Eugênio Bucci e os dilemas da mídia: o perigo do aparelhamento estatal
Em entrevista exclusiva, o professor e jornalista analisa os limites entre emissoras públicas e estatais, alertando sobre os riscos da propaganda governamental
No cenário da comunicação brasileira, poucas figuras transitam com tanto rigor acadêmico quanto o professor da USP e escritor Eugênio Bucci. Em entrevista ao programa Perfil Poder, Bucci abriu o jogo sobre sua trajetória, os rumos da imprensa e os espinhosos dilemas da mídia pública no país.
Um dos pontos altos da entrevista foi a distinção lúcida que o acadêmico faz entre televisão estatal e televisão pública. Para ele, o modelo governamental — exemplificado por estruturas como a EBC — frequentemente derrapa para o viés chapa-branca, distanciando-se do verdadeiro interesse do cidadão. Ele relembrou os desafios à frente da Fundação Padre Anchieta, defendendo que o jornalismo público deve prestar contas à sociedade, e não aos governos. Para uma visão alinhada à prudência institucional, a mensagem ressoa com clareza: a máquina pública jamais deve se converter em cadeia de transmissão ideológica.
Bucci também abordou a ética na contemporaneidade, ancorando-se na clássica "ética da responsabilidade" de Max Weber. Bucci lembrou que cada palavra publicada carrega consequências reais na vida das pessoas. Em tempos de polarização acelerada e de forte apelo digital, sua advertência soa como um freio de arrumação: o profissional da informação deve equipar-se de repertório e discernimento, decidindo com serenidade e afastando-se de vieses imediatistas ou dogmáticos.
Questionado sobre o avanço tecnológico e o uso de inteligência artificial nas redações, o professor adotou uma postura de sobriedade e método artesanal. Mantendo-se fiel à escrita tradicional e ao ceticismo crítico em relação a atalhos automatizados, ele reforça que a cognição humana e a autonomia intelectual não podem ser terceirizadas sem custos severos para a qualidade do debate público.
Ao final, ao deixar uma mensagem para as novas gerações que ingressam no mercado de trabalho e nas fileiras do direito e do jornalismo, Bucci recorreu à sabedoria clássica de Bertrand Russell. Alertou sobre a primazia dos fatos diante de qualquer fanatismo e sintetizou com precisão cirúrgica o antídoto contra a soberba intelectual: "Cuidado com o momento em que os sonhos se transformam em interesses".
A conversa conduzida por José Roberto Maluf reafirma que o bom jornalismo sobrevive onde há coragem para debater princípios, respeito aos fatos e, sobretudo, respeito irrestrito ao cidadão.