"Nós temos uma vacina segura e eficaz"
Médico que participou do desenvolvimento da vacina do Butantan teme aumento do negacionismo
O Ministério da Saúde anunciou a descontinuação temporária da atual estratégia de vacinação da Butantan-DV contra a dengue. A medida ocorre após o registro de 42 casos de reação adversa e dois óbitos que ainda estão sob investigação.
Em entrevista ao Correio da Manhã, o professor da Faculdade de Medicina São José Rio Preto (SP) e médico virologista Maurício Lacerda Nogueira, que participou do desenvolvimento do imunizante e acompanhou todo o estudo clínico, afirmou que a vacina é segura e eficaz. Segundo ele, os pesquisadores envolvidos no desenvolvimento do imunizante mantêm total confiança na segurança e receberam com surpresa a decisão da suspensão temporária. O especialista ressaltou, no entanto, que neste momento é fundamental compreender o que ocorreu para que as próximas medidas possam ser definidas com base em evidências.
O senhor foi um dos coordenadores da pesquisa da vacina Butantan-DV. A vacina está suspensa temporariamente. O que é possível dizer sobre a segurança da vacina ?
Em 2024, estávamos na fase 3, que é o estudo de eficácia e segurança. Nesta fase, os ensaios clínicos da vacina Butantan-DV contaram com a participação de 16 mil voluntários. A vacina mostrou eficácia, mostrou segurança, e a Anvisa analisou o dossiê do estudo e verificou todos os dados. Com base neste dossiê, a Anvisa licenciou a vacina. A partir daí, o Ministério da Saúde passou a utilizá-la. Quando começam a utilização da vacina, iniciam-se também duas etapas muito importantes. Uma delas são os estudos da fase 4, que são os chamados estudos de vida real que estão ocorrendo em três cidades. Existe também o processo de farmacovigilância, em que a Anvisa acompanha os efeitos colaterais. Por enquanto, foi utilizada meio milhão de vacinas e o Ministério da Saúde detectou um sinal de segurança. Então, 42 pessoas tiveram sintomas semelhantes à dengue e duas mortes potencialmente associadas ao uso da vacina. Isso significa, até agora, que pode existir uma associação temporal entre tomar essa vacina e o surgimento desses eventos semelhantes à dengue e esses óbitos. Isso pode mudar. O ministério optou por interromper o programa de vacinação para avaliar e analisar esses casos com calma.
O que já é possível concluir?
Vamos ver o que aconteceu. Será que esses efeitos colaterais estão ocorrendo em uma faixa etária específica? Em uma etnia específica? Ou são apenas fenômenos de associação temporal? Porque se você entende que isso está ligado a uma variante específica ou a uma população específica então eu retiro esse grupo e continuo vacinando o restante da população que precisa dessa vacina. Estamos falando de meio milhão de pessoas vacinadas. Quarenta e duas tiveram efeitos colaterais e, potencialmente, duas tiveram desfechos mais graves. Em um universo em que 499.998 estão protegidas. É necessário uma investigação muito bem feita para estabelecer um nexo causal ou não. Tudo está ocorrendo dentro do esperado. A vacina é eficaz, isso é um fato. Nós temos total confiança. O próprio Butantan realizou uma campanha de vacinação entre seus funcionários.
Essa vacina levou mais de dez anos para ser desenvolvida. Como foi esse processo e quais garantias de segurança foram exigidas antes da aprovação?
Essa vacina é um processo longo de mais de dez anos.. O que a Anvisa queria desde o começo era a segurança de longo prazo. Desde o começo do estudo lá em 2016, a Anvisa queria cinco anos de segmento. Todos os voluntários foram seguidos por cinco anos. Foram 16 mil pessoas. A tecnologia da vacina é muito boa. Ela foi desenvolvida no Centro Nacional de Saúde dos Estados Unidos, que é um instituto de excelência. Depois ela veio para o Instituto Butantan que também é uma instituição de excelência. O Butantan patenteou o processo de produção, conduziu o estudo clínico e acompanhou todas as etapas de desenvolvimento. E isso é muito importante.
Com a suspensão temporária da Butantan-DV pode haver uma tentativa de associar o imunizante a um determinado governo ou grupo político? Como o senhor avalia essa tentativa de politização?
Essa é uma vacina que foi desenvolvida no governo do estado de São Paulo, com financiamento do governo federal que vem ao longo de muitos anos. Se você voltar aos arquivos dos jornais e ver as primeiras vacinações, o governador do estado de São Paulo na época era Geraldo Alckmin e a presidente era Dilma Rousseff. Após a aprovação da vacina, havia uma mesa em que estavam sentados, de um lado, o governador do estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o secretário estadual de Saúde, Eleuses Paiva, e do outro lado o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Os três estavam juntos civilizadamente lançando uma vacina que não é de A ou B. É uma vacina do Brasil. Quem joga contra a vacina com discursos políticos vazios nas redes sociais está jogando contra o país. Nós precisamos de uma vacina segura e eficaz. E nós temos isso. Só precisamos entender o que aconteceu e utilizar isso.
A suspensão da Butantan-DV pode alimentar discursos contrários à vacinação e à ciência, com impacto na confiança da população nas vacinas?
Sem dúvida. A decisão do Ministério da Saúde é muito bem fundamentada. Mas é importante avaliar que o movimento antivacinas não é um movimento espontâneo. Ele é um movimento financiado, orquestrado. No momento em que você tem uma vacina que é liberada e depois tem sua aplicação suspensa para avaliação, independentemente de eu concordar que isso está absolutamente correto do ponto de vista técnico, a mensagem que fica para o movimento antivacinas é muito ruim. Ao mesmo tempo em que. como cientistas, sabemos que esse é um processo natural, a população vê isso como hesitação, vê isso como dúvida, vê isso como questionamentos que não são corretos. E isso me causa grande preocupação.
De que forma os pesquisadores que participaram do desenvolvimento da Butanta-DV receberam a notícia sobre a suspensão temporária?
Com surpresa.