Rússia faz ameaça nuclear e acende alerta

Exercício nuclear foi a maior manobra desde a Guerra Fria

Por Igor Gielow (Folhapress)

Lançador de míssil intercontinental Iars participa de exercício

A Rússia voltou a escalar sua retórica atômica nesta quinta-feira (21), dia em que encerra os maiores exercícios nucleares desde o fim da Guerra Fria. Tal manobra "sempre é um sinal", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. Os Estados Unidos, por sua vez, fizeram um teste de rotina de seu principal míssil nuclear, o Minuteman-3, na véspera. O ensaio estava programado havia meses, mas em ocasiões anteriores os EUA já cancelaram lançamentos para evitar escalar tensões.

Elas estão altas na Europa. A admissão de Peskov, enquanto óbvia, é inusual. A praxe quando forças estratégicas são mobilizadas é dizer que as manobras são rotineiras e direcionadas apenas a cenários de autodefesa. Assistindo às manobras por vídeo, o presidente Vladimir Putin ainda contemporizou, dizendo que as armas são "um último recurso". Mas o recado estava dado.

A fala ocorre em meio ao crescente atrito entre os russos e os Estados Bálticos, membros do flanco leste da Otan que são os mais frágeis e expostos elos da aliança militar ocidental. Nesta semana, houve uma intensa troca de acusações entre Moscou e as capitais vizinhas, além de um renovado alarme com incursões de drones. Pela segunda vez e após incidentes similares na Letônia e na Lituânia, a Estônia decretou nesta quinta um alerta de invasão de seu espaço aéreo.

Novamente, caças da Otan que ajudam a patrulhar os céus dos países do Báltico, que não têm Força Aérea própria, foram acionados. Desta vez, contudo, não houve abate ou identificação da origem do avião-robô.

Eles provavelmente eram drones lançados pela Ucrânia, como ocorreu anteriormente. A novidade é que os países bálticos acusam agora a Rússia de desviar intencionalmente os aparelhos com medidas eletrônicas, visando causar confusão na vizinhança.

De seu lado, o Kremlin também escalou a retórica. Nesta quinta, reafirmou que a Estônia e outros vizinhos estão permitindo que a Ucrânia use seu território e espaço aéreo para lançar ataques contra a infraestrutura energética e cidades russas.

O secretário-geral da Otan, o holandês Mark Rutte, classificou a afirmação de ridícula. Já a chancelaria russa afirmou em nota que o fato de ser integrante da aliança não protegerá os bálticos de retaliação.

Segundo uma pessoa próxima ao governo ouvida pela reportagem em Moscou, o tom de ameaça por ora é só isso, mas ecoa um temor corrente na elite do país de que Putin possa tentar algum tipo de ação contra os Estados Bálticos, particularmente a mais exposta Estônia, enquanto Donald Trump ainda estiver no poder. O descompromisso crescente do republicano com os aliados da Otan poderia favorecer um teste de estresse com a aliança. Contra ele há o risco da Terceira Guerra Mundial, nuclear por definição.