Putin acena à Europa, nega planos de ataque, mas avisa que Rússia responderá a hostilidades

Presidente russo diz estar disposto a restabelecer relações com países europeus em meio ao aumento dos alertas militares, incidentes com drones e novas sanções contra Moscou

Por Bianca Lobianco

Putin negou planos de ataque contra países europeus e afirmou que Moscou está aberta à retomada das relações com o continente.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que Moscou está disposta a restabelecer as relações com os países europeus e negou ter planos de atacar o continente, mas advertiu que o país responderá caso considere estar sendo alvo de hostilidades. A declaração ocorre em um momento de aumento da tensão entre a Rússia e governos europeus, que reforçam medidas de proteção diante de possíveis ameaças híbridas.

Putin fez as declarações durante uma reunião da Comissão Militar-Industrial da Rússia na sexta-feira (18). Segundo o presidente, Moscou não teria motivos para iniciar uma agressão contra países europeus e estaria aberta à retomada da cooperação com seus vizinhos.

"Quero afirmar mais uma vez: a Rússia não tem intenções agressivas em relação à Europa ou aos países europeus", declarou Putin, segundo registro de sua fala divulgado pelo Kremlin e reproduzido por agências internacionais.

O presidente russo, no entanto, combinou o aceno diplomático com uma advertência. Ao criticar as políticas de defesa adotadas por governos europeus, afirmou que Moscou poderá responder caso considere que ações contra seus interesses ultrapassem determinados limites.

As declarações surgem em meio a um cenário significativamente mais tenso no continente. No mesmo dia, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que as ameaças híbridas atribuídas à Rússia contra a Europa e a França se intensificaram nas últimas semanas.

Macron determinou ao governo francês a elaboração de um plano para proteger infraestruturas críticas e instalações da indústria de defesa contra ataques envolvendo drones, ações cibernéticas e outras formas de sabotagem. O presidente francês também acusou Moscou de tentar intimidar países europeus e enfraquecer o apoio à Ucrânia.

Moscou nega representar uma ameaça aos países europeus e rejeita as acusações de participação em operações de desestabilização.

Putin também acusou governos europeus de utilizarem a percepção de uma ameaça russa para justificar o aumento dos gastos militares e a ampliação das estruturas de defesa da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O presidente voltou suas críticas principalmente para movimentações militares realizados no Mar Báltico. Segundo Putin, uma das atividades envolveu treinamento para assumir o controle de embarcações civis, algo que ele apresentou como contraditório com a defesa europeia do direito internacional.

O exercício mencionado pelo presidente russo ocorreu nas proximidades de Helsinque, na Finlândia, com participação de forças finlandesas, francesas e polonesas. Um dos cenários simulava a abordagem de uma embarcação suspeita de envolvimento em danos à infraestrutura submarina.

O treinamento utilizou o quebra-gelo finlandês Polaris. Agentes chegaram à embarcação a partir de um helicóptero e assumiram o controle da ponte de comando durante a simulação.

Para as autoridades envolvidas, o objetivo é preparar forças de segurança para possíveis ações contra cabos de energia e telecomunicações, gasodutos e outras estruturas estratégicas existentes no fundo do Mar Báltico.

A região tornou-se uma das principais preocupações de segurança da Europa depois de uma série de episódios envolvendo danos a cabos e outras infraestruturas submarinas. Governos da região reforçaram patrulhas e mecanismos de vigilância diante da possibilidade de sabotagem.

O discurso de Putin ocorre ainda em meio a novos episódios envolvendo drones no continente. Luxemburgo interrompeu temporariamente as operações de seu principal aeroporto após a detecção de aparelhos não autorizados, enquanto a Moldávia investiga uma possível violação de seu espaço aéreo depois de uma explosão e da localização de destroços perto de Chisinau.

A Polônia também colocou sistemas de defesa aérea e equipamentos de reconhecimento por radar em estado de alerta no sábado (19). As operações foram posteriormente encerradas sem que uma violação do espaço aéreo polonês fosse constatada.

Não há confirmação pública de que todos esses episódios estejam ligados à Rússia. A origem de parte dos drones permanece sob investigação, o que impede atribuir os incidentes diretamente a Moscou.

A tensão também aumentou no Reino Unido. Dados divulgados pela imprensa britânica apontam centenas de incidentes envolvendo drones em instalações militares ou nas proximidades delas ao longo dos últimos 12 meses. O Ministério da Defesa britânico não estabeleceu publicamente a origem desses aparelhos.

O cenário de segurança se soma à pressão econômica sobre o Kremlin. Os Estados Unidos aprovaram uma nova rodada de sanções contra a Rússia que amplia as medidas dirigidas ao setor energético, a autoridades e às redes utilizadas por Moscou para contornar restrições internacionais.

A legislação sancionada pelo presidente Donald Trump também abre caminho para tarifas de até 100% contra grandes países compradores de petróleo e gás russos. A autorização não significa que a alíquota máxima tenha sido automaticamente aplicada aos parceiros comerciais de Moscou.

As relações entre Rússia e Europa estão deterioradas principalmente desde a invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022. A União Europeia adotou sucessivos pacotes de sanções contra Moscou, enquanto países europeus passaram a fornecer armas, recursos financeiros e treinamento às forças ucranianas.

Putin voltou a atribuir a guerra e a deterioração da segurança europeia à expansão da Otan e à recusa dos países ocidentais em atender às demandas de segurança apresentadas anteriormente por Moscou. Essa é a interpretação defendida pelo Kremlin. Governos ocidentais e a Ucrânia rejeitam essa justificativa e responsabilizam a Rússia pela invasão do território ucraniano.

O discurso de conciliação de Putin também contrasta com a continuidade da guerra. Ataques russos contra cidades e infraestrutura ucranianas permanecem em curso, assim como operações ucranianas com drones contra alvos em território russo. Nesta segunda-feira (21), novos ataques atingiram Zaporizhzhia, enquanto a Ucrânia realizou uma ampla ofensiva com drones durante o fim de semana.

Em setembro, Putin negou intenções de ofensivas

Não foi a primeira vez nas últimas semanas que Putin negou planos de agressão contra outros países europeus. Em conversa com Trump no início de setembro, o presidente russo já havia afirmado que Moscou não tinha intenções agressivas contra a Europa, segundo o Kremlin. A declaração ocorreu enquanto autoridades europeias manifestavam preocupação com possíveis operações russas de sabotagem.

Ao mesmo tempo em que fala em reconstruir relações, Putin indicou que a modernização militar continuará. Durante a reunião de sexta-feira, classificou o fortalecimento da tríade nuclear russa como prioridade e afirmou que 92% dos armamentos das Forças Estratégicas de Mísseis já correspondem a sistemas modernos. Também citou investimentos em defesa aérea, drones, armas de precisão, satélites e inteligência artificial.

A combinação das declarações mostra duas mensagens simultâneas de Moscou: Putin sinaliza disponibilidade para reconstruir canais com os países europeus, mas deixa claro que a Rússia continuará fortalecendo sua capacidade militar e responderá a ações que considere hostis.