Também foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás.
A segunda fase da operação batizada de Anúbis, fazendo referência ao deus dos mortos da mitologia egípcia foi deflagrada na última quinta-feira (15), quando foram apreendidos dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.
Vítimas
São investigadas as mortes de Miranilde Pereira da Silva, 75 anos; João Clemente Pereira, 63 anos; e Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos.
Miranilde era professora aposentada da rede pública do Distrito Federal e segundo o Sindicato dos Professores do DF, atuou por vários anos na Regional de Ensino de Ceilândia, na Escola Classe 03. Ela foi enterrada no dia 19 de novembro do ano passado.
João Clemente Pereira era servidor público da Caesb, onde trabalhava como supervisor de manutenção.
A terceira vítima, de 33 anos, Marcos Raymundo Fernandes Moreira era funcionário dos Correios e trabalhava no Centro de Distribuição Domiciliar (CDD) de Brazlândia. Em nota, o Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telégrafos do Distrito Federal (Sintect-DF) se solidarizou com o falecimento de Marcos. Ele foi enterrado no Campo da Esperança de Brazlândia.