Entre histórias, design e vida urbana, Milão se revela
Veja o que visitar em uma das cidades-sede dos Jogos Olímpicos de Inverno
Comparada a Roma, Florença e Veneza, Milão é a mais sisuda das cidades italianas. Não tem uma atração âncora como o Coliseu, museus cheios de joias do Renascimento nem foi erguida sobre a água. A ausência de um chamariz absoluto liberta o turista de obrigações e de muvuca.
Para o bem e para o mal, não é uma cidade apegada a uma única época de ouro. Milão tem várias camadas históricas e, ao mesmo tempo, forte vocação contemporânea. Tem ruínas romanas modestas, um castelo do século 14 no centro, obras-primas do Leonardo Da Vinci, sinais das ocupações espanhola e austríaca, construções da era napoleônica e edifícios marcantes dos séculos 20 e 21.
Capital econômica do país, é considerada a mais europeia das cidades italianas. É um título esnobe, mas remete à qualidade da infraestrutura urbana. O transporte público funciona bem e as calçadas estão quase sempre limpas.
Para o turista disposto a andar, é uma alegria. É pequena em território, adensada e plana. Se bater o cansaço ou o clima atrapalhar, é fácil pegar metrô, bonde e ônibus.
Milão é uma central de eventos. Recebe o ano todo semanas de moda, design, arte, música e dezenas de feiras setoriais. Foi sede da Expo 2015, que fez explodir o turismo internacional, e abriga em fevereiro parte dos Jogos Olímpicos de Inverno. Entre um e outro compromisso, o visitante tem boas descobertas a explorar.
Primeiro dia
O essencial está nas redondezas da praça do Duomo, onde se chega de metrô. Construída em estilo gótico a partir de 1386, a catedral é feita de mármore, e seu efeito reluzente é impressionante quando bate o sol. São vários detalhes nas esculturas da parte externa.
Se for entrar, invista no ingresso com acesso à cobertura. Lá do alto dá para ver a cidade toda e, em dias de céu limpo, avistar até os Alpes.
De volta à praça, entre na galeria Vittorio Emanuele 2º, centro comercial do século 19. Coberta com estrutura de ferro e vidro, é uma passagem até o teatro Scala. Abriga vitrines luxuosas.
Uma parada estratégica pode ser feita na Pasticceria Marchesi, no mezanino. Dá para tomar um café no balcão, usar o banheiro e observar da janela o vaivém dentro da galeria.
De volta ao térreo, atravesse a galeria até a praça Scala. Ali ficam a prefeitura e a estátua do Da Vinci, que passou a maior parte da vida adulta em Milão.
O teatro é um dos mais importantes da Europa. Apesar da fachada discreta, não se engane: o Scala é precioso por dentro. É difícil conseguir ingresso em cima da hora, mas vale visitar seu interior.
Para escapar de armadilhas e preços caríssimos, é melhor se afastar do Duomo na hora de comer. Uma ideia é caminhar cerca de dez minutos até o bairro Brera.
São vários restaurantes com mesas dentro e fora, muitos com horário contínuo. Para um drinque e comida rápida, tem o histórico bar Jamaica. Para algo mais substancioso, vale a Taverna del Borgo Antico.
Aproveite e dê uma espiada no pátio da Pinacoteca de Brera, museu da época napoleônica. A coleção tem Caravaggio, Rafael, Veronese, mas não é imperdível.
Para terminar o dia, dá para bater perna pelas ruazinhas de Brera e, pela via Borgonuovo, chegar até o Quadrilátero da Moda, um concentrado de lojas de rua de grifes internacionais.
Segundo dia
A Pinacoteca Ambrosiana, a 500 metros do Duomo, é subestimada pelos turistas, mas é um tesouro. A sala imperdível é a última do percurso, onde estão expostas em rodízio páginas do Código Atlântico, a mais importante coleção de desenhos e manuscritos do Da Vinci. Tem esboços de pinturas, pesquisas matemáticas e projetos bélicos.
Também ali ficam o "Retrato de um Músico", uma natureza morta do Caravaggio e o rascunho em tamanho real da "Escola de Atenas", do Rafael.
Pela via Dante, caminhe cerca de 15 minutos até o castelo Sforzesco, dos anos 1300. Foi uma fortaleza militar e moradia das dinastias Visconti e Sforza. A circulação pelos pátios é de graça, mas os museus são a pagamento.
O castelo desemboca no parque Sempione, o maior da região central. Dá para avistar o Arco della Pace, monumento da era napoleônica, e passar um tempo ao ar livre.
Dentro do Sempione fica a Triennale, edifício dos anos 1930 com arquitetura racionalista e muitas atividades, entre exposições e espetáculos. Em fevereiro, reabre a mostra permanente dedicada ao design italiano do século 20.
Saindo do parque, em cerca de 15 minutos se chega a pé ao corso Magenta. Ali fica "A Última Ceia", pintada na parede do refeitório da igreja Santa Maria delle Grazie. Os ingressos oficiais se esgotam com meses de antecedência, mas a igreja também merece a visita.
Quem tiver pique pode terminar o dia no bairro Porta Nuova, com arranha-céus famosos e comida contemporânea. Tente chegar com a luz do dia para ver o Bosco Verticale.
Terceiro dia
Depois da maratona que passou por sete séculos no dia anterior, as últimas horas em Milão podem ser mais joviais. Comece pela Fundação Prada, um dos melhores endereços para arte contemporânea de Milão.
Mantido por Miuccia Prada, tem mostras permanentes e temporárias, sala de cinema, restaurante e um bar-café projetado pelo cineasta Wes Anderson.
É tudo muito fotogênico, a começar pela arquitetura do holandês Rem Koolhaas. Fica a cerca de três quilômetros do Duomo, mas dá para chegar de metrô.
Se estiver perto da hora de comer, vale tentar a Osteria Tajoli, descontraída e com pratos locais, como o risoto de açafrão e o bife à milanesa real oficial.
Para manter o clima "frizzante", pegue o metrô ou o bonde para o bairro Porta Venezia, que tem atrações para todos os tipos. Dá para fazer compras no corso Buenos Aires e fuçar em lojinhas das vias Melzo, Malpighi e Sirtori.
Ou visitar a Villa Necchi Campiglio, a casa-museu mais famosa da cidade. Criada pelo arquiteto Piero Portaluppi, a casa foi preservada com móveis e objetos originais.
Por fim, se despeça com um aperitivo nos muitos bares da região. Se tiver tempo e fome, reserve uma mesa no Consorzio Stoppani, de cozinha local. Tem um dos melhores bifes à milanesa de Milão e outros clássicos revistos.
