No Rio Innovation Week, Malala abre o coração sobre o ativismo

Paquistanesa criticou o ativismo de fachada e pediu atenção à saúde mental das meninas

Por PEDRO SOBREIRO

Ativista e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Malala teve um auditório lotado de fãs que ansiavam pela palestra

O primeiro dia do Rio Innovation Week foi marcado pela palestra da ativista Malala Yousafzai, que atraiu uma multidão ao 'galpão do Kobra', no Píer Mauá. No primeiro dia do evento de inovações, os visitantes enfrentaram o forte sol que fez nesta terça (4) na Cidade Maravilhosa, na fila para o galpão do Kobra. Quando o auditório foi aberto, a fila já dava voltas, reunindo milhares de pessoas. Lá dentro, dezenas de pessoas viram, de pé, a paquistanesa refletir sobre sua carreira, história de vida e analisar a situação da educação pelo mundo.

Malala, que se notabilizou ao enfrentar os Talibãs, que impediram o acesso das meninas de sua terra natal à escola, virou símbolo da luta pela educação de meninas pelo mundo. Ela sobreviveu a uma tentativa de homicídio dos Talibãs, que atiraram contra sua cabeça, e venceu o Nobel da Paz em 2014. Com a repercussão, usou sua influência para criar o Malala Fund, uma organização para ampliar o acesso à educação de crianças mundo afora.

Educação deve ser prioridade

No palco do RIW, Malala disse que ainda vê que líderes políticos tratam a educação feminina como algo banal, fora das prioridades, o que é um erro.

"Acho que os líderes e criadores de políticas públicas frequentemente tratam a educação das meninas como uma questão secundária, de forma isolada. Mas eles não percebem que a educação das meninas está conectada a tudo o que dizem se importar, desde a equidade de gênero até o enfrentamento da pobreza extrema e a melhoria da economia. Fizemos um estudo alguns anos atrás que indicava que se dermos educaço a todas as meninas do mundo, a economia global pode crescer entre 15 e 30 trilhões de dólares. A educação para as meninas não é apenas uma coisa moralmente correta a se fazer, e não é apenas uma obrigação, mas também é uma decisão financeira e economicamente inteligente que podemos tomar, porque ajudará a crescer nossa economia. E, ao mesmo tempo, pode abordar muitas das barreiras sociais também", disse a ativista.

Malala também criticou o falso ativismo de organizações poderosas, que, segundo ela, não incluem as mulheres nas discussões reais.

"Eu sinto que as meninas precisam ser ouvidas sobre os principais temas de urgência do mundo. E fico muito frustrada quando você vê uma menina sendo convidada para uma conferência da ONU, por exemplo, ou qualquer evento em que ela conta rapidamente sua história inspiradora, mas logo depois é mandada embora. Ela não é incluída na conversa real, onde sua voz poderia ser levada em consideração, como ajudar a definir onde orçamentos serão alocados, ou como essas políticas podem ser moldadas para realmente fazer a diferença", criticou.

Malala citou como exemplo a própria Malala Fund, iniciada por ela aos 15 anos de idade.

"As meninas são muito espertas e perspicazes. E o que os adultos não estão percebendo é que as meninas já estão fazendo o trabalho na adolescência. Quando comecei o Malala Fund, para mim era normal que a organização fosse liderada por uma jovem ou pelas próprias meninas. Eu tinha apenas 15 anos quando comecei o Malala Fund. Tivemos apoio e doações de muitas pessoas de todo o mundo, incluindo o Brasil. Mas, à medida que fui envelhecendo, percebi que isso era uma exceção. E foi aí que fiquei mais determinada a fazer uma mudança real. Por isso, na nossa concessão de subsídios, decidimos que deveríamos dar no mínimo 20% dos nossos recursos para organizações lideradas por meninas e jovens mulheres. Elas sabem melhor do que ninguém quais são as dificuldades que enfrentam no acesso à educação. Por isso, elas entendem melhor quais são as soluções para esses problemas. Então precisamos confiar na liderança delas", concluiu.

Ativismo na vida real

Malala concluiu sua participação com um recado para todas as pessoas que se inspiram em sua jornada e abriu o coração, explicando que uma vida de ativismo não é fácil ou romântica, como algumas pessoas acreditam. Ela ressaltou as dificuldades e a importância de pedir ajuda, se necessário.

"Quero ser muito franca com todos ao dar conselhos, porque é muito fácil dizer às meninas que 'sejam corajosas, ambiciosas e permaneçam determinadas'. Só que é mais fácil falar do que fazer. Quero que todas vocês saibam que duvidar de si mesmas, sentir-se solitária e isolada, ou às vezes apenas se sentir frustrada como se nada estivesse andando, são sentimentos perfeitamente normais pelos quais passamos quando temos grandes sonhos de um mundo melhor para todos. Essas são coisas que ainda enfrento e pelas quais passo. Sabe? Eu lutei para fazer amigos na escola, tanto que, no meu período de faculdade, eu priorizava a socialização em vez de estudar para conseguir fazer mais amigos. E eu nunca pensei que poderia ter amor ou um parceiro de vida na minha jornada. Mas tantas coisas mudam nas nossas vidas. E está tudo bem não ter todas as respostas. Está tudo bem passar por esses momentos de ansiedade e dúvida, porque tudo isso faz parte da nossa jornada de crescimento", disse.

"Essas experiências me ajudaram a crescer como pessoa mais do que qualquer outra coisa na minha vida. E hoje me sinto muito grata por ter feito amigos incríveis. Com esses amigos que fiz na faculdade, eu sentia que podia ser eu mesma. Eu podia ser boba, podíamos contar piadas, podíamos ficar acordadas até tarde da noite, podíamos comer pipoca e assistir a um filme e conversar sobre qualquer assunto aleatório. E isso só me fez sentir como se eu estivesse resgatando uma parte mais jovem de mim mesma que eu havia sacrificado ou deixado para trás. E foi tão importante para mim resgatar tudo isso nesta minha história de amadurecimento. Porque eu estava pensando não apenas na minha própria história, mas em qual mensagem estamos passando às meninas que estão determinadas a mudar o mundo. Precisamos dar a elas um retrato mais real de como a vida é. Não essa imagem polida e brilhante de que temos respostas para tudo, e que não temos dúvidas, e que tudo é fácil. Nada vem tão fácil. É um caminho com muitos solavancos", completou.

Saúde mental

Por fim, Malala reafirmou a importância de se discutir abertamente sobre saúde mental para que todas as meninas entendam que é completamente normal pedir ajuda.

"O mais importante é saber que existem pessoas incríveis ao seu redor. Peça ajuda a elas sempre que precisar. Vamos falar abertamente sobre saúde mental. E vamos estar lá uns para os outros. Você pode ter a ambição de começar algo na sua comunidade. Mas entenda o poder de trabalhar em conjunto. Quando estamos sozinhos, somos apenas uma voz, o que é muito solitário. Uma pessoa pode acender a fagulha da mudança, mas quando nos juntamos, tornamo-nos uma voz poderosa em nossa comunidade. É aí que conseguimos fazer a mudança real", explicou.

"Então esta seria minha mensagem final para todos vocês: se vocês estão determinados a fazer a diferença, comecem com algo, trabalhem em conjunto e permaneçam ambiciosos e corajosos em seus sonhos. E eu sei que os sonhos que vocês têm se tornarão a realidade de amanhã", concluiu Malala.

O Rio Innovation Week acontece no Píer Mauá até esta sexta-feira (7).