Utradireita quer adaptar o ICE na França
Lideranças da direita querem reduzir a presença de imigrantes
Líderes da ultradireita na França defendem a adoção no país de uma "política de remigração", com um órgão nos moldes do ICE, o serviço de imigração dos EUA que matou dois cidadãos americanos que se manifestavam contra operações em Minneapolis.
As declarações ocorrem no momento em que a divulgação dos números da imigração na França serve de munição aos defensores da remigração. Segundo o Ministério do Interior, o número de estrangeiros com visto permanente aumentou 3% em 2025, atingindo 4,5 milhões, ou cerca de 6% da população.
Éric Zemmour, do partido Reconquista, afirmou em entrevista a um canal de TV que "será preciso adaptar [o ICE] às estruturas francesas, mas é preciso ser impiedoso" com os imigrantes em situação irregular. Zemmour foi o quarto colocado na eleição presidencial francesa de 2022, com 7% dos votos.
Em entrevista a uma rádio, Marion Maréchal, do partido Identidade-Liberdades, esquivou-se de criticar o ICE pelas mortes de Renee Good e Alex Pretti, tachando-as de "acidentes infelizes" provocados por "militantes de extrema esquerda que se interpõem à ação policial".
Maréchal é sobrinha de Marine Le Pen, principal pré-candidata do maior partido de ultradireita, a Reunião Nacional (RN), à eleição presidencial de 2027. Nas redes sociais, supremacistas brancos defenderam explicitamente a implantação de um ICE francês, segundo o jornal Libération.
O advogado Arno Klarsfeld, filho do célebre casal de caçadores de nazistas Serge e Beate Klarsfeld, defendeu "grandes operações como faz Trump com o ICE, tentando apanhar o máximo de estrangeiros em situação irregular". A frase causou surpresa porque o termo empregado por ele em francês ("rafles"), é o mesmo usado para descrever a captura em massa de judeus - inclusive o avô do advogado - pelos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial.
Ironicamente, a RN, maior partido da ultradireita, antes entusiasta dos atos de Trump, passou a adotar um discurso cauteloso. Segundo analistas políticos, Marine Le Pen receia ser vista como a candidata de Trump, no momento em que o americano é visto pela opinião pública francesa como hostil à Europa.
Jordan Bardella, pupilo de Le Pen - e possível candidato presidencial, já que ela está recorrendo de uma pena de inelegibilidade por desvio de fundos europeus -, disse ter elogiado Trump antes "porque ele defende o interesse americano".
Em 2025, 384 mil estrangeiros ganharam o primeiro visto permanente, uma alta de 11%. Desse total, dois terços foram concedidos por "motivo humanitário". Quase 25 mil foram expulsos da França no ano passado. Mas o número de regularizados caiu 10%, para apenas 28 mil, fruto do endurecimento das condições de regularização.