Carnaval deve movimentar R$ 7,3 bilhões no estado

Na capital, Prefeitura projeta R$ 3,4 bi, 16,5 milhões de foliões e 627 blocos

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Por Patrick Bertholdo

O Carnaval 2026 já nasce grande no Estado: projeções do Centro de Inteligência da Economia do Turismo (CIET), da Secretaria de Turismo e Viagens (SETUR-SP), estimam R$ 7,3 bilhões em movimentação e 4,7 milhões de turistas em São Paulo, com gasto médio de R$ 1.543 por visitante — incremento de cerca de 5% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, a Região Metropolitana de São Paulo entra como epicentro natural: densidade urbana, conectividade e vocação para receber fluxos de curta distância (o turista do "bate-volta") e também quem transforma a folia em pernoite. E há um ponto-chave: esse tipo de cálculo costuma se ancorar no período oficial do feriado; se forem incorporados pré e pós-Carnaval — cada vez mais presentes na dinâmica de grandes centros — o impacto tende a ser ainda maior.

Na cidade de São Paulo, o dado "real aferido" já está colocado: a Prefeitura projeta que o Carnaval 2026 movimente R$ 3,4 bilhões, com expectativa de 16,5 milhões de foliões e 627 blocos (contra 601 no ciclo anterior), além de cerca de 50 mil empregos ao longo da cadeia. A operação cresce não só em escala, mas também em modelo: a gestão municipal informou que a estrutura do Carnaval de Rua será integralmente custeada por aportes privados, reforçando o peso do evento como ativo econômico e turístico.

Hotelaria "blindada"

Para dar solidez ao componente turismo, a conversão em pernoite é uma métrica defensável. No painel do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) — no informativo setorial InFOHB (novembro/2025) — São Paulo aparece com ADR (diária média) de R$ 702,60 e taxa de ocupação de 73,89% no mês (ainda que o Carnaval tenha sazonalidade própria). Em períodos de grande evento, a combinação "alta ocupação diária pressionada" é justamente o que traduz a capacidade de capturar o turista que fica — e não apenas circula.

Rodovias, aeroportos
e terminais

O fluxo de turistas não aparece só na rua — aparece no recebimento. No Carnaval, o grande termômetro de chegada e circulação de visitantes é o modal rodoviário. Em 2025, as rodovias concedidas do estado projetaram mais de 4,4 milhões de veículos no feriado, alta de 6% sobre o Carnaval anterior. Para 2026, usando o mesmo crescimento como referência, os volumes indicariam algo próximo de 5 milhões nas rodovias concedidas. No sistema sob gestão do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-SP), o volume descrito para o último ano foi 16% acima da média anual nos trechos monitorados — um indicativo do "efeito feriado" na pressão de tráfego.

No modal aéreo, Guarulhos (GRU Airport) reforça a leitura de porta de entrada: em 2025, o aeroporto estimou mais de 943 mil passageiros na semana de Carnaval, alta de mais de 8% em relação a 2024. Congonhas (Aena Brasil), por sua vez, trabalhou com a referência de cerca de 430 mil passageiros no período, com crescimento de 6% na comparação anual. Já no modal rodoviário, os terminais da capital (Tietê, Barra Funda e Jabaquara) operaram com expectativa de aproximadamente 680 mil passageiros no feriado, reforçando o peso do "bate-volta" e da curta distância na engrenagem turística metropolitana.

Carnaval eletrônico, megashows e disputa por atenção global

A agenda também ganha peso fora do eixo tradicional do samba. O Carnaval de São Paulo vem incorporando, com cada vez mais força, a lógica de "cidade-evento" — e isso inclui atrações que puxam o chamado turismo de experiência (o visitante que compra ingresso, deslocamento, consumo e, quando possível, pernoite). Um exemplo emblemático é a presença de Calvin Harris neste domingo, um nome de relevância global e com raras passagens pelo Brasil, elevando o "sarrafo" de atenção e consumo no período. No mercado, a movimentação também se traduz em marca e ativação: a Skol é apontada como patrocinadora central do Carnaval paulistano, em um modelo de patrocínio que ajuda a financiar estrutura, operação e serviços.

Turismo e ESG

O ponto de virada, porém, é o Turismo como grande gerador de emprego e renda. Descrito popularmente como a "indústria sem chaminés", ele se diferencia de setores em que a extração de matéria-prima e/ou a poluição são inerentes ao ganho econômico. Há ainda um efeito social frequentemente invisível: os catadores, que realizam um processo de limpeza e reciclagem quase automático no pós-bloco, garantindo renda e contribuindo para a sustentabilidade do ciclo.

O Turismo opera como economia de capilaridade: aciona uma cadeia extensa, com cerca de 52 setores da economia — de transporte e hospedagem a alimentação, comércio, eventos e serviços (sem contar o ganho em ISS e ICMS). Em São Paulo, essa engrenagem já aparece na macroeconomia: estimativas do Governo paulista indicam o turismo com participação de cerca de 10% do PIB estadual. E quando há investimento em promoção, os retornos podem ser expressivos: a Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) cita estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) segundo o qual cada R$ 1 aplicado em promoção turística pode retornar em R$ 20 em consumo na economia.

Os números estaduais mostram a escala; os dados da capital mostram o "chão" operacional; e a Região Metropolitana traduz o efeito de transbordamento — porque parte relevante do consumo se espalha entre hospedagem, gastronomia e serviços no entorno. Se a Grande São Paulo converter programação em permanência (pernoite), atrelada à experiência (roteiros, gastronomia, mobilidade e segurança), o Carnaval deixa de ser apenas folia — e vira estratégia econômica recorrente.