Canetas falsas: mercado clandestino cresce no Brasil

Anvisa alerta aos perigos da comercialização de medicamentos de emagrecimento falsificados

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Procura por canetas emagrecedoras aumenta no país. 33% dos lares já têm pelo menos um morador que usa ou já usou esses medicamentos

Kellen Bretas Antunes, de 42 anos, foi internada em Belo Horizonte com fraqueza muscular e insuficiência respiratória em dezembro de 2025. A suspeita era de intoxicação por medicamentos.

Em janeiro do ano seguinte, Kellen foi diagnosticada com a Síndrome de Guillain-Barré (SGB), condição neurológica rara e grave que compromete a musculatura e os movimentos do corpo, a fala e o funcionamento de órgãos. O que os médicos não sabiam é que, pouco antes, a auxiliar administrativa havia aplicado uma caneta emagrecedora de origem paraguaia, sem prescrição médica.

As canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis que imitam o hormônio intestinal GLP-1. Elas reduzem o apetite e controlam a glicose no sangue, normalmente indicadas para diabetes tipo 2 e obesidade.

O uso de canetas emagrecedoras já alcança 1 em cada 3 domicílios brasileiros. Dados de pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em abril, mostram que 33% dos lares têm pelo menos um morador que utiliza ou já utilizou esses medicamentos. Porém, o aumento nos usuários acende alertas para a criação de um mercado que opera às margens da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a comercialização de canetas falsificadas.

Riscos da falsificação

Segundo o endocrinologista Guilherme Augusto Cunha, esses medicamentos revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes. O problema surge quando a ampla divulgação também abre espaço para a atuação de um mercado criminoso.

"O primeiro risco que eu vejo é não saber o que tem dentro. Na caneta falsificada, o rótulo pode prometer uma coisa e o conteúdo ser completamente diferente. Pode não ter medicamento, pode ter dose errada, pode inclusive conter insulina ou outra substância que pode estar contaminada", explicou o médico.

O cardiologista Thiago Germano evidenciou outra questão: a existência de sintomas preocupantes, mas que podem ser ignorados por serem associados a reações naturais ao uso da medicação.

"Os riscos incluem náuseas, vômitos intensos, diarreia, desidratação, alterações da glicemia, queda da pressão e distúrbios hidroeletrolíticos. Em situações mais graves, podem ocorrer complicações gastrointestinais, pancreatite, alterações renais e necessidade de internação hospitalar", comunicou.

Cunha percebeu um aumento na procura por esses medicamentos. Contudo, explicou ao Correio da Manhã que, muitas vezes, os pacientes que buscam as canetas não têm indicação para iniciar o tratamento, o que pode levá-los a recorrer a formas irregulares de adquirir os medicamentos.

"Às vezes, o paciente nem passou por uma consulta médica, mas já está usando a medicação há algum tempo", destacou.

Orientações

No entanto, o endocrinologista reforçou que o uso das canetas deve ser acompanhado por um médico. Ele reitera que o atendimento é individualizado e que cada paciente deve ser orientado em relação às suas próprias limitações de treino, dieta e à dose da medicação.

Além disso, a Anvisa alerta que esses medicamentos devem ser adquiridos somente em farmácias regularizadas e por meio de canais oficiais. É importante observar irregularidades nas embalagens, como erros de ortografia, textos em idiomas estrangeiros, ausência de lacres, dados de lote ilegíveis e impressões de baixa qualidade ou apagadas. Todos estes são sinais de alerta. A Agência sugere que o comprador desconfie de preços baixos e sempre exija a nota fiscal.