No Dia do Meio Ambiente, OMM alerta para os impactos climáticos

País pode enfrentar efeitos graves do El Niño, com secas, queimadas e também enchentes

Por Beatriz Cicci

El Niño pode provocar tanto enchentes como secas e queimadas

Nesta sexta-feira (5), no Dia Mundial do Meio Ambiente, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou para uma possibilidade de 80% de um El Niño extremamente forte entre junho e agosto.

O fenômeno se refere ao aumento da temperatura da superfície do oceano Pacífico e pode causar eventos climáticos extremos como os que foram vistos com as fortes enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, mas também pode produzir secas e queimadas em outros estados brasileiros.

O que comemorar?

O alerta serve de exemplo das consequências de negligenciar políticas ambientais. Assim, a ironia do comunicado no dia no qual o meio ambiente é celebrado leva ao questionamento: o que o Brasil tem para comemorar?

Segundo o ambientalista e diretor do Observatório do Clima, Márcio Astrini, porém, existem tanto motivos para celebrar quanto para lamentar.

O mundo se encontra em crise climática. 2025 foi o terceiro ano mais quente desde a era pré-industrial, perdendo somente para 2024 e 2023. Isso se dá ao aumento contínuo de emissões de gases de efeito estufa e à exploração de recursos naturais. Os resultados do aquecimento global e da falta de priorização de políticas ambientais já estão surgindo através de recordes de temperatura, secas, enchentes, deslizamentos e mortes provenientes de tais mudanças climáticas.

“Nós estamos numa situação muito ruim, já devíamos ter mudado essa rota ao redor do mundo e o que vemos é cada vez mais investimento indo para uso de combustíveis fósseis, inclusive aqui, onde temos declarações do próprio governo dizendo que o Brasil almeja ser um país que vai explorar suas reservas de petróleo até a última gota”, Astrini disse ao Correio da Manhã.

Mas, apesar desse discurso, Astrini declarou que “o governo atual tem saldos ambientais positivos”, mas muitas contradições também.

Desmatamento

O principal marco ambiental da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a redução do desmatamento em todos os biomas, incluindo uma queda de 50% na Amazônia. Lula também reativou o fundo Amazônia – que já aprovou mais de R$1,1 bilhão –, investiu no IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), criou o Ministério de Povos Indígenas, estabeleceu unidades de conservação, criou territórios indígenas e realizou diversas operações de desintrusão e combate a invasores na Terra Indígena Yanomami.

No entanto, essa ficha de bons resultados entra em contradição com outras medidas aprovadas pelo mesmo governo, como o asfaltamento não licenciado da BR 309, que passa por uma área da Floresta Amazônica, e a autorização da exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Da mesma forma, a mudança de lei a favor da fragilização do licenciamento ambiental no final de 2025 limitou a capacidade do Estado de prevenir e remediar danos ambientais. A conversão da Medida Provisória (MP) 1.308/2025 em lei cria um procedimento acelerado para grandes obras, reduzindo a qualidade das análises técnicas e prejudicando a segurança jurídica que o desenvolvimento de empreendimentos sustentáveis requer, de acordo com o WWF-Brasil.

A importância da priorização de políticas ambientais será vista através dos eventos climáticos previstos nos próximos anos, que têm a tendência a se tornarem cada vez mais frequentes e intensos. Embora o governo Lula seja responsável por avanços na política ambiental do Brasil e pela retomada de projetos que estavam estagnados durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, especialistas advertem que mais precisa ser feito para mitigar os impactos das mudanças climáticas.

“As ações boas não justificam as ruins. Em meio ambiente não existe isso”, Astrini afirmou. “Estamos tão próximos de vários limites, inclusive de colapso na Amazônia e em vários outros ecossistemas, que não temos mais o luxo de errar.”