Em último discurso na Assembleia da ONU, Guterres cobra reforma global e alerta para guerras e IA

Secretário-geral defende Estado palestino e vaga permanente para a África no Conselho de Segurança em despedida da abertura do debate geral

Por Bianca Lobianco

António Guterres faz seu último discurso de abertura do debate geral da ONU

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, abriu nesta terça-feira (22) o debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, com um alerta sobre o avanço das guerras, as divisões geopolíticas e a necessidade de reformar as instituições internacionais. Em seu último discurso de abertura antes de deixar o cargo, ele também defendeu a solução de dois Estados para Israel e Palestina e uma representação permanente da África no Conselho de Segurança.

Guterres está à frente da ONU desde janeiro de 2017. Reeleito em 2021, iniciou o segundo mandato em janeiro de 2022 e deixa a Secretaria-Geral em 31 de dezembro deste ano.

O pronunciamento teve como um dos principais eixos a defesa do multilateralismo diante de um cenário internacional marcado por conflitos simultâneos. Guterres argumentou que os países estão cada vez mais interdependentes e que problemas globais não podem ser enfrentados de maneira isolada.

As guerras no Oriente Médio, na Ucrânia e no Sudão estiveram entre os conflitos abordados pelo secretário-geral. A abertura da Assembleia ocorre ainda em meio a crises na República Democrática do Congo e em Mianmar e às tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.

No Oriente Médio, Guterres voltou a defender a criação de um Estado palestino coexistindo com Israel. A manifestação em favor da solução de dois Estados foi aplaudida no plenário da Assembleia Geral. A delegação dos Estados Unidos não acompanhou os aplausos.

A posição reforça uma das principais bandeiras defendidas pelo secretário-geral nos últimos meses. Antes da Assembleia, Guterres havia afirmado que não haverá paz duradoura no Oriente Médio sem a concretização da solução de dois Estados e também cobrado a implementação do plano de paz para Gaza, a entrada de ajuda humanitária e o fim da expansão da ocupação na Cisjordânia.

Outro ponto central foi a reforma do Conselho de Segurança. Guterres afirmou que a estrutura criada após a Segunda Guerra Mundial já não representa adequadamente o mundo atual e voltou a defender que a África tenha representação permanente no órgão.

Atualmente, apenas Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido possuem assentos permanentes e poder de veto no Conselho de Segurança. Nenhum país africano integra o grupo, apesar do peso populacional e político do continente dentro das Nações Unidas.

Para Guterres, manter o Conselho de Segurança no século XXI sem representação permanente africana é uma situação "indefensável". A reforma do órgão é discutida há décadas, mas depende de um acordo entre os Estados-membros e enfrenta resistência diante da possibilidade de mudança na atual distribuição de poder.

O secretário-geral também colocou a inteligência artificial entre os principais desafios globais. Ele vem alertando que o desenvolvimento descontrolado da tecnologia, ao lado da crise climática e do aprofundamento das desigualdades, representa uma ameaça que exige coordenação internacional.

Guterres defende regras capazes de garantir que sistemas cada vez mais poderosos sejam desenvolvidos e utilizados de maneira segura, transparente e responsável. Para o secretário-geral, uma disputa tecnológica sem salvaguardas internacionais pode ampliar riscos em vez de distribuir os benefícios da inteligência artificial.

A crise climática também ganhou espaço no pronunciamento. A Assembleia ocorre às vésperas de um encontro de alto nível sobre ação climática e transição justa, previsto para quarta-feira (23), quando líderes de grandes economias, países vulneráveis e produtores de energia discutirão formas de acelerar a resposta internacional às mudanças do clima.

Ao tratar das desigualdades, Guterres relacionou as diferenças econômicas entre países à necessidade de reformar a governança internacional. A defesa é de que instituições criadas no século passado sejam adaptadas à atual distribuição econômica, demográfica e política do planeta.

A mensagem marca a despedida de Guterres da abertura do principal encontro anual de líderes mundiais. O português assumiu o comando das Nações Unidas em 2017, sucedendo Ban Ki-moon, e atravessou durante seus dois mandatos crises como a pandemia de Covid-19, as guerras na Ucrânia e em Gaza e o agravamento das tensões entre grandes potências.

A sucessão já está em andamento. Cabe ao Conselho de Segurança recomendar um candidato, que posteriormente precisa ser nomeado pela Assembleia Geral. O próximo secretário-geral assume em janeiro de 2027.

A 81ª Assembleia Geral reúne os 193 Estados-membros da ONU. Cerca de 130 chefes de Estado e de governo são esperados durante a semana de alto nível. O debate geral segue até 28 de setembro, com interrupção no domingo.

Após a abertura institucional, começa a sequência de pronunciamentos nacionais. Pela tradição estabelecida na Assembleia, o Brasil é o primeiro país a discursar no debate geral, seguido pelos Estados Unidos, país anfitrião da sede das Nações Unidas.