Europa elogia Espanha, mas teme programa de regularização de imigrantes
Ponto de divergência entre países, iniciativa não foi tratada em reunião
A reunião de emergência dos países-membros da União Europeia sobre a crise em Ceuta deveria encerrar com uma mensagem de solidariedade à Espanha, na terça (4). Ela veio, mas com um recado sobre a política de regularização de imigrantes do país. "Não é um bom sinal para o resto da Europa", declarou Magnus Brünner, chefe de imigração do bloco.
"Entendo que a Espanha fez isso porque se trata, principalmente, de latino-americanos que falam a mesma língua e compartilham a mesma cultura. Mas o recado para o resto da Europa não é nada bom. Definitivamente, não é", disse o representante da Comissão Europeia quase ao fim da entrevista que concedeu em Bruxelas após o encontro.
Até então, Brünner tinha tomado cuidado com as declarações, evitando qualquer tipo de endosso ou crítica à ofensiva capitaneada por Itália e Dinamarca contra a iniciativa do governo Pedro Sánchez. Segundo o comissário, o assunto nem foi abordado durante a reunião, realizada por videoconferência.
Só que, nas entrelinhas de uma carta assinada por 22 países no fim de semana, a crise no exclave espanhol no norte da África era consequência direta do propalado estímulo à imigração ilegal, produzido pela política do líder socialista, exceção na Europa.
O programa espanhol, anunciado no primeiro semestre deste ano e que já recebeu mais de um milhão de inscrições, regulariza apenas residência, não cidadania, como chegou a sugerir Antonio Tajani, ministro das Relações Exteriores da Itália, na esteira do ocorrido. Madri convocou o embaixador italiano após a postagem, uma forma de reprimenda na linguagem diplomática.
A regularização também não contempla imigrantes irregulares, que chegaram sem visto à Espanha. Nenhuma explicação, porém, ameniza o fato de que a política de Sánchez para fazer frente à falta de mão de obra e à crise demográfica, dois fantasmas europeus, vai de encontro aos limites do próprio continente sobre o tema.
Apenas Irlanda, que exerce a presidência temporária da UE, França, Portugal e Luxemburgo não assinaram o manifesto do fim de semana. No fim das contas, a Espanha pode ter tido um comportamento exemplar na crise, como Brünner ressaltou mais de uma vez em suas explicações, mas continuará servindo de argumento para o recrudescimento das políticas imigratórias do bloco.
A legislação recém-aprovada permitirá a criação de "centros de retorno" fora das fronteiras da UE, assim como a designação de países terceiros seguros: locais que aceitem receber imigrantes deportados de outras nacionalidades ou que os abriguem durante o processo de concessão de asilo.