Mistura de etanol na gasolina pode subir para 32%; veja impactos

Conselho Nacional de Política Energética deve analisar ampliação do percentual de etanol na gasolina; especialistas divergem sobre impactos para veículos e consumidores.

Por Redação

Engenheiros do setor automotivo afirmam que motores desenvolvidos para percentuais menores de etanol podem sofrer maior desgaste ao longo do tempo

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve deliberar nesta terça-feira (14) sobre o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, elevando o percentual dos atuais 30% para 32%. A proposta integra as iniciativas do programa Combustível do Futuro e busca ampliar o uso de biocombustíveis no país, mas gera debate entre representantes da indústria automotiva e do setor sucroenergético.

Enquanto defensores da medida afirmam que a mudança fortalece a segurança energética, reduz a dependência de gasolina importada e amplia a participação de combustíveis renováveis, especialistas alertam para possíveis impactos em veículos mais antigos e modelos importados que não foram projetados para operar com concentrações maiores de etanol.

Veículos antigos podem exigir mais manutenção

Engenheiros do setor automotivo afirmam que motores desenvolvidos para percentuais menores de etanol podem sofrer maior desgaste ao longo do tempo. Entre os componentes considerados mais sensíveis estão bomba de combustível, bicos injetores, mangueiras, vedações, tanque, linhas de combustível e sistemas eletrônicos responsáveis pelo gerenciamento da injeção.

Segundo especialistas, o etanol possui características químicas diferentes da gasolina, incluindo maior capacidade de absorção de umidade, fator que pode favorecer processos de corrosão em materiais que não foram desenvolvidos para esse tipo de combustível.

Além disso, o menor poder energético do etanol pode resultar em um aumento no consumo de combustível, embora o impacto varie conforme o modelo do veículo, a tecnologia embarcada e as condições de uso.

Nos automóveis equipados com sistemas eletrônicos mais antigos ou carburadores, a adaptação à nova mistura tende a ser mais limitada. Nesses casos, podem surgir sintomas como dificuldade na partida, oscilações na marcha lenta, perda de potência, falhas de funcionamento e desgaste antecipado de componentes do sistema de ignição e alimentação.

Custos de manutenção podem aumentar

Oficinas especializadas relatam que veículos importados e modelos premium estão entre os que mais exigem atenção quando há mudanças na composição dos combustíveis.

Peças como bicos injetores, bombas de combustível, sensores, mangueiras, velas de ignição e componentes de vedação podem sofrer desgaste prematuro caso o sistema não seja compatível com a nova concentração de etanol.

Dependendo do modelo, a substituição desses itens representa um custo elevado para o proprietário. Em alguns veículos importados, apenas um bico injetor pode ultrapassar R$ 1 mil, enquanto bombas de combustível podem custar mais de R$ 1,9 mil, sem considerar a mão de obra.

Indústria automotiva pede mais testes

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirma apoiar a expansão dos biocombustíveis e reconhece a importância do etanol para a redução das emissões de carbono.

Entretanto, a entidade defende que qualquer alteração na mistura obrigatória seja precedida por testes técnicos abrangentes, capazes de comprovar a compatibilidade dos motores e componentes com o novo percentual de etanol.

O posicionamento é compartilhado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), que considera os ensaios essenciais para garantir segurança aos consumidores e evitar problemas futuros de durabilidade.

Setor do etanol defende viabilidade técnica

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) sustenta que a proposta foi construída com base em estudos desenvolvidos no âmbito do programa Combustível do Futuro, envolvendo instituições de pesquisa, órgãos públicos e representantes dos setores automotivo e energético.

De acordo com a entidade, os testes realizados avaliaram aspectos como desempenho, consumo, dirigibilidade, partida a frio e funcionamento de veículos leves movidos exclusivamente a gasolina.

Segundo a Unica, os resultados indicam que a ampliação da mistura para 32% é tecnicamente viável, sem evidências de aumento significativo de desgaste dos motores nas condições avaliadas.

A entidade também afirma que a produção nacional possui capacidade para atender à demanda adicional por etanol anidro. A expectativa é que a medida reduza a necessidade de importação de gasolina e amplie o uso de combustíveis renováveis produzidos no Brasil.

Decisão será acompanhada pelo mercado

A definição do CNPE é acompanhada de perto pela indústria automobilística, pelo setor de biocombustíveis e pelos consumidores. Caso a mudança seja aprovada, a expectativa é de que a nova mistura passe a integrar a política nacional de combustíveis, com impactos tanto para a cadeia produtiva quanto para a frota brasileira de veículos.