Na Seleção Brasileira, o futuro já começou

Entre 'aura', mística e números impressionantes, Endrick e Rayan despontam como o futuro da Seleção

Por PEDRO SOBREIRO

Convocados para a Copa do Mundo 2026, Endrick e Rayan são destaques desde as categorias de base

A última vez que um jogador sub-20 foi convocado para defender a Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo foi há 32 anos, quando um então Ronaldo Nazário foi chamado para a Copa nos EUA. Na época, o menino que viraria Fenômeno já era tratado como uma das principais joias do futebol brasileiro e foi convocado por Carlos Alberto Parreira aos 17 anos de idade.

O garoto acabou não entrando em nenhum jogo da campanha brasileira de 1994, mas foi convocado para "sentir o ambiente" da Seleção. De quebra, foi campeão do mundo nos Estados Unidos, após Roberto Baggio isolar o pênalti decisivo no Rose Bowl, em Pasadena, Califórnia. Os anos se passaram e a estratégia se mostrou acertada. Com Ronaldo no time, a Seleção Brasileira emplacou três finais consecutivas de Copa do Mundo, vencendo duas delas.

Foram mais de três décadas para que um jogador com menos de 20 anos fosse convocado para defender o Brasil num Mundial. A escrita foi quebrada na segunda (18), quando o italiano Carlo Ancelotti anunciou a convocação de não apenas um, mas dois jogadores sub-20 para vestirem a pesada camisa verde e amarela na Copa do Mundo 2026: Endrick e Rayan.

Os dois atacante são os dois maiores talentos dessa geração. Com apenas 19 anos, cada, a dupla fez chover nas categorias de base, mas foi no profissional que o Brasil abriu os olhos para as joias.

Fenômeno Alviverde

Endrick estreou no profissional do Palmeiras em 6 de outubro de 2022, na goleada do Verdão sobre o Coritiba por 4 a 0. Ao entrar em campo, Endrick, então com 16 anos, se tornou o jogador mais jovem a vestir a camisa alviverde profissionalmente.

Não demorou muito para vir o primeiro gol. 19 dias após sua estreia, o garoto foi à Arena da Baixada para enfrentar o Athletico. O Palmeiras venceu por 3 a 1, com dois gols de Endrick. A marca levou o menino para um ranking histórico: se tornou o terceiro jogador mais jovem do esporte a marcar um gol profissional. Com 16 anos, 3 meses e 4 dias, Endrick ficou atrás apenas de Maradona, que fez seu primeiro gol com 6 anos e 15 dias, e Pelé, que marcou pela primeira vez aos 15 anos, 10 meses e 14 dias.

Mas o grande ano de Endrick ainda estaria por vir. Em 2023, com 17 anos, o garoto marcou 14 gols na temporada - 11 no Brasileirão. Mais do que gols, o camisa 9 demonstrou personalidade. O grande episódio foi o jogo contra o Botafogo, então líder do Brasileiro, no Nilton Santos. O Palmeiras seguia na briga pelo torneio, mas se perdesse, era fim de papo. O Glorioso chegou a abrir 3 a 0. No segundo tempo, Endrick chamou a responsabilidade, fez dois gols e liderou uma virada histórica por 4 a 3, que deu início a uma arrancada que terminou com a conquista do Brasileirão 2023. O jogador que era conhecido por sua "aura" de craque provou nos campos seu talento e valor.

Imperador Vascaíno

Já Rayan é um caso de talento e misticismo que raramente se vê no futebol. Não é exagero dizer que o atacante foi nascido e forjado no Vasco da Gama. Seu pai Valkmar, ex-zagueiro do clube entre os anos 1990 e 2000, conheceu a mãe, Vanessa, em São Januário. Ela era funcionária do departamento de desportos paralímpicos do clube. Daquela história de amor cruzmaltina surgiria o pequeno Rayan. Morador da Barreira do Vasco, o menino foi descoberto jogando bola aos 6 anos na comunidade. Em 2025, um vídeo de Roberto Dinamite, maior ídolo do Vasco, aconselhando o garoto na base surgiu nas redes sociais, aumentando o misticismo acerca do garoto.

Campeão de tudo na base, ele se tornou o jogador mais jovem da história a jogar com a camisa do Vasco no século XXI. Ele estreou em 19 de janeiro de 2023, contra o Audax Rio pelo Campeonato Carioca. Ele também se tornou o jogador mais jovem a fazer um gol pelo Vasco no século. Ele marcou contra o Internacional, pelo Brasileirão, na derrota por 2 a 1, no Beira-Rio, com 16 anos, 10 meses e 8 dias.

Porém, seus primeiros anos como profissional foram mais conturbados. Diante de técnicos questionáveis e pelas mudanças constantes no comando Cruzmaltino, Rayan voltou para a base ainda em 2023, a pedido do então técnico Ramón Díaz, que queria jogadores mais experientes.

Em 2024, o garoto voltou a ganhar chances com o técnico Rafael Paiva, que também veio da base do Vasco. Mas o grande ano de Rayan foi mesmo 2025. Com a chegada do técnico Fernando Diniz, o garoto, que quase foi negociado com o Botafogo, virou pilar de um Vasco que tinha nomes como Vegetti e Philippe Coutinho. Diniz trabalhou intensamente o psicológico do garoto e o incentivou a jogar para frente, sem desistir, potencializando sua jogada clássica de "arrastar o time inteiro" e bater para o gol.

Foram 20 gols na temporada 2025, 14 no Brasileirão e 5 na Copa do Brasil, competição da qual foi artilheiro e levou o Vasco à final após 14 anos. Seus jogos mais marcantes foram nas semifinais do torneio, contra o Fluminense, em que decidiu o primeiro jogo e provocou o rival, mostrando uma personalidade absurda.

Europa

Os caminhos de Endrick e Rayan foram distintos na Europa. Enquanto o primeiro foi para o Real Madrid como a terceira maior venda da história do futebol brasileiro (cerca de R$ 310 milhões), onde acabou perdendo espaço para o craque francês Kyllian Mbappé, amargando a reserva por meses, Rayan foi para o modesto Bournemouth por cerca de R$ 210 milhões. Por lá, o garoto rapidamente tomou conta do time, marcando cinco gols e dando duas assistências, e emplacou a maior invencibilidade do ano na Premier League (17 jogos sem perder). Rayan, inclusive, não perdeu no ano, seja por Vasco, Bournemouth ou Seleção Brasileira.

Em dezembro de 2025, para ganhar minutos em campo visando a Copa do Mundo 2026, Endrick pediu para ser emprestado ao Lyon. Na França, o garoto conseguiu mostrar seu futebol, marcando 8 gols e distribuindo 8 assistências. Seu desempenho foi tão bom que o Real Madrid já confirmou seu retorno após a Copa do Mundo.

Personalidade

Pela Seleção Brasileira, o que chamou atenção foi a personalidade dos garotos. Endrick decidiu jogos contra Inglaterra e Espanha, sendo um dos principais jogadores desse conturbado ciclo para a Copa de 2026. Já Rayan conseguiu sua primeira convocação na última Data FIFA antes do Mundial. Ele jogou apenas uma partida, vitória por 3 a 1 sobre a Croácia, e nos poucos minutos que estave em campo, repetiu sua tradicional jogada de arrastar o adversário. Só faltou o gol.

Mas o que marca essa duas joias do futebol nacional é a personalidade. Endrick e Rayan jamais sentiram o peso da camisa mais tradicional do futebol mundial. Eles jogam pela Seleção como se estivesse no terrão, com alegria e uma confiança de quem sabe que nasceu para ser protagonista.

Se o Brasil vai ganhar a Copa em 2026 ou não, só o tempo dirá. Mas a atitude de Carlo Ancelotti de convocar as duas maiores promessas do país para entenderem, no alto de seus 19 anos, o que é uma Copa do Mundo mostra que, para a Seleção Brasileira, o futuro já começou.