O Brasil das empresas zumbis
O conceito de empresas zumbis, consagrado a partir da crise japonesa dos anos 1990, descreve companhias que não conseguem gerar caixa suficiente sequer para pagar os juros de suas dívidas. Não amortizam o principal, não investem, não crescem. Sobrevivem. Permanecem operando, mas desconectadas da dinâmica de expansão da economia. Esse conceito ajuda, cada vez mais, a explicar o Brasil.
Em 2024, o país registrou 2.273 pedidos de recuperação judicial, o maior número da série histórica, com alta superior a 60% em relação a 2023. Ao mesmo tempo, os pedidos de falência ficaram próximos de 950 casos. A leitura é a de que o país deixou de produzir quebras abruptas e passou a produzir sobrevivência sob pressão permanente.
A recuperação judicial, que deveria ser instrumento de reorganização, torna-se, em muitos casos, mecanismo de adiamento. Empresas deixam de morrer, mas também deixam de crescer, e é assim que economias perdem vitalidade. A origem desse processo está no custo do dinheiro.
Com juros elevados, o custo efetivo de crédito para empresas médias frequentemente supera 20% ao ano. Para pequenas, o acesso é mais restrito e mais caro. Para o consumidor, linhas ultrapassam 200% ao ano. Não é apenas o nível dos juros; é a forma como o sistema aloca capital.
Nesse ambiente, o capital prefere financiar o Estado. Déficits fiscais recorrentes exigem emissão contínua de dívida, que absorve parcela relevante da poupança disponível. O resultado é conhecido: crédito caro, escasso e direcionado. O crowding out deixou de ser circunstancial e tornou-se estrutural.
Empresas passam a operar com margens comprimidas e capacidade reduzida de investimento. Muitas entram em recuperação judicial. Outras tornam-se zumbis, incapazes de gerar valor, mas ainda presentes no sistema. Andam, se movem, faturam, mas não produzem capital. E aqui está o ponto central.
Empresas zumbis não reproduzem. Não reproduzem capital. Não acumulam. Não ampliam capacidade. Apenas mantêm a operação em um nível mínimo de sobrevivência. Uma economia baseada nesse padrão deixa de ser, no sentido pleno, uma economia capitalista. O capital produtivo não se acumula nas empresas, mas se desloca para o financiamento do Estado e para o sistema financeiro.
O efeito mais profundo recai sobre as micro, pequenas e médias empresas, que historicamente são a principal fonte de dinamismo do capitalismo. São elas que inovam, crescem e geram empregos. No Brasil, enfrentam crédito caro, exigência excessiva de garantias e competição desigual com um sistema que prefere financiar a dívida pública. Sem acesso a capital, deixam de nascer, de crescer ou de escalar.
É nesse ponto que o debate fiscal deveria ser decisivo, mas não é. O assunto "déficit fiscal" está descontextualizado no Brasil. É um tema presente sem consequências, simplesmente porque o Brasil é o mestre global da descontextualização.
O país construiu, ao longo do tempo, marcos importantes de disciplina. A Lei de Responsabilidade Fiscal, na gestão de Fernando Henrique Cardoso, estabeleceu limites e transparência. O teto de gastos, durante o governo Temer, ampliou esse balizamento, assim como a lei das estatais. Estados e municípios, em grande medida, internalizaram essa lógica.
Esse arcabouço foi sendo erodido. Em seu lugar, consolidou-se um modelo que depende mais de aumento de receita do que de controle efetivo do gasto. A elevação contínua da carga tributária, combinada com juros elevados, comprime ainda mais o setor produtivo.
O paradoxo é evidente. O Brasil opera com um orçamento superior a R$ 6 trilhões, mas investe menos de R$ 90 bilhões. Ao mesmo tempo, mantém déficits recorrentes e transfere ao setor produtivo o custo do ajuste. Nesse ambiente, a formação de capital torna-se absoluta exceção. E, sem formação de capital, não há capitalismo funcional.
Há uma ironia adicional. Instrumentos como o Simples e o MEI, aliados à informalidade, criam algum espaço de sobrevivência econômica. Permitem que parte da economia continue girando fora do peso excessivo da tributação. Mas são só respiros.
Forma-se, assim, um ciclo conhecido: crédito caro, empresas comprimidas, aumento de recuperações judiciais, proliferação de empresas zumbis, bloqueio das pequenas e médias, queda do investimento e limitação da oferta. O país não quebra, mas também não cresce.
Há uma metáfora conhecida: a da rã colocada em uma panela com água aquecida lentamente. Em vez de saltar, ela se adapta — até não conseguir mais reagir. O risco brasileiro é semelhante.
A economia se ajusta. Mas, ao se ajustar, perde vitalidade. E, quando empresas deixam de produzir capital, o país deixa de produzir futuro. Zumbis não reproduzem. Economias zumbis também não.
*Vinícius Lummertz é Senior Fellow
do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo
e Viagens de São Paulo