Rio registra quase 30 mil violações contra mulheres no ano
Número, porém, não reflete os registros oficiais que chegam a um pouco mais de 3 mil
Enquanto os casos de violência contra a mulher seguem em alta no Brasil, dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelam um cenário preocupante no estado do Rio de Janeiro. Em 2026, já foram registradas 29.699 violações de direitos contra mulheres. No entanto, apenas 3.631 protocolos de denúncia foram formalizados, evidenciando a distância entre os casos registrados e aqueles que efetivamente chegam às autoridades.
A diferença entre o número de violações e de denúncias reflete um problema que vai além das estatísticas. Situações de violência física, doméstica, psicológica, moral e patrimonial continuam fazendo parte da rotina de milhares de mulheres, muitas vezes marcadas pelo medo, pela dependência e pelo silêncio.
Para a advogada e professora do curso de Direito do Centro Universitário Anhanguera de Niterói, Andrea Souza, diversos fatores contribuem para a subnotificação dos casos. Segundo ela, o receio de denunciar está relacionado à dependência emocional e financeira, ao medo de represálias, à vergonha e, em muitos casos, ao desconhecimento dos próprios direitos.
"O medo de denunciar está ligado a diversos fatores, como dependência emocional, financeira, medo de represálias, vergonha e até desconhecimento sobre os próprios direitos. Muitas acreditam que não terão acolhimento ou que a denúncia não vai mudar sua realidade", afirma.
A especialista destaca que a Lei Maria da Penha representa um dos principais avanços no combate à violência de gênero no país. Ao longo de quase duas décadas de vigência, a legislação consolidou mecanismos de proteção, como medidas protetivas de urgência, responsabilização do agressor, atendimento prioritário às vítimas e garantias como o direito à matrícula escolar para mulheres e seus filhos.
Apesar dos avanços, Andrea ressalta que a efetividade da legislação depende da aplicação das medidas previstas e da confiança das vítimas nas instituições responsáveis pelo atendimento.
"Foram grandes conquistas, mas é preciso reconhecer que a eficácia da lei depende de sua aplicação, fiscalização e principalmente da confiança das mulheres em usá-la", ressalta.
Segundo a docente, o enfrentamento da violência contra a mulher exige ações que ultrapassem o campo jurídico. Investimentos em educação, fortalecimento da autonomia financeira feminina e ampliação das políticas públicas de prevenção e acolhimento são apontados como medidas fundamentais para reduzir os índices de violência.
"Precisamos de ações contínuas, não só em datas simbólicas. A mulher precisa saber que não está sozinha, que tem onde buscar ajuda e que será ouvida com respeito", afirma.
Ela também defende que o debate sobre igualdade de gênero seja ampliado desde a infância, envolvendo escolas, famílias e empresas. Para Andrea, a independência financeira pode ser determinante para que mulheres consigam romper ciclos de violência e deixar relacionamentos abusivos.
Por fim, a professora reforça a importância dos canais oficiais de atendimento, como a Central de Atendimento à Mulher, pelo telefone 180, e a Polícia Militar, pelo 190, considerados portas de entrada para a rede de proteção às vítimas.
"O silêncio não protege, ele perpetua. A mulher precisa ser acolhida, não julgada. A denúncia pode ser o primeiro passo para salvar uma vida", conclui.