Governo Trump usa linguagem racista em publicações

Publicações do ICE usam termos supremacistas contra imigrantes

Por Por Victor Lacombe (Folhapress)

Mais do que qualquer outra, a promessa feita por Donald Trump na campanha eleitoral de 2024 de que, se eleito, deportaria milhões de imigrantes dos Estados Unidos capturou o imaginário do eleitorado e da base do Partido Republicano.

Apoiadores lotaram comícios com placas como "deportem todos agora", "proteja a fronteira" e "deporte todos os ilegais". O então candidato disse, entre outras coisas, que os imigrantes vindos da América Latina estariam envenenando o sangue da nação americana.

A retórica de Trump, mais radicalizada do que no passado, encontrou nova expressão entre a base jovem do partido, que desenvolveu uma linguagem própria em fóruns de internet e em redes sociais. Para especialistas ouvidos pela Folha, essa linguagem é extremista, racista e com características em comum com a propaganda de regimes fascistas do século 20 - e vem sendo usada também na comunicação oficial do governo Trump.

"Há um nível de racismo explícito e etnonacionalismo que, embora estivesse presente no primeiro mandato, foi muito exacerbado agora", diz Joseph Nevins, geógrafo e especialista em imigração do Vassar College, no estado de Nova York. "Existe a ênfase na superioridade de grupos de pessoas que são, de modo geral, de ascendência europeia."

No seu perfil no X, o Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável pela corrente campanha de deportação em massa, frequentemente faz publicações de recrutamento, conclamando jovens a "proteger o Ocidente", a "lutar pela América" e a "retornar" - nesse último caso, a um passado idealizado e branco, segundo analistas.

"A estética é precisamente voltada para a juventude, tomando inspiração de conteúdos de extrema direita que, antes, eram marginalizados, mas agora estão no centro do discurso", diz William Callison, cientista político e professor da Universidade da Cidade de Nova York.

"Ao mesmo tempo, há a trajetória de uma política de extrema direita muito mais antiga, que valoriza um passado perdido, no mesmo sentido do fascismo, que falava em revitalização nacional", prossegue. "Sente-se falta de algo que foi perdido, e muitas dessas postagens se inspiram diretamente em conteúdos supremacistas brancos da segunda metade do século 20."

Uma das publicações, por exemplo, diz: "Para onde, homem americano? A América precisa de você: junte-se ao ICE agora", acompanhada de uma imagem do Tio Sam, personificação dos EUA, decidindo que caminho tomar. A frase é uma referência direta ao livro "Para onde, homem ocidental?", do supremacista branco e neonazista americano William Gayley Simpson.

O livro, publicado em 1978, elogia Adolf Hitler e diz que há uma conspiração judaica para destruir o homem branco e o cristianismo.