Política de Trump é boa para os negócios, diz presidente da Saab

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"Claro que é bom para os negócios", diz, com a relutância que a moderação nórdica lhe impõe, o sueco Micael Johansson. O presidente da Saab, maior grupo de defesa de seu país, definiu assim a volta de Donald Trump ao centro do poder mundial.

Em conversa com a reportagem na quarta-feira (26), após o lançamento da versão produzida na fábrica da Embraer em Gavião Peixoto (SP) de seu mais famoso produto, o caça Gripen, que é operado pelo Brasil, Johansson avaliou o impacto da nova realidade geopolítica na indústria de defesa europeia.

"Acho que ele está certo", diz, sobre o republicano ter enfatizado a necessidade de a Europa se proteger sozinha. "É claro que isso é em combinação com a guerra na Ucrânia e com os EUA priorizando mais o Oriente Médio e o Pacífico. Precisamos investir em mais capacidade", afirma.

"Por que devemos gastar 70% dos acordos de defesa na Europa com os EUA ou com a Coreia do Sul quando temos indústrias fortes? É um pouco estranho. Nós devemos parar de falar sobre esse setor como algo ruim à sociedade. É claro que seria ótimo que não tivéssemos nenhum conflito, mas você tem de ter dissuasão", afirma.

Desde que retornou à Casa Branca em 2025, Trump passou a fatura da ajuda a Kiev contra a invasão russa para os aliados europeus na Otan e levou a aliança a elevar sua meta de gasto com defesa para 5% do PIB em dez anos, sendo 3,5% desse total na parte militar e 1,5% na infraestrutura correlata.

Com a guerra contra o Irã, iniciada ao lado de Israel há um mês, a relação azedou ainda mais. Trump passou a chamar os europeus de covardes, ainda que não os tenha consultado sobre o ataque, porque queria que eles ajudassem a desobstruir o estreito de Hormuz.

Ao mesmo tempo, abriu oportunidades inclusive para a Saab, que em 2024, ano do dado mais recente, era a 28ª maior empresa de defesa do mundo em receita no ranking do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. Isso pode mudar: de lá para cá, a fabricante viu seu valor de mercado crescer em quase 120%.

"Há requerimentos do Oriente Médio sobre nossos sensores, para ser capaz de criar uma consciência situacional num ambiente muito contestado com mísseis e drones. A demanda aumentou de repente", afirmou, sem citar nomes de clientes.

Johansson rejeita a ideia de que esse foco relegou a Ucrânia a segundo plano. "Acho que é mais uma mudança em termos de cobertura de mídia", afirmou. Os governos europeus, diz, seguem empenhados no apoio a Volodimir Zelenski.

A Saab ganhou destaque no fim do ano passado quando a Suécia assinou com a Ucrânia um acordo para a produção potencial de até 150 caças Gripen para Kiev. Por evidente, esse número é inatingível no curto prazo e com as capacidades industriais do país, para não falar em quem vai pagar a conta.

Mas é uma janela que se abre, e pode até favorecer o Brasil. "Ainda é cedo para dizer", diz Johansson, "mas aqui [Gavião Peixoto] não é só para atender o contrato brasileiro, é para exportação".

O primeiro cliente externo além da Força Aérea Brasileira que a unidade paulista deverá atender é a Colômbia, até pela questão geográfica. Bogotá assinou um pedido para 15 caças monopostos Gripen E, como o feito na Embraer, e 2 do tipo F, para dois pilotos.

Por Igor Gielow (Folhapress)