"Eu tenho uma gratidão enorme pelo povo brasileiro"
Ao Correio da Manhã, primeiro porta-voz brasileiro de Israel, Major Rozenszajn, fala sobre o carinho com o Brasil e o conflito contra o Irã
Em meio ao conflito de Estados Unidos e Israel contra o Irã, há um brasileiro, mais precisamente carioca, como primeiro porta-voz de língua portuguesa das Forças de Defesa de Israel. Em entrevista exclusiva ao Correio da Manhã, o Major Rafael Rozenszajn, falou sobre a ligação com o Rio de Janeiro e a importância e carinho que ele tem por Petrópolis, já que, foi a Cidade Imperial que acolheu o seu avô, refugiado do Holocausto na Polônia. Confira a entrevista feita pela repórter Raphaela Cordeiro a seguir:
Raphaela Cordeiro: Major, antes da gente falar sobre o atual cenário no Oriente Médio, a gente gostaria de começar por uma história que nos conecta diretamente. O senhor tem uma ligação especial com Petrópolis. Em outros momentos, o senhor falou que o seu avô, que é sobrevivente do Holocausto, deixou a Polônia em um momento que poucos países estavam aceitando receber judeus refugiados. E foi exatamente o Brasil, especialmente a cidade de Petrópolis, que acolheu o seu avô. É na cidade de Petrópolis que está sediada hoje a nossa TV Correio da Manhã. O que essa história representa na sua trajetória pessoal e também na sua missão atual com Israel?
Rafael Rozenszajn: Antes de mais nada, eu agradeço muito o convite. É sempre um prazer estar falando diretamente com o povo brasileiro. Eu sou o primeiro porta-voz em português das Forças de Defesa de Israel. É uma oportunidade que o povo brasileiro tem de poder receber as informações oficiais do exército de Israel em português. Realmente, eu tenho uma gratidão enorme pelo povo brasileiro que recebeu o meu avô depois dos horrores do Holocausto. Meu avô nasceu na Polônia e perdeu toda a sua família no Holocausto. Na verdade, ele conseguiu sobreviver junto com o irmão dele e o pai. Ambos vieram para Israel para lutar na Guerra da Independência. E meu avô, como ele era menor de idade, não podia lutar no exército de Israel naquela época. E ele pegou o primeiro navio em direção a América do Sul. E não tinha nenhum outro país que aceitou receber meu avô. E meu avô chegou no Brasil. Ele sabia que ele tinha parentes no Rio de Janeiro, na cidade de Petrópolis. E ele conseguiu fazer algum contato com a família dele, que recebeu ele em Petrópolis. Ele foi muito bem recebido, de braços abertos pelo povo brasileiro. E eu tenho uma gratidão imensa por esse povo, não somente por eu ter nascido no Brasil, por eu ter sido criado e educado no Brasil, mas por saber que foi o povo que acolheu a minha família depois que passou pelos horrores da história desse último século.
RC: O senhor se tornou o primeiro porta-voz brasileiro das Forças de Defesa de Israel. Qual é a importância de ocupar esse espaço e traduzir a realidade para nossa língua, o português? Não só para a população brasileira, mas também para os outros países que também falam a nossa língua.
RR: A desinformação sobre o conflito aqui no Oriente Médio é muito grande. As narrativas enganosas são imensas e isso aumenta o antissemitismo. Isso faz com que muitas pessoas rejeitem Israel. E eu tento passar as informações para o povo brasileiro de uma forma clara, de uma forma bem objetiva. Fazendo isso em português, eu acho que no final, o povo brasileiro que entende realmente os fatos, entende o que acontece aqui na região, ele apoia Israel, porque o conflito aqui é muito simples. Ele é travado entre um país que patrocina diversos grupos terroristas, que deseja a destruição de Israel. Que produz mísseis balísticos para atacar o Estado de Israel, que produz armamentos atômicos, que patrocina os grupos terroristas aqui na região com o intuito de eliminar o Estado de Israel do mapa. Por outro lado, tem o único país democrático do Oriente Médio e o único país onde a população cristã cresce e pode fazer seus cultos religiosos com total liberdade. Único local onde tem liberdade de expressão, liberdade de expressar os sentimentos é aqui em Israel. Essa guerra, na verdade, é uma guerra de valores. É uma guerra que, por um lado, são os valores da jihad, do extremismo islâmico, da destruição do ódio e, por outro lado, os valores ocidentais da equidade, da democracia, da liberdade, que são representados por Israel e pelos Estados Unidos. O que eu tento passar são somente os fatos e não narrativas.
RC: Eu acompanho muito as suas redes sociais. E eu já vi alguns relatos do senhor dizendo que foi uma guerra imposta a vocês, que vocês não gostam da guerra. Essa é uma frase que ficou muito marcada nas suas falas. Como o senhor enxerga as fake News, já que a gente vive na era digital. Como elas podem atrapalhar diretamente a atuação da guerra hoje?
RR: A guerra hoje em dia não é travada somente nos campos de batalha. A guerra é travada também nas mídias sociais, nas plataformas de comunicação. É o que nós chamamos de guerra de narrativas ou a guerra de informações. A guerra de narrativas ela não é menos importante do que a guerra operacional, porque é a que dá a legitimidade para continuar atuando para alcançar os objetivos da guerra operacional. Então, quando Israel é acusado de cometer crimes de guerra ou de atuar de forma desproporcional, é muito importante trazer as informações e explicar o que realmente acontece, seja no Irã, seja na Faixa de Gaza, seja no Líbano. Porque, no final das contas, Israel é um Estado Democrático Direito, atua de acordo com todas as normas internacionais. Como você citou Raphaela, tudo que nós queremos é viver. Nós já mostramos ao mundo todo que nós estamos abertos para a paz. Fizemos a paz com nossos inimigos, fizemos a paz com Egito, fizemos a paz com a Jordânia. Inclusive, entregamos territórios para paz. Entregamos o Sinai para fazer a paz com o Egito. Nós fizemos a poucos anos atrás nos acordos de Abraão, fizemos a paz com os Emirados Árabes, com Marrocos, com Barein, com Sudão. Estávamos a um passo de de fazer a paz com a Arábia Saudita, só que os grupos terroristas, o maior medo deles é da aproximação de Israel com os países árabes. E por isso o Hamas fez o 7 de outubro para que a aproximação entre Israel e a Arábia Saudita não possa se concretizar. E essa é realmente a diferença entre Israel e os países árabes, que rejeitam Israel. Israel quer viver em paz e os nossos inimigos querem nos destruir.
RC: Nos últimos dias a gente acompanhou uma intensificação desse cenário das ações militares envolvendo Israel e o Irã, com algumas operações que aumentaram e acabaram aumentando a tensão, colocando o conflito em um outro patamar. Para a gente começar a analisar esse cenário atual, como está a situação de Israel nesse momento? A gente que acompanha muito as notícias vê que a cada minuto o cenário muda mais um pouco. O país vive hoje uma nova fase do conflito?
RR: Na verdade, a guerra com o Irã começou tem poucos dias. O Irã voltou a produzir seus armamentos nucleares, tomou a decisão de aumentar o arsenal de mísseis balísticos para chegar até 8.000 mísseis balísticos e continua patrocinando os grupos terroristas aqui na região. Israel não faz fronteira com Irã, só que o Irã faz fronteira com Israel através dos grupos terroristas, o Hezbollah no Líbano, Hamas na Faixa de Gaza, a Jihad islâmica no centro de Israel e os Houthis no Iêmen. São todos estes grupos terroristas que são patrocinados pelo Irã. Então, nós estamos atuando na Faixa de Gaza para eliminar essa ameaça para o futuro existencial do Estado de Israel. Uma ameaça que é baseada nos mísseis balísticos, no programa nuclear e no patrocínio do Irã para os grupos terroristas aqui na região. Nós não podemos permitir que o regime mais perigoso do mundo tenha as armas mais perigosas do mundo em suas mãos. Nenhum país soberano que apoia a sua população aceitaria uma situação como essa. E o Estado de Israel também não vai aceitar. Nós estávamos falando do meu avô. O meu avô sempre me dizia que o maior desafio do povo judeu no Holocausto é que não tinha um exército para defender o povo judeu. Hoje nós finalmente temos um exército. Temos um país para garantir que um novo Holocausto nunca mais vai existir. Para garantir que todos que querem nos destruir não possam ter êxito em seus desejos.
RC: O senhor falou sobre Israel não fazer fronteira com o Irã. E a gente vem observando que parte da comunidade internacional criticou muito a ação de Israel e dos Estados Unidos, por temer que houvesse um aumento de instabilidade no Oriente Médio e em outros países. Como o senhor responde a essas críticas da comunidade internacional à ação de Israel e Estados Unidos?
RR: A Guerra não é bom para ninguém. Guerra não é bom para Israel. Guerra não é bom para o Irã. Guerra não é bom para o mundo. A guerra aumenta as tensões do mundo, a guerra aumenta os preços de combustível no mundo. A guerra causa o mal para o mundo todo. Então, é lógico que todos que não dão nenhum valor para o futuro existencial de Israel, que não importa para eles a existência de Israel, que não importa para eles toda a bondade que Israel já fez com a humanidade, para essas pessoas, que o Irã continue produzindo bombas atômicas e continue produzindo os seus mísseis nucleares, seus mísseis balísticos, que continuem patrocinando os grupos terroristas aqui na região e que o Estado de Israel acabe, que o Estado de Israel, deixe de existir no mapa para que o combustível não aumente e as tensões no mundo não sejam maiores. E o Estado de Israel pode acabar. Mas quem entende que a existência de Israel tem uma importância, que entende todo a bondade que Israel já fez com a comunidade internacional. Todos os remédios que foram, que foram produzidos em Israel, os tratamentos médicos que foram produzidos, as tecnologias que são israelenses, todos os prémios Nobel que Israel já conquistou com todas as suas iniciativas. Então as pessoas vão entender que, para que o futuro existencial de Israel seja real, Israel não pode permitir que o Irã continue com seus programas nucleares, com seus programas de mísseis balísticos e com o patrocínio de terroristas aqui na região. É muito simples.
RC: Acaba atingindo economias do mundo inteiro, como o senhor falou. E complementando minha pergunta anterior à retaliação iraniana já está em curso. O senhor considera que hoje, nesse exato momento, nós estamos diante de uma escalada regional dessa guerra? Como o senhor avalia a segurança de Israel? Israel está preparado para receber essa retaliação do Irã?
RR: Israel já está se preparando para isso há anos, para a situação na qual nós precisamos combater o regime iraniano e que o regime iraniano vai retaliar da forma como está fazendo. E é por isso que nós temos o sistema de defesa aéreo, os melhores do mundo, senão o melhor do mundo. E essa também é uma outra diferença entre o regime iraniano e o Estado de Israel. Enquanto o regime iraniano investe todo os seus recursos para construir mísseis balísticos para patrocinar grupos terroristas , no ano passado foi quase US$ 1 bilhão que foram enviados para o Hezbollah. O regime iraniano investe em seu programa nuclear. Por outro lado, o Estado de Israel investe em hospitais, em centros de reabilitação, em sistemas de defesa aérea, em bunkers para sua população. E é por isso que, mesmo que o Irã já lançou para o território de Israel centenas de mísseis, nós temos baixas aqui no nosso território. Infelizmente temos baixas, mas as baixas não são compatíveis com a quantidade de missões que foram lançadas em direção ao nosso território. Das centenas de mísseis que lançam em nosso território somente 10% não foi interceptado pela nossa defesa aérea. Cada míssel desse que cai se explode em nosso território, infelizmente são dezenas de casas de prédios que são danificados, são pessoas que realmente pagam o preço desse ataque terrorista do regime iraniano, enquanto nós atingimos somente alvos militares. O Irã visa atingir alvos civis, são prédios civis, são prédios residenciais que são atingidas pelo regime iraniano. Esses mísseis balísticos são precisos, cirúrgicos, e quando atingem zonas urbanas é porque esse foi o objetivo: atingir zonas residenciais.
RC: Como que o senhor chegou até esse cargo de porta-voz? Há quanto tempo está trabalhando nas Forças de Segurança de Israel?
RR: Eu, na verdade, sou advogado. Eu atuei mais de 18 anos nas Forças de Defesa de Israel. Fui advogado da Marinha e eu fui advogado do Comando Central. Eu fui advogado e fui promotor militar. Eu tive diversos cargos como advogado do Exército de Israel. E quando começou a guerra, no 7 de outubro, depois do ataque cruel do Hamas em 2023, o Exército israelense entendeu que tem uma necessidade de ter um porta-voz que fala português, porque o povo brasileiro, em sua grande maioria, não entende inglês, não entende outros idiomas e por outro lado, é um povo que se interessa muito pelo que acontece aqui na região e as narrativas enganosas, as fake news, a desinformação no Brasil é imensa. Então, para poder trazer as informações de uma forma real, de uma forma oficial para o povo brasileiro, de uma forma direta, surgiu a necessidade de ter um porta-voz que fala português. Eu fui convocado para essa missão. Logicamente eu aceitei. E vou falar uma coisa para vocês: as pessoas costumam pensar que o meu trabalho é um trabalho muito difícil. De todos os carros que eu tive no Exército, esse foi o mais fácil. Porque é tão fácil explicar a situação aqui em Israel. É tão fácil explicar que essa guerra é uma guerra de valores que o que está de um lado é quem quer nos destruir, quem quer apagar Israel do mapa, por outro lado, é um Estado democrático, um Estado que respeita as normas internacionais. É um Estado que quer viver em paz. Os fatos estão todos aqui. Não tem nenhuma narrativa que não tem uma boa resposta. Até porque o Estado de Israel, diferente dos nossos inimigos, não temos nenhum receio de dizer que erramos quando erramos. Nós não temos nenhum receio de dizer que quando somos acusados, que nós vamos verificar as acusações. A única coisa que me falta é esse é meu único desafio. Na verdade, eu tive dois desafios. O primeiro foi que as portas se abrissem para mim. Infelizmente, eu não tenho a abertura de poder falar, de poder debater em todas as mídias, em todas as redes. Esse foi meu primeiro desafio. O segundo desafio, não menos grave, foi retomar o meu português depois de 25 anos que eu não falava português.
RC: O português do senhor está ótimo, muito claro. E é muito bom saber que a gente tem uma pessoa que possa trazer essas informações para nós e aproximar da nossa língua, do nosso país. Porque a sensação que dá lendo as notícias e assistindo à televisão é de que está muito distante da gente, como se fosse um filme. Mas não é verdade, né? O senhor considera que a gente está diante de uma disputa intensa pela opinião global? Como é que isso impacta o andamento da guerra?
RR: Eu acho que a guerra de narrativas influencia diretamente na guerra operacional. Se Israel é acusado de cometer crimes de guerra e países deixam de ter relações com Israel por causa dessas acusações, isso pode ser um empecilho na legitimidade de Israel continuar para alcançar os objetivos da guerra operacional. Por enquanto, nossos inimigos trazem narrativas, nós não trazemos narrativas, nós trazemos fatos. Quando Israel é acusado de cometer genocídio, eu trago os dados, os fatos. Quantas pessoas morreram, quantos deles são terroristas, quantos morreram por mortes naturais. E assim as pessoas podem tomar suas decisões em quem quer apoiar. Inclusive eu tenho muito orgulho de dizer que de todos os porta-vozes que temos aqui no exército de Israel, nós temos porta-vozes de diversos idiomas, em árabe, inglês, espanhol, francês e russo, e de todos os porta-vozes, o porta voz em português é o que tem a maior quantidade de seguidores nas redes sociais. Porque o povo brasileiro realmente está interessado, está com sede de informações. E é por isso que é uma honra enorme poder estar atuando nesse cargo e poder estar enchendo um pouco dessa lacuna, dessa falta de informações que tem no Brasil. Eu só preciso da abertura de portas para poder trazer, levar para dentro das portas, para dentro do Brasil todas as informações que são necessárias. Porque nossos inimigos sempre vão nos acusar, mas as acusações deles sempre vão ser gritar genocida, assassino, gritar apartheid. Eles nunca vão saber debater, trazer as informações, se aprofundar no tema. Quando sentam com uma pessoa e trago as informações e converso o que é o apartheid, como Israel pode ser um estado de apartheid quando um juiz árabe colocou na cadeia o primeiro ministro de Israel e o presidente de Israel? Como pode ser um estado de apartheid quando quatro jogadores da seleção de Israel são árabes? Quando a uma das maiores jornalistas é árabe? Quando centenas de soldados israelenses ingressam no exército e todos eles são árabes? Na verdade, Israel é único país do Oriente Médio onde tem total liberdade de expressão, liberdade de culto, liberdade de pensamento. Israel é uma democracia que floresce e eu acho que é esse papel que eu faço, como eu disse, é um papel que é fácil, porque as informações estão aí. Precisamos trazer essas informações para o povo brasileiro.
RC: Major Rafael, para a gente encerrar a nossa entrevista, eu gostaria que o senhor deixasse um recado com as expectativas de Israel para os próximos dias, para os próximos meses. O que vocês esperam dessa guerra?
RR: A nossa expectativa é que esta guerra termine o mais rápido possível. Só que a nossa expectativa é também que esta guerra não termine antes do Irã deixar de ser uma ameaça para o futuro existencial do Estado de Israel. E que essa guerra termine quando ela não continuar mais produzindo seus armamentos nucleares. Quando o Irã não tiver mais a capacidade de lançar seus mísseis balísticos contra Israel. E quando Irã não continuar mais patrocinando os grupos terroristas aqui na região. Quando isso acontecer e essa guerra terminar, não somente Israel será um país mais seguro, mas o mundo será um mundo muito mais seguro.
RC: Major, muitíssimo obrigada pela sua entrevista. Eu desejo que o senhor, sua família e toda Israel esteja em segurança nesse momento. Mais uma vez, muito obrigada pela disponibilidade em um momento tão delicado e pode ter certeza que o espaço estará aberto para outras entrevistas.
RR: Eu que agradeço. Muito obrigado.
