Ministério da Saúde lança campanha alertando sobre os danos das apostas online

A iniciativa foca nos riscos das bets e orienta quem precisa de ajuda no SUS

Por Mateus Lincoln - BSB

A iniciativa será veiculada em rádios, TVs e redes sociais alertando sobre o perigo das bets, além de divulgar os atendimentos disponíveis no SUS e os serviços presentes no sistema GovBR

O Ministério da Saúde (MS) lançou, no domingo (26), a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, um alerta à população sobre os riscos associados ao uso de plataformas do tipo. A iniciativa divulga também os serviços de saúde mental oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para o acolhimento e o tratamento de apostadores e familiares afetados.

A divulgação está acontecendo em rádios, canais de televisão e redes sociais. O momento escolhido teve como objetivo aproveitar a atenção gerada por grandes eventos esportivos, como o retorno do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Na campanha, o órgão destaca que o Transtorno do Jogo é reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como um transtorno de comportamento aditivo.

Segundo o Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em 2023, mais de um quarto da população brasileira com 14 anos ou mais já apostou em bets em algum momento da vida.

Bruno Peres/Agência Brasil - Mãe contou os desafios que teve de enfrentar ao lado da filha, que lida com o vício em apostas online

História real: a dor de uma mãe

Paula Renata, mãe de uma jovem que lidou com o vício em apostas, conversou com a reportagem sobre o desafio que teve de lidar em família.

Ela afirmou que os primeiros sinais do vício da filha surgiram quando a jovem passou a pedir dinheiro emprestado para amigos e conhecidos.

Na época, Thaylanna dos Santos de Jesus morava com a então companheira e escondia da família a gravidade da situação.

Segundo Paula, as apostas passaram a dominar a rotina da filha. Sempre que a via, ela estava com o celular nas mãos, convencida de que conseguiria recuperar o dinheiro perdido.

"Ela ganhava, gastava tudo e queria jogar de novo. Era jogar, jogar e jogar", recordou.

A mãe contou que o cenário se agravou quando Thaylanna começou a recorrer a agiotas para manter o vício. Sem conhecer a dimensão do problema, chegou a fazer um empréstimo de R$ 5 mil para ajudá-la, acreditando que o dinheiro seria usado para quitar dívidas. Depois, descobriu que as apostas continuavam.

Com o aumento das cobranças, a família precisou vender bens para tentar reduzir os débitos. Entre eles, móveis da casa e o carro utilizado por Thaylanna para trabalhar como motorista de aplicativo.

A mãe que enfrentou agiotas

Paula relatou que o período mais difícil começou quando as ameaças dos agiotas passaram a colocar toda a família em risco. Ela afirmou que chegou a enfrentar pessoalmente os credores para negociar as dívidas e impedir que os juros continuassem aumentando.

"Eu liguei para cada um deles e falei que eles estavam ajudando a matar uma pessoa doente. Disse que o primeiro que aparecesse em minha porta seria denunciado à polícia", contou.

Segundo ela, a reação dos agiotas foi diferente do esperado. Após ouvirem a história, aceitaram receber apenas parte dos valores devidos e, desde então, se recusaram a emprestar dinheiro novamente à filha.

A situação, porém, continuou se agravando. Paula afirmou que Thaylanna voltou a procurar empréstimos, utilizou dinheiro da própria família sem autorização e entrou em um quadro de profundo sofrimento emocional.

O momento mais dramático ocorreu quando a filha tentou tirar a própria vida após as ameaças recebidas.

"Você vê sua filha sair de casa amarrada pelos bombeiros, gritando 'mãe, me ajuda'. Dentro da ambulância, ela pedia o celular porque queria continuar jogando. Eu nunca vou esquecer essa cena", relatou.

Após a tentativa de suicídio, Thaylanna passou por atendimento hospitalar, foi encaminhada à ala psiquiátrica do Hospital de Base e, posteriormente, ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Paula, no entanto, criticou a estrutura oferecida para pacientes com transtornos relacionados à dependência.

Na avaliação dela, o suporte encontrado pela família foi insuficiente para garantir um tratamento contínuo. A mãe afirmou que tentou buscar acompanhamento psicológico e psiquiátrico para a filha, mas esbarrou na dificuldade de acesso ao serviço público e na impossibilidade de custear atendimento particular.

Ela disse que a principal mudança ocorreu quando a outra filha da família encontrou um grupo dos Jogadores Anônimos (JA), que passou a oferecer acolhimento a pessoas com dependência em apostas em uma igreja católica no Plano Piloto.

Apesar da melhora, Paula afirmou que o receio de uma recaída permanecia constante.

"Quem convive com um dependente vive um dia de cada vez. A recaída sempre pode acontecer."

O apelo de uma mãe

Ao refletir sobre tudo o que enfrentou, Paula fez um apelo para que outras famílias não abandonassem quem enfrenta esse tipo de dependência.

"Eu aconselho os pais a nunca darem as costas. Só quem passa sabe o tamanho dessa dor", expressou ela.

Para Paula, as apostas online provocaram impactos que foram muito além das perdas financeiras e atingiram toda a estrutura familiar.

"Enquanto influenciadores ganham rios de dinheiro divulgando essas plataformas, tem famílias perdendo seus filhos, sendo ameaçadas por agiotas e passando fome. Eu odeio essas bets. Só quem vive isso sabe o estrago que elas fazem", concluiu.

História real: a luta de uma jovem

Thaylanna dos Santos, motorista de aplicativo, contou que o contato com as apostas esportivas ocorreu por intermédio de familiares da ex-esposa. Segundo ela, embora não percebesse na época, já apresentava um histórico de comportamento compulsivo, o que facilitou o envolvimento com os jogos.

No início, as apostas eram feitas com valores baixos e os ganhos eram suficientes para incentivá-la a continuar. Com o passar do tempo, porém, ela deixou de sacar o dinheiro obtido e passou a apostar quantias cada vez maiores.

"O valor deixou de importar. Eu queria apenas continuar jogando", relatou.

A motorista afirmou que o hábito rapidamente deixou de ser uma forma de entretenimento e passou a comprometer a renda destinada às despesas básicas da casa. Durante cerca de dois anos, ela disse ter apostado diariamente.

Na tentativa de manter o vício, Thaylanna contraiu empréstimos, utilizou todo o limite dos cartões de crédito, vendeu bens e recorreu a agiotas. Segundo ela, chegou a dever dinheiro para dez agiotas ao mesmo tempo.

"Pedi dinheiro em tudo o que você possa imaginar. Estourei meus cartões, vendi um carro e destruí meu nome", contou.

Ela também relatou que o vício abalou profundamente as relações familiares e de amizade. Para conseguir dinheiro, disse que inventava histórias e pedia empréstimos a parentes e conhecidos, o que fez com que perdesse a confiança das pessoas próximas.

"Muitos deixaram de confiar em mim. Se eu pedir R$ 5 hoje, ninguém empresta", lamentou.

De acordo com a jovem, o momento mais difícil ocorreu quando a família descobriu o tamanho das dívidas e as ameaças feitas por agiotas. Ela afirmou que parentes chegaram a receber fotografias da frente da residência onde moravam, situação que gerou medo e mobilizou toda a família para quitar parte das dívidas.

Apesar do impacto, ela disse que os familiares compreenderam que enfrentava uma dependência e buscaram ajudá-la a encontrar tratamento especializado.

Após o episódio em que tentou tirar a própria vida, passou por atendimento hospitalar e acompanhamento psiquiátrico.

Os desafios da recuperação

Segundo ela, a recuperação continua sendo um desafio diário. Além das consequências financeiras, Thaylanna afirmou que precisava conviver permanentemente com o risco de recaídas.

"Sou uma pessoa viciada. Tenho que tratar isso todos os dias, porque qualquer deslize pode me fazer voltar", afirmou.

A jovem relatou que chegou a sofrer uma recaída recentemente, o que reacendeu a preocupação da família e reforçou a necessidade de manter o tratamento contínuo.

Thaylanna atribuiu parte da recuperação ao apoio encontrado no JA, onde passou a conviver com pessoas que enfrentavam o mesmo problema.

"O que me salvou foi o grupo. Ali eu entendi que não estava sozinha e que preciso cuidar desse vício um dia de cada vez", disse.

Por fim, afirmou que fazia questão de alertar outras pessoas sobre os riscos das apostas online e comparou a dependência aos vícios em álcool e outras drogas.

"Isso destrói você e quem está ao seu redor. É um vício que mata", concluiu.

Reprodução/Instagram @casacivilbr - SUS oferece atendimento virtual para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas

Bets e a Legislação

A advogada especialista em Direito Civil, Caroline Nadaline, afirma que empresas de apostas podem ser responsabilizadas quando descumprem o dever de informar os consumidores ou deixam de adotar mecanismos de proteção contra o jogo compulsivo. Segundo ela, práticas como publicidade abusiva, omissão dos riscos e ausência de ferramentas para limitar gastos ou permitir a autoexclusão podem configurar falhas na prestação do serviço.

"Se ficar comprovado que a empresa se beneficiou do comportamento compulsivo do usuário, sem adotar medidas preventivas, pode haver responsabilização com base no Código de Defesa do Consumidor, por prática abusiva e violação da boa-fé objetiva", explicou.

Caroline destaca ainda que pessoas endividadas em razão do vício podem recorrer aos mecanismos previstos na Lei do Superendividamento (Lei nº 14.181/2021). Conforme a advogada, a norma permite a renegociação judicial ou extrajudicial das dívidas, preservando o chamado mínimo existencial.

Em situações mais graves, ela afirma que também é possível discutir medidas de proteção relacionadas à capacidade civil do indivíduo, desde que amparadas por laudos médicos e pela análise de cada caso.

Para a especialista, a tendência é que o Transtorno do Jogo receba proteção jurídica cada vez maior no Brasil. Ela observa que a condição já é reconhecida internacionalmente como um transtorno de saúde mental e avalia que futuras mudanças na legislação podem equiparar o tratamento do vício em apostas ao de outras dependências.

"Isso pode resultar em políticas públicas específicas, maior rigor na atuação das empresas e mecanismos legais voltados à prevenção e ao tratamento dos indivíduos afetados", concluiu.

O que o vício provoca

A psicóloga clínica Laynara Paiva explica que o vício em apostas é reconhecido como um transtorno comportamental, semelhante à dependência química. Segundo ela, a pessoa perde gradualmente o controle sobre o impulso de apostar, utilizando o comportamento como forma de lidar com a ansiedade, a frustração e o sofrimento.

"Apostar deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como uma tentativa de regular estados emocionais", afirmou.

Laynara destaca que o tratamento mais indicado é multidisciplinar, com psicoterapia e, em alguns casos, acompanhamento psiquiátrico. Ela acrescenta que medidas como restringir o acesso ao dinheiro, bloquear plataformas de apostas e participar de grupos de apoio podem contribuir para a recuperação.

Segundo a psicóloga, familiares devem abordar o problema sem julgamentos, incentivando a busca por tratamento e estabelecendo limites, sem assumir as consequências das dívidas ou encobrir o comportamento compulsivo.

Ela também alerta que as plataformas de apostas utilizam mecanismos de recompensa que favorecem a repetição do comportamento. "Quando alguém aposta para aliviar a angústia ou escapar da realidade, estamos diante de um sinal de alerta que merece atenção clínica", concluiu.

Atendimento no SUS

O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a oferecer teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares. O acesso é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, com login pela conta gov.br.

Já o atendimento presencial pode ser iniciado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), com encaminhamento aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) quando necessário.

Plataforma de autoexclusão

Lançada pelo Governo Federal em dezembro de 2025, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão permite bloquear o acesso às plataformas de apostas autorizadas. A ferramenta bloqueia contas existentes, impede novos cadastros com o mesmo CPF e interrompe o envio de publicidade direcionada.