Igreja Católica monitorava desde 2019 ataques a Nossa Senhora Aparecida
Documentos e estudos mostram que setores da Igreja já demonstravam preocupação com ataques à devoção mariana e com o avanço de movimentos religiosos sobre a política
A preocupação de setores da Igreja Católica com ataques à devoção a Nossa Senhora Aparecida não começou na campanha presidencial de 2026. Documentos e estudos debatidos no meio católico mostram que, desde pelo menos 2019, lideranças religiosas acompanhavam manifestações de intolerância, questionamentos ao culto de imagens e o avanço de discursos religiosos na política. A linha do tempo foi revelada pela jornalista Daniela Lima, do UOL.
O material reúne registros sobre ataques contra diferentes tradições religiosas, incluindo católicos, judeus e religiões de matriz africana. No caso da Igreja Católica, parte das discussões abordava especificamente críticas à devoção à Maria, acusações de "idolatria" e episódios de rejeição ou apagamento de imagens religiosas.
Outro ponto de atenção era a chamada "teologia do domínio", corrente presente em segmentos cristãos que defende maior presença de valores religiosos nas estruturas de poder e na vida pública. Segundo a apuração, documentos, seminários e estudos analisados pela Igreja discutiram os efeitos políticos desse movimento e possíveis riscos à liberdade religiosa e à laicidade do Estado.
A tensão em torno de Nossa Senhora Aparecida, no entanto, é anterior. Em 2007, o então deputado federal Professor Victório Galli apresentou o Projeto de Lei 2.623, que pretendia alterar a Lei nº 6.802/1980 para substituir a expressão "Padroeira do Brasil" por "Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". A proposta acabou arquivada.
Na época, a Igreja reagiu publicamente. O então arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno Assis, criticou a tentativa de alteração e sustentou que o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como padroeira não dependia apenas da legislação brasileira, mas também de sua proclamação pela Igreja Católica.
O assunto voltou ao radar político em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, quando Victório Galli foi nomeado assessor especial da Presidência da República. Pastor evangélico, o ex-deputado havia perdido a tentativa de reeleição no ano anterior. A nomeação levou para dentro do governo o autor da antiga proposta sobre a denominação de Nossa Senhora Aparecida, embora o projeto estivesse arquivado havia mais de uma década.
É nesse período que a apuração de Daniela Lima situa o início de uma sequência de documentos e debates acompanhados pela Igreja sobre intolerância religiosa e uso político da fé. As preocupações envolviam desde ataques a símbolos religiosos até movimentos que defendiam uma presença mais direta de determinadas vertentes cristãs nas estruturas do Estado.
O tema voltou a ganhar força em 2026, quando Flávio Bolsonaro afirmou que, caso eleito presidente, decretaria "Jesus Cristo o Senhor do Brasil". A declaração reuniu elementos que já vinham sendo discutidos por setores católicos sobre a relação entre religião, política e laicidade do Estado.
A fala, entretanto, não significa que Flávio tenha defendido a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida. Na reta final da campanha, conteúdos publicados nas redes sociais passaram a atribuir ao candidato o projeto apresentado por Victório Galli em 2007. A informação é falsa: Flávio não foi autor da proposta e nega ter intenção de retirar da santa a condição de Padroeira do Brasil.
A controvérsia também provocou um embate com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Flávio acusou pessoas ligadas à entidade de participação na disseminação da informação falsa. A CNBB negou a acusação, afirmou não integrar estruturas político-partidárias e declarou que não produziu, autorizou ou participou da divulgação de informações falsas relacionadas à eleição.
A discussão acabou chegando à Justiça Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal, com decisões divergentes sobre a retirada das publicações. Nesta quarta-feira (30), o Tribunal Superior Eleitoral analisa a controvérsia em plenário virtual, após o ministro André Mendonça determinar a remoção de conteúdos que atribuíram a Flávio a intenção de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
A documentação recuperada pela apuração do UOL acrescenta um elemento anterior à disputa eleitoral atual. A preocupação de setores da Igreja com ataques à devoção à Maria, intolerância religiosa e instrumentalização política da fé já vinha sendo discutida havia anos. Os registros não comprovam a existência de um projeto de Flávio Bolsonaro contra o título de Nossa Senhora Aparecida, mas ajudam a explicar por que a controvérsia de 2026 encontrou um ambiente de alerta previamente estabelecido dentro da Igreja Católica.