EUA diz para cidadãos americanos deixarem o Irã imediatamente

Irã atacou navios em Hormuz, e negociação com os Estados Unidos segue incerta

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O Irã atacou navios de carga no estreito de Hormuz nesta quarta-feira (22), no primeiro dia da segunda prorrogação do cessar-fogo feito pelo presidente Donald Trump na guerra que promoveu com Israel contra a teocracia islâmica.

Desta vez, a suspensão da guerra é por tempo indefinido, marcando mais um recuo do republicano na condução do conflito que jogou o Oriente Médio em desarranjo e a economia global, em crise devido ao aumento do preço do petróleo - 20% da commodity passava por Hormuz antes das hostilidades.

A Guarda Revolucionária iraniana confirmou ter atacado e tomado dois navios de contêineres junto a sua costa em Hormuz, o MSC Francesca, de bandeira panamenha, e o Epaminondas, que navega sob as cores da Libéria. Ambas as embarcações foram atingidas por tiros, mas ninguém se feriu.

Segundo a UKMTO, agência de monitoramento naval da Marinha britânica, um terceiro navio também foi abordado na região e sofreu danos por tiros, mas ela não confirmou a origem dos projéteis.

A agência alertou que o tráfego de navios na região segue extremamente perigoso devido às ações do Irã e também ao bloqueio naval imposto aos portos da teocracia pelos Estados Unidos. Trump, ao cancelar a retomada da guerra, manteve o embargo que começou a valer na segunda da semana passada (13).

Nesta quarta, ao menos um superpetroleiro de bandeira filipina rumo ao golfo Pérsico foi parado por forças americanas e forçado a voltar.

Segundo o mais recente levantamento, divulgado na segunda (20), outros 27 navios fizeram o mesmo e 34 escaparam do bloqueio. Já o iraniano Touska foi alvejado e apreendido pelos EUA no domingo (19).

A volatilidade segue afetando o mercado de energia, principal arma de pressão de Teerã no conflito. Após uma ligeira queda com o anúncio de Trump na terça (21), o preço do barril do tipo Brent para contratos futuros voltou a ficar em torno de US$ 100 com os ataques desta quarta.

Enquanto o balé naval se desenrola, cresce a incerteza em relação às negociações para um acordo de paz mais duradouro, que inclua temas como a liberdade de navegação em Hormuz e o destino do programa nuclear dos aiatolás - o motivo presumido para o começo da guerra, em 28 de fevereiro.

A capital do Paquistão, Islamabad, segue mobilizada para receber delegações dos rivais, que já se reuniram na cidade sem sucesso no fim de semana retrasado. Desta vez, Trump havia anunciado a retomada das conversas no fim de semana, mas elas não aconteceram, apesar de a equipe liderada pelo seu vice, J. D. Vance, estar pronta para viajar.

O Irã rejeitou negociar com o bloqueio naval, que considera uma violação de cessar-fogo. Antes, havia exigido um cessar-fogo nos ataques de Israel ao Hezbollah no Líbano, e conseguiu por pressão dos EUA. Depois, anunciou a reabertura de Hormuz, só para fechá-lo novamente.

Não houve uma resposta formal à nova extensão da trégua, apenas autoridades secundárias dizendo à mídia iraniana que a disposição de Teerã seguia a mesma. Os ataques em Hormuz sugerem que o Irã buscará se mostrar o mais inflexível possível, ao menos até que algo mude no cenário diplomático.

Há sinais confusos também na teocracia. O novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, até hoje não apareceu em público ou na TV, levantando dúvidas sobre sua capacidade de comando. Um dos líderes negociadores, o chanceler Abbas Araghchi, foi desautorizado pela Guarda, cujos generais são o principal poder no país, após ter anunciado no X a reabertura de Hormuz.

Além do risco de retomada da campanha aérea que dizimou a cúpula do regime, degradou severamente as capacidades militares do país e deixou mais de 3.000 mortos, há também a pressão econômica - o fechamento de Hormuz e o bloqueio afetam sua economia, dependente da venda de petróleo para a China.

Trump jogou com essa carta em uma postagem nesta quarta. "O Irã está colapsando financeiramente! Eles querem o estreito de Hormuz aberto imediatamente - faminto por dinheiro! Perdendo US$ 500 milhões por dia. Militares e policiais reclamam que não estão sendo pagos. SOS!!!", escreveu na rede Truth Social.

Retirada imediata

O Governo dos Estados Unidos informou nesta quarta-feira (22) que os cidadãos norte-americanos que ainda estiverem no Irã devem deixar o país imediatamente.

Aviso foi dado após a abertura parcial do espaço aéreo iraniano. Além de orientar que os cidadãos procurassem as companhias aéreas, o Departamento de Assuntos Consulares disse que estrangeiros podem tentar sair do país por via terrestre, pela Armênia, Azerbaijão, Turquia e Turcomenistão.

Além de recomendar a saída do Irã, os EUA também desaconselharam viagens para o Afeganistão e para o Iraque. O comunicado também pediu que seus cidadãos evitassem a fronteira entre Paquistão e Irã.

País também disse que governo iraniano pode cobrar uma "taxa de saída" ou tentar impedir que os americanos deixem o país. "Cidadãos com dupla nacionalidade (americana e iraniana) devem sair do Irã com passaportes iranianos", diz trecho do comunicado.

Prorrogação
do cessar-fogo

Donald Trump anunciou nesta terça-feira (21) que adiaria o fim da trégua a pedido de autoridades do Paquistão. Segundo ele, o marechal Asim Munir e o primeiro-ministro Shehbaz Sharif pediram a suspensão de novos ataques americanos.

O cessar-fogo continua até que os iranianos cheguem a um consenso, disse Trump. "Estenderei o cessar-fogo até que sua proposta seja apresentada e as discussões sejam concluídas, de uma forma ou de outra", completou o presidente.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, agradeceu ao norte-americano. O líder paquistanês elogiou Trump por aceitar o pedido e permitir que os esforços diplomáticos sigam seu curso natural.

Trump ordenou a manutenção do bloqueio marítimo ao Estreito de Hormuz. A decisão orienta as Forças Armadas dos Estados Unidos a continuarem prontas e aptas para agir. Nesta terça, ao menos dois barcos foram atacados pelo Irã no estreito, segundo a Marinha britânica.

Expectativa era de que EUA e Irã se encontrassem novamente no Paquistão para debater a paz permanente. Apesar disso, o Irã não deu sinais de que viajaria até Islamabade para as negociações. Segundo a agência estatal Tasmin, o país rejeitou as negociações porque os EUA não recuaram de exigências consideradas excessivas nos últimos dias.

O governo iraniano avalia que participar das reuniões é uma perda de tempo. Segundo a agência, a delegação iraniana informou que a segurança é a "maior prioridade para qualquer possível viagem ao país".

Com a negativa iraniana, a viagem diplomática do vice-presidente americano, JD Vance, a Islamabad também foi suspensa. Segundo o jornal 'The New York Times', o cancelamento ocorreu nesta terça após o governo iraniano ignorar as propostas dos Estados Unidos.

Por Igor Gielow (Folhapress)