Mais de 40% da população não sabe o que é primeira infância
Dado revela necessidade de mais pesquisas para melhor compreender esse período da vida e suas necessidades
Investir em pesquisas e estudos voltados à primeira infância é fundamental para entender como ocorre o desenvolvimento infantil. Esse período que vai do nascimento aos seis anos de idade, é único e determinante. Nessa fase, as experiências vividas pela criança serão decisivas no crescimento e na aquisição de habilidades cognitivas, sociais, físicas e emocionais. Na primeira infância também ocorre a plasticidade cerebral, capacidade do cérebro de se organizar, evoluir e formar novas conexões neurais de acordo com o ambiente e os estímulos recebidos. Segundo dados da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, o Brasil tem atualmente 18,1 milhões de crianças na primeira infância.
Apesar desse momento da nossa vida ser um período essencial, pesquisa realizada em 2025 pela fundação mostrou que mais de 40% da população não sabe o que significa o termo, e apenas 15% reconhecem a importância dos seis primeiros anos de vida para o nosso desenvolvimento. Os dados evidenciam uma lacuna de conhecimento e mostram que esse período ainda não recebe a devida atenção dos pais e não é bem compreendido.
Esse cenário de carência de informações no país revela a urgência e a necessidade de ampliar o entendimento e a valorização de tudo que acontece com as pessoas na primeira infância. Diante dessa falta de conhecimento por parte da população, cresce a necessidade de produção de evidências e pesquisas qualificadas que orientem ações mais eficazes e sensibilizem tanto a sociedade quanto os tomadores de decisões públicas sobre a relevância desse período.
Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio da Manhã, o investimento em pesquisas na área é crucial para embasar e garantir a efetividade de políticas públicas além de ampliar o impacto das iniciativas voltadas ao bem-estar infantil.
Pesquisa
Para o professor e pesquisador de Estudos da Infância e da Juventude da Universidade de Brasília (UnB) Assis da Costa Oliveira, o Brasil vem avançando na estruturação de pesquisas voltadas à primeira infância, mas ele observa que ainda há muitos desafios a serem superados.
“O desafio central é que essas pesquisas que já têm sido feitas cheguem à opinião pública, consigam ser conhecidas pela sociedade e gerem uma sensibilização para a importância da primeira infância”, pontua.
Outro obstáculo citado por Oliveira está na tradução dessas pesquisas e de seus resultados para o agente público, de modo que possam, de fato, orientar os gestores na tomada de decisões mais eficazes no âmbito das políticas públicas.
“Quando se investe em pesquisas na primeira infância e acesso ao conhecimento, direciona-se também o olhar do gestor público para a alocação mais eficiente de recursos. Ou seja, quanto mais a gente conseguir antecipar o investimento na primeira infância, maior é o retorno que isso pode trazer para a sociedade”, defende.
O professor da UnB destaca os impactos positivos quando há investimento na primeira infância. “Essas crianças se tornam adultas com maior escolaridade, melhores condições de saúde, menor envolvimento com a criminalidade. É um período muito curto da vida, mas que traz muitos determinantes para o restante dela. Por isso toda a preocupação de fazer o investimento adequado para que se possa ter resultados mais adequados.”
Caminhos
Fernando Louzada, neurocientista da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) também concorda com a visão de Oliveira. Ele observa que o investimento que se faz em pesquisa traz um retorno a médio prazo para a sociedade.
“O estudo da primeira infância vai oferecer caminhos, vai dizer assim: é melhor fazer isso do que aquilo. Olha, é melhor fazer desse jeito do que daquele. Olha, a gente sugere que essa política pública pode ser modificada, porque isso pode acelerar o processo. Então, para que a gente faça isso, a gente tem que estar embasado em evidências, em conhecimento científico, e, para isso, a gente precisa fazer pesquisa. Esse diálogo entre a pesquisa e a ponta, entre gestores, formuladores de políticas públicas e educadores, é fundamental”, explica Louzada.
Beatriz Benedito, analista de políticas públicas do Instituto Alana, organização brasileiro de proteção aos direitos da criança, afirma que a primeira infância vem se consolidado cada vez mais no Brasil e ganhado um novo olhar nos estudos acadêmicos. Ela destaca que é crucial que gestores públicos se aproximem e tomem conhecimento das pesquisas que estão sendo desenvolvidas nas universidades sobre a primeira infância.
Ela cita, por exemplo, o Núcleo Ciência pela Infância. “Temos no Brasil algo que eu considero muito positivo quando se vai falar de desenvolvimento de ciência para a primeira infância, que é o Núcleo de Ciência pela Infância. Grupo de organizações e universidades que olham para construções de evidências científicas nessa etapa peculiar do desenvolvimento.”
Estresse tóxico
Outro ponto citado pelos especialistas é a necessidade de avançar na identificação do estresse tóxicos, entendidos como fatores de risco, ou seja, quando a criança vivencia situações de violência (física, emocional e sexual), negligência, privação extrema de alimentação ou recursos básicos (como acesso à água). Em síntese, é a exposição frequente e prolongada da criança a eventos considerados negativos que podem impactar diretamente na evolução infantil.
Assis da Costa defende que é preciso identificar claramente os “estressores tóxicos” que atrapalham o desenvolvimento pleno das crianças e assim desenhar políticas públicas na área da primeira infância. O pesquisador também chama atenção sobre a infância não ser igual para todos no Brasil. Por isso, a necessidade e a importância de considerar o país em sua dimensão. Ou seja, é preciso formular políticas públicas considerando as particularidades de cada região, sendo assim, regiões e grupos que estão inseridos em contexto mais amplo de violência e expostos a fatores de risco na infância.
“Precisamos avançar ainda mais em identificar o que chamamos de estressores tóxicos, que, obviamente impedem que as crianças em situação de vulnerabilidade alcancem um potencial maior de desenvolvimento”, aponta o pesquisador. “Cada vez mais é necessário trabalhar a perspectiva da diversidade e da equidade para implementar ações que considerem essa diversidade da primeira infância e a diversidade que é o Brasil. Ou seja: primeira infância na Amazônia, no Cerrado, primeira infância no Nordeste. Além disso, há matrizes internas, como a primeira infância entre povos indígenas, entre quilombolas, e a primeira infância com deficiência. É preciso trabalhar mais essas diferentes concepções que a diversidade e realidade brasileira, nos demanda conhecer melhor”.
O neurocientista Fernando Louzada enfatiza que para o Brasil avançar é imprescindível ampliar investimentos na primeira infância e no desenvolvimento de pesquisas na área. “A plasticidade cerebral é maior nos primeiros anos de vida. Então, não é à toa que a criança tem uma capacidade de aprendizado enorme. A primeira infância significa oportunidade, oportunidade de construir pessoas, de construir cidadãos. Por isso, é importante que essas crianças estejam imersas em um ambiente saudável. Esses primeiros anos são únicos na nossa vida, é fundamental que a gente possa dar uma atenção especial. Não existe país que possa avançar em todos os seus anseios sem que a gente cuide da primeira infância”, observa.
Recursos
Ao Correio da Manhã, especialistas reconhecem que o Brasil tem destinado mais recursos para pesquisas sobre a primeira infância. Eles ressaltam, no entanto, a necessidade de acompanhar esses estudos e avaliar de que forma as políticas públicas voltadas para essa fase da vida estão sendo implementadas e se estão realmente funcionando. Eles citam, por exemplo, o Marco Legal da Primeira Infância que completou dez anos em 8 de março deste ano.
“A pesquisa serve também para isso, para a avaliação dessas políticas e desses programas. No Brasil já tem uma massa crítica de pesquisadores para isso, mas é necessário que surjam recursos para que essas avaliações possam ser feitas. Os gestores também precisam de alguma maneira incorporar essa ideia”, crítica Louzada.
Para o pesquisador Assis da Costa, da UnB, nos últimos quinze anos o Brasil alcançou avanços revolucionários. Ele cita o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completará 36 anos neste ano, o Pacto Nacional pela Primeira Infância e o Marco Legal da Primeira Infância. Apesar desses progressos, que demandaram muita pesquisa e discussão, o pesquisador reforça que ainda precisamos melhorar no investimento na área. “A gente sai de uma visão puramente assistencialista de atendimento à primeira infância e parte para uma visão baseada em direitos e na intersetorialidade.”
Já Beatriz Benedito do Instituto Alana, cita a Política Nacional Integrada para a Primeira Infancia (PNIPI) como um avanço. “A gente teve no ano passado a instituição do PNIPI e com essa política a gente percebe como a discussão nessa etapa da vida tem avançado nos últimos anos. É um demonstrativo de que o desenvolvimento da criança de 0 a 6 anos precisa ser integral.”