Por: Alex Sabino (Folhapress)
Moisés Spilere, 35, percebeu para onde a conversa ia, mas a deixou seguir. Não era a primeira vez que ouvia algo parecido. Irritou-se ao escutar o interlocutor dizer desejar "preservar" a imagem do clube. Preservar do quê?, foi o que pensou na hora.
"Se você acha que o clube deve ser preservado é por acreditar que eu ser presidente é um problema", respondeu.
"Percebi uma fala homofóbica empacotada como preocupação e fiquei indignado".
Sua presença como mandatário do Caravaggio, pequeno time da segunda divisão de Santa Catarina, não deveria chamar tanto a atenção. Ele era torcedor desde os tempos em que a equipe ganhava tudo na várzea do sul do estado. Economista e diretor de empresa familiar de metalurgia, tem perfil de gestão que cairia bem no futebol.
A "preocupação com a imagem" é por Moisés Spilere ser o primeiro presidente declaradamente gay de um clube de futebol profissional no Brasil.
Como vice-presidente entre 2021 e 2022, ele fez parte do processo da profissionalização do Caravaggio, um dos times amadores mais vencedoras do sul de Santa Catarina.
Sua orientação sexual nunca foi um problema, afirma. Nem para sua família nem para os amigos. Não era assunto sequer na pequena Nova Veneza, cidade de 13 mil habitantes onde está o clube. Mas quando ele chegou à Presidência, alguns apoiadores da agremiação, possíveis patrocinadores, demonstraram preocupação. De novo, a questão da imagem.
" Depois que eu me tornei mais conhecido, que alguns canais famosos da internet falaram sobre mim, as coisas se tornaram um pouco mais problemáticas", completa o presidente, apaixonado por futebol desde a infância.