Clássico das Malvinas agita a semifinal da Copa do Mundo
Sessenta anos de rivalidade vão definir o último finalista do Mundial de 2026
Nesta quarta-feira (15), Inglaterra e Argentina entram em campo na Mercedes-Benz Arena, em Atlanta, nos Estados Unidos para definir quem a Espanha irá enfrentar na finalíssima da Copa do Mundo de 2026 no próximo domingo (19), no MetLife Stadium, em Nova Jersey.
A partida nem começou e já vem carregada de rivalidade por fatores esportivos e políticos vindos da década de 1980, quando a 'Guerra das Malvinas' foi "vingada" nos campos do lendário Estádio Azteca, na Copa do Mundo de 1986, quando Argentina e Inglaterra se enfrentaram pelas quartas de final, dando vitória da Albiceleste com a famosa "Mano de Dios" e o golaço de Diego Armando Maradona driblando meio time britânico. Aquela vitória foi a mais marcante do bicampeonato mundial da Argentina e um dos capítulos mais controversos da história do esporte para os britânicos.
O gol de mão claramente deveria ter sido anulado. No entanto, o árbitro tunisiano Ali Bin Nasser disse não ter visto a infração que levou a Argentina a vencer o confronto por 2 a 1 e avançar rumo ao título.
"Não consegui ver o lance com clareza. Os dois jogadores, Shilton e Maradona, estavam me encarando por trás. De acordo com as instruções da FIFA confirmadas antes do torneio, procurei meu bandeirinha para confirmar a validade do gol. Ele correu para o meio de campo indicando que concordava com a marcação do gol", contou Nasser em 2022.
Um dado curioso é que Bin Nasser guardou a bola do jogo em sua casa por 36 anos, até colocá-la em um leilão em 2022. Ela estava avaliada em 3 milhões de libras, algo em torno de R$ 18 milhões na cotação da época. Apesar da estimativa, a relíquia foi vendida abaixo do valor, por "módicos" 2 milhões de libras, algo em torno de R$ 13 milhões.
Sina dos pênaltis
Doze anos depois da polêmica no Azteca, as equipes se encontraram de novo no Mundial, agora nas oitavas de final da Copa de 1998, em Saint-Étienne, na França.
A Inglaterra vinha com nomes como David Beckham e Michael Owen. No entanto, a controversa expulsão de Beckham no início do segundo tempo quebrou o ritmo britânico.
A partida terminou empatada por 2 a 2 e acabou sendo decidida nos pênaltis. E aí entrou a sina inglesa nos penais. Foi um dos primeiros capítulos da "Maldição Histórica".
A tal sina viria de uma série de insucessos nos penais, que eliminaram os britânicos nas semifinais da Copa do Mundo de 1990 para Alemanha e na Eurocopa de 1996, novamente nas semifinais e contra a Alemanha, mas dessa vez foi ainda mais dolorosa, porque aconteceu no Estádio de Wembley, casa da seleção inglesa.
Em 1998, contra a Argentina, o resultado não foi diferente. Inglaterra eliminada nos pênaltis.
A Maldição prosseguiu por décadas, com eliminações nos pênaltis nas Eurocopas de 2004, 2012 e 2020, além da eliminação na Copa do Mundo de 2006 nas quartas de final.
A sina foi quebrada apenas no Mundial de 2018, quando os Three Lions empataram com a Colômbia nas oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia e eliminaram os sul-americanos nos penais pelo placar de 4 a 3.
Depois viria o vice-campeonato para a Itália na final da Eurocopa 2020, mas os britânicos voltariam a encarar a marca da cal na Euro de 2024.
Na ocasião, eles pegaram a Suíça nas quartas de final e venceram nos pênaltis por 5 a 3. Para quem passou décadas sem saber o que era se classificar nos penais, parece que eles enfim fizeram as pazes com a tal maldição.
Uniformes em pauta
Em comum, os embates de 1986 e 1998 tiveram as cores primárias dos uniformes. A Inglaterra jogou de camisa branca e calções azuis, enquanto a Argentina usou a camisa azul com calções pretos. Em 1998, a Inglaterra foi com camisa e calções brancos, enquanto a Argentina foi a campo com camisa e calções azuis.
No jogo desta quarta, a mando da FIFA, a Inglaterra jogará toda de branco, enquanto a Argentina jogará toda de azul escuro.
"Roubo do Século"
Uma curiosidade é que a Inglaterra venceu a Argentina em Copas do Mundo apenas uma vez. Foi na Copa de 1966, disputada na própria Inglaterra, e que terminou com os donos da casa campeões.
E quem pensa que o jogo foi tranquilo, se engana. A partida das quartas de final ficou conhecida na Argentina como "El Robo del Siglo", algo como "O Roubo do Século". Tudo começou com a expulsão de Antonio Rattín, capitão argentino. A expulsão foi considerada injusta e ele se recusou a deixar o campo, precisando ser retirado pela polícia.
O jogo ainda seria vencido por 1 a 0, com gol de Geoff Hurst, em jogada que muitos argentinos contestam até hoje, alegando que o lance estava impedido.
Na saída, Rattín amassou a bandeirinha de escanteio, que continha a bandeira britânica estampada. O gesto foi considerado um ato imperdoável de desrespeito pela mídia britânica.
Essa expulsão foi tão controversa que motivou a adoção dos cartões amarelos e vermelhos na Copa do Mundo seguinte, em 1970.
Vinganças
Agora, 40 anos depois, Inglaterra e Argentina voltam a se encontrar em um mata-mata de Copa do Mundo. Esta semifinal está sendo vendida por muitos como uma possível "vingança" de confrontos anteriores.
Pelo lado argentino, a música 'La Cuarta Estrella' ('A Quarta Estrela', em português), que vem sendo entoada pelos torcedores do país, fala que a Argentina deve conquistar o Tetra para vingar a 'Last Dance' interrompida de Maradona no Mundial de 1994, também nos EUA, em que o camisa 10 foi suspenso após ter sido enquadrado em um polêmico anti-doping contra a Nigéria.
Pelo lado britânico, a vingança é mais direta e pessoal. Seis décadas depois do primeiro título, eles querem se vingar da 'Mano de Dios' para seguirem sonhando com o Bimundial.
Esse sentimento de "vingança" foi questionado ao técnico argentino, Lionel Scaloni, que pôs panos quentes na situação e pediu que não criem um clima político acerca do clássico.
"É uma partida de futebol. Ponto final. Não há nada além disso", disse o treinador argentino em coletiva.
Fato é que a partida nasce com fortes tendências a entrar para a história das Copas como um jogo lendário. De um lado, Lionel Messi em sua última Copa do Mundo. Do outro, Harry Kane e Jude Bellingham em seu auge físico e técnico, carregando 60 anos de sonhos britânicos nas costas. Um clássico daqueles!