Outubro Rosa: Mamografia dos 30 aos 70 anos, veja o que muda no exame em cada idade
Radiologistas e ginecologista explicam por que a idade influencia a imagem, a frequência e os exames complementares, e o que dizem as recomendações do SUS e das sociedades médicas
Desde o dia 1º de outubro, os planos de saúde passaram a cobrir a mamografia digital para mulheres de qualquer idade, desde que haja pedido do médico. Até agora, a cobertura obrigatória desse exame valia apenas para quem tinha entre 40 e 69 anos. A mudança, aprovada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), vale para rastreamento, diagnóstico e acompanhamento do tratamento do câncer de mama1. Mas, a partir de quando é indicado fazer a mamografia e com que frequência?
A resposta muda conforme a idade e o histórico de cada mulher. "O exame é essencialmente o mesmo em qualquer idade, mas a mama muda ao longo da vida. Isso interfere na aparência das imagens e, principalmente, na estratégia de acompanhamento de cada paciente", explica Paula Moraes, radiologista especialista em imagem mamária do Delboni e do Lavoisier, da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil.
Um dos principais fatores que mudam com a idade é a composição da mama. Mulheres mais jovens tendem a apresentar maior quantidade de tecido fibroglandular, que aparece mais branco na mamografia. E muitas alterações suspeitas, como nódulos e calcificações, também podem ser brancos, a sobreposição de tecidos pode dificultar a identificação de algumas lesões.
Com o envelhecimento, especialmente após a menopausa, é comum ocorrer substituição do tecido mamário por tecido adiposo, que aparece mais escuro na mamografia. O maior contraste pode facilitar a visualização de algumas alterações.
Um estudo norte-americano publicado no Journal of the National Cancer Institute mostrou que 56,6% das mulheres de 40 a 44 anos têm mamas densas. Entre as de 70 a 74 anos, a proporção cai para 18,4%: "A densidade mamária também está associada a maior risco de desenvolvimento do câncer de mama. Quanto maior a proporção de tecido mamário, maior o risco relativo de câncer, além de maior a possibilidade de que algumas lesões fiquem ocultas na mamografia devido à sobreposição de tecidos. Por isso, o laudo mamográfico informa a densidade mamária. Essa informação faz parte da avaliação da paciente e pode ajudar o médico a decidir se há necessidade de algum exame suplementar, levando em conta também os fatores de risco e os achados da mamografia", explica Paula.
O câncer de mama é o tipo mais comum entre as brasileiras, sem contar os tumores de pele não melanoma. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos por ano entre 2026 e 2028, o equivalente a cerca de 72 casos a cada 100 mil mulheres.
Para mulheres sem fatores de risco, a mamografia de rotina não é indicada nessa fase. A orientação das sociedades médicas brasileiras é que toda mulher faça, a partir dos 30 anos, uma avaliação do seu risco de câncer de mama com o médico. Para mulheres com alto risco, o rastreamento costuma começar mais cedo. "Quando uma mulher jovem sente um nódulo, o primeiro exame costuma ser o ultrassom, porque a mama ainda é muito densa. A maioria desses nódulos é benigna, mas todos precisam ser investigados", orienta a radiologista Rosana Horácio, do laboratório Bronstein, no Rio de Janeiro.
Mulheres dos 40 aos 49 anos
É a faixa etária que mais gera dúvidas, porque as recomendações não são iguais. Desde setembro de 2025, o Ministério da Saúde garante no SUS a mamografia para mulheres de 40 a 49 anos mesmo sem sintomas, a partir de uma conversa com o profissional de saúde sobre riscos e benefícios.
Os números ajudam a entender a mudança. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 23% dos casos de câncer de mama no país acontecem entre os 40 e os 49 anos. Nos Estados Unidos, a força-tarefa que define as diretrizes de prevenção do governo (USPSTF) antecipou em 2024 o início do rastreamento de 50 para 40 anos, após observar que os casos nessa faixa vinham crescendo cerca de 2% ao ano entre 2015 e 2019.
"As diretrizes divergem na frequência, mas todas reconhecem o valor do exame nessa idade. Aos 40, o ideal é conversar com o médico, avaliar o próprio risco e começar o acompanhamento", afirma Rosana. Como a mama ainda tende a ser densa nessa fase, o médico pode pedir ultrassom complementar. A tomossíntese, uma mamografia que gera imagens em camadas, também é recomendada pelas sociedades quando está disponível.
Dos 50 aos 74 anos
Nessa faixa etária se concentram quase 60% dos casos de câncer de mama. É também o período em que há mais consenso. Em 2025, o SUS ampliou o rastreamento prioritário, que ia até os 69 anos, para até os 74, com mamografia a cada dois anos. As sociedades médicas mantêm a recomendação anual. "Depois da menopausa, é comum ocorrer redução do tecido fibroglandular e aumento relativo do tecido adiposo. Como a gordura aparece mais escura na mamografia, o contraste com estruturas mais densas pode facilitar a identificação de algumas lesões", explica Paula.
A partir dos 75 anos
Para as sociedades médicas, como o Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), vale manter o rastreamento se a mulher tiver boa saúde e expectativa de vida de pelo menos sete anos. No SUS, o exame pode ser feito por demanda, com orientação profissional. A nova regra da ANS também beneficia esse grupo, já que a cobertura obrigatória da mamografia digital terminava aos 69 anos.
"A idade, sozinha, não deve ser motivo para deixar de fazer a mamografia. Uma mulher de 78 anos ativa e saudável pode se beneficiar do exame. A decisão é individual e deve ser tomada com o médico", diz a radiologista Paula.