Lula e Trump se reúnem e mostram otimismo com possível acordo sobre tarifas
'Não há razão para desavença entre Brasil e Estados Unidos', diz o presidente brasileiro, na Malásia; vamos trabalhar em acordos', assegura o norte-americano
Os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, se encontraram pessoalmente neste domingo (26). Foi em Kuala Lumpur, na Malásia, às margens da cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).
A conversa durou 50 minutos, e ambos os líderes disseram estar otimistas em relação a um possível acordo sobre o fim da tarifa de 50% imposta por Washington a produtos brasileiros.
Os jornalistas puderam acompanhar parte do encontro, durante dez minutos, quando Lula disse que a imprensa iria ter "boas notícias". "Antes de começar a reunião, são só suposições. O Brasil tem todo interesse de ter uma relação extraordinária com os Estados Unidos. Não há nenhuma razão para que haja qualquer desavença entre Brasil e Estados Unidos", afirmou.
Lula disse que a pauta discutida seria "longa". "Na hora que dois presidentes sentam em uma mesa e colocam seu ponto de vista, a tendência natural é se chegar a um acordo. Estava muito otimista na manutenção mais civilizada possível entre Brasil e Estados Unidos. Tenho uma longa pauta para discutir com os Estados Unidos", ressaltou.
Trump deixou em aberto a possibilidade de "trabalhar em acordos". "Em relação às tarifas impostas ao Brasil, acho que tudo é justo. Tenho muito respeito pelo seu presidente, tenho muito respeito pelo Brasil. Vamos trabalhar em acordos", disse o republicano, acrescentando ser uma "grande honra" estar com Lula.
"Acho que eles estão indo muito bem até onde sei. Podemos fazer bons acordos para ambos os países. Acho que nós faremos acordos. Conversamos e acho que teremos um bom relacionamento", afirmou.
Lula também falou sobre o encontro em uma postagem na rede social X. "Tive uma ótima reunião com o presidente Trump na tarde deste domingo, na Malásia. Discutimos de forma franca e construtiva a agenda comercial e econômica bilateral. Acertamos que nossas equipes vão se reunir imediatamente para avançar na busca de soluções para as tarifas e as sanções contra as autoridades brasileiras", disse.
Reaproximação
Antes dessa reunião, Lula e Trump só tinham se encontrado brevemente na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), por menos de um minuto, em 23 de setembro. Na ocasião, o americano disse logo em seguida, durante seu discurso, que "houve uma química excelente" entre eles.
Em 6 de outubro, Trump telefonou para Lula, e a conversa durou 30 minutos. Na ocasião, Lula solicitou a retirada da sobretaxa de 40% que elevou a 50% a tarifa sobre produtos brasileiros e das medidas restritivas aplicadas contra autoridades brasileiras. Na sequência, Trump postou que "gostou da conversa", afirmando que teve um "bom telefonema" com Lula e que os "países vão se sair bem juntos".
Em 16 de outubro, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, telefonou para o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Horas depois, os dois governos divulgaram uma nota conjunta afirmando que a reunião foi positiva.
Tarifaço
A crise entre os dos dois países começou em abril, quando Trump anunciou uma taxação de 10% sobre as importações de produtos do Brasil e de vários outros países.
Com o avanço do julgamento da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF), que viria a condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), passou a articular junto a autoridades dos Estados Unidos sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras.
Nesse contexto, em julho, Trump anunciou a elevação da tarifa imposta ao Brasil para 50%. Além do julgamento no STF, o republicano alegou como justificativa ações do governo brasileiro que estariam prejudicando "empresas americanas e os direitos de liberdade de expressão de cidadãos americanos".
No mesmo mês, o ministro do STF Alexandre de Moraes foi sancionado com a Lei Magnitsky, que prevê uma série de restrições financeiras. Antes, Moraes, outros sete ministros e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, já tinham tido seus vistos americanos cancelados.
Posteriormente, a lei Magnitsky foi aplicada à esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, e ao instituto Lex, ligado à família.
Em diferentes oportunidades, Lula defendeu o julgamento do STF, afirmou que o Judiciário brasileiro é independente e que a soberania brasileira é inegociável.
Lula chegou a autorizar a aplicação lei de reciprocidade, o que foi comunicado aos Estados Unidos, mas a medida acabou não entrando em vigor.